{"id":6233,"date":"2025-09-19T21:59:58","date_gmt":"2025-09-19T21:59:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=6233"},"modified":"2025-09-21T00:56:03","modified_gmt":"2025-09-21T00:56:03","slug":"a-travessia-do-choro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=6233","title":{"rendered":"A Travessia do Choro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Aldemar Araujo Castro<br \/>\nCria\u00e7\u00e3o: 20\/09\/2025<br \/>\nTempo de leitura: 5 minutos (1010 palavras)<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-20-at-08.52.16-1.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-6237\" src=\"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-20-at-08.52.16-1-200x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-20-at-08.52.16-1-200x300.jpeg 200w, https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-20-at-08.52.16-1-683x1024.jpeg 683w, https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-20-at-08.52.16-1-768x1152.jpeg 768w, https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-20-at-08.52.16-1.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Era a quarta noite de caminhada. Hav\u00edamos partido de Macei\u00f3 rumo ao rio Persinunga, que marca a divisa entre os estados de Alagoas e Pernambuco. A jornada j\u00e1 trazia no corpo de cada um a poeira dos quil\u00f4metros percorridos, o cansa\u00e7o acumulado e as marcas deixadas pela chuva insistente que, naquela noite, parecia querer nos testar ainda mais. O grupo, formado por adultos e crian\u00e7as, avan\u00e7ava em sil\u00eancio, o som dos passos misturado ao estalar das sand\u00e1lias molhadas na lama e ao farfalhar das capas de chuva encharcadas.<\/p>\n<p>Eu caminhava atr\u00e1s, como m\u00e9dico respons\u00e1vel pelo grupo. A posi\u00e7\u00e3o me permitia observar de longe, atento a qualquer sinal de cansa\u00e7o extremo ou indisposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era apenas uma fun\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica: era tamb\u00e9m uma vig\u00edlia silenciosa, um olhar que buscava prevenir antes de remediar.<\/p>\n<p>A travessia do rio havia sido lenta, dif\u00edcil, como se o pr\u00f3prio tempo tivesse se esticado naquela \u00e1gua barrenta que nos segurava pelas pernas. O frio castigava. Foi nesse cen\u00e1rio que, ao alcan\u00e7armos a outra margem, o inesperado rompeu a monotonia: uma crian\u00e7a de apenas nove anos come\u00e7ou a chorar desesperadamente.<\/p>\n<p>O choro n\u00e3o era discreto, nem contido. Era um choro que sacudia o corpo inteiro, uma explos\u00e3o de fragilidade que se espalhou pelo grupo. De imediato, os mais pr\u00f3ximos o cercaram. Ofereceram carinho, aten\u00e7\u00e3o, palavras doces. Houve at\u00e9 quem massageasse seus p\u00e9s, na tentativa de arrancar dali o motivo da dor. Aos poucos, o menino foi se acalmando. O pranto cessou, o corpo relaxou. Seguimos adiante.<\/p>\n<p>Cinco minutos depois, por\u00e9m, o choro voltou. E dessa vez ainda mais agudo, mais lancinante, como se o al\u00edvio anterior tivesse sido apenas um v\u00e9u passageiro. O grupo, j\u00e1 cansado, hesitou. Um dos l\u00edderes, percebendo a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tentou novas massagens nem palavras de consolo. Decidiu traz\u00ea-lo at\u00e9 mim, que caminhava mais afastado, no fim da fila.<\/p>\n<p>Vi o menino se aproximar. Vinha em prantos, os olhos vermelhos, o corpo encolhido pelo frio e pelo medo. Parei. Coloquei o joelho no ch\u00e3o, para que ficasse na altura dele. Ajoelhar-se diante de uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um gesto de submiss\u00e3o, mas de respeito: \u00e9 dizer, com o corpo, \u201cestamos no mesmo n\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>E ali, olhando em seus olhos marejados, eu disse no ouvido dele, sem que ningu\u00e9m mais escutasse:<\/p>\n<p>\u2014 Que porra \u00e9 essa? Voc\u00ea est\u00e1 sentindo alguma coisa?<\/p>\n<p>Ele ficou at\u00f4nito. Talvez esperasse um novo colo, uma palavra de do\u00e7ura. Mas encontrou firmeza, encontrou choque. O sil\u00eancio dele era o espa\u00e7o exato para a minha pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o. Continuei:<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou tirar sua camisa molhada. Vou arranjar uma camisa seca para voc\u00ea. Vai se enxugar com uma toalha. Depois vou secar sua capa de chuva. Voc\u00ea vai comer mel de abelha, tomar \u00e1gua e caminhar na frente do grupo.<\/p>\n<p>O menino me olhou assustado, mas tamb\u00e9m intrigado. N\u00e3o havia ali pena, nem excesso de ternura. Havia clareza, dire\u00e7\u00e3o, uma ordem pr\u00e1tica. Fiz tudo como disse: tirei a roupa molhada, vesti a seca, cuidei da capa. Dei-lhe o mel, a \u00e1gua. E o posicionei \u00e0 frente, como parte da vanguarda.<\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreendeu o que aconteceu a seguir. Dez minutos depois, aquele mesmo garoto, que minutos antes chorava inconsol\u00e1vel, agora liderava a caminhada. Era o mais r\u00e1pido, o mais disposto, quase como se o choro tivesse sido expurgado pela nova postura que lhe foi imposta.<\/p>\n<p>Enquanto o grupo avan\u00e7ava, fiquei refletindo. O que havia feito n\u00e3o era apenas socorro f\u00edsico. Era um gesto pedag\u00f3gico. A inf\u00e2ncia \u00e9 feita de acolhimento, sim, mas tamb\u00e9m de limites e desafios. E naquele momento, em meio \u00e0 chuva, \u00e0 lama e ao frio, a vida me deu a oportunidade de ensinar uma li\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da medicina: a forma\u00e7\u00e3o de um homem.<\/p>\n<p>Educar n\u00e3o \u00e9 proteger de todo sofrimento. \u00c9, muitas vezes, ensinar a enfrent\u00e1-lo. \u00c9 mostrar que, dentro do desconforto, existe uma for\u00e7a que ainda n\u00e3o foi descoberta. O ambiente era seguro e controlado; est\u00e1vamos em grupo, atentos, prontos para intervir em qualquer emerg\u00eancia. Justamente por isso, aquele era o lugar ideal para que o menino aprendesse, cedo, que os desafios n\u00e3o s\u00e3o barreiras intranspon\u00edveis, mas convites para crescer.<\/p>\n<p>Enquanto caminhava, pensei nos paradoxos da vida. \u00c0s vezes, um colo aquece. Mas em outras, o colo pode enfraquecer, pode alimentar a ideia de que a fragilidade \u00e9 o \u00fanico caminho. O menino j\u00e1 havia recebido carinho, massagem nos p\u00e9s, palavras doces. Nada disso foi suficiente. Faltava-lhe a provoca\u00e7\u00e3o que o tirasse da posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima e o colocasse diante da pr\u00f3pria responsabilidade.<\/p>\n<p>O choro era real, o sofrimento era verdadeiro. Mas tamb\u00e9m era uma encruzilhada. Se ele permanecesse nele, seria sempre lembrado como o menino que chorou na travessia. Ao se superar, ao assumir a dianteira, ele se transformava em algo maior: em exemplo para os outros, em protagonista da pr\u00f3pria jornada.<\/p>\n<p>Naquela noite, aprendi que o papel de um l\u00edder, seja m\u00e9dico, professor ou guia, n\u00e3o \u00e9 apenas curar feridas vis\u00edveis. \u00c9, sobretudo, enxergar a pot\u00eancia escondida em cada pessoa e criar condi\u00e7\u00f5es para que ela flores\u00e7a. Nem sempre o rem\u00e9dio \u00e9 doce. \u00c0s vezes, o que cura \u00e9 a firmeza, a palavra dura, o choque necess\u00e1rio para despertar.<\/p>\n<p>O menino seguiu em frente. N\u00e3o sei se recordar\u00e1, no futuro, daquela noite chuvosa, da roupa seca, do mel adocicado no paladar cansado. Talvez n\u00e3o se lembre de cada detalhe. Mas acredito que algo ficou gravado nele: a sensa\u00e7\u00e3o de que, diante do choro, \u00e9 poss\u00edvel levantar, caminhar e, mais do que isso, liderar.<\/p>\n<p>E eu, por minha vez, tamb\u00e9m n\u00e3o sa\u00ed ileso. A cena me ensinou que liderar n\u00e3o \u00e9 escolher entre dureza e ternura. \u00c9 saber equilibr\u00e1-las, como quem maneja dois instrumentos em harmonia. O verdadeiro mestre n\u00e3o conforta demais nem exige al\u00e9m da conta. Ele l\u00ea o momento, percebe a brecha certa e age para que o outro cres\u00e7a.<\/p>\n<p>Na beira do rio Salgado, naquela quarta noite, n\u00e3o formamos apenas quil\u00f4metros percorridos. Formamos car\u00e1ter. E descobri, mais uma vez, que o inesperado \u00e9 sempre o grande professor.<\/p>\n<h3><strong>Moral da Hist\u00f3ria<\/strong><\/h3>\n<p>Educar n\u00e3o \u00e9 evitar o sofrimento, mas ensinar a enfrent\u00e1-lo com coragem. O verdadeiro mestre n\u00e3o oferece atalhos, mas mostra ao aprendiz que ele j\u00e1 possui, dentro de si, a for\u00e7a para atravessar o pr\u00f3prio rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aldemar Araujo Castro Cria\u00e7\u00e3o: 20\/09\/2025 Tempo de leitura: 5 minutos (1010 palavras) Era a quarta noite de caminhada. Hav\u00edamos partido de Macei\u00f3 rumo ao rio Persinunga, que marca a divisa entre os estados de Alagoas e Pernambuco. 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