{"id":655,"date":"2011-02-16T23:02:08","date_gmt":"2011-02-17T02:02:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.decisaoclinica.com\/blog\/?p=655"},"modified":"2011-02-16T23:02:08","modified_gmt":"2011-02-17T02:02:08","slug":"passeio-socratico-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=655","title":{"rendered":"Passeio Socr\u00e1tico (Frei Betto)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">PASSEIO SOCR\u00c1TICO<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">Frei Betto<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"> Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de S\u00e3o Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, j\u00e1 haviam tomado caf\u00e9 da manh\u00e3 em casa, mas como a companhia a\u00e9rea oferecia um outro caf\u00e9, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"> Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, \u00e0s nove da manh\u00e3, e perguntei: \u201cN\u00e3o foi \u00e0 aula?\u201d Ela respondeu: \u201cN\u00e3o; minha aula \u00e9 \u00e0 tarde\u201d. Comemorei: \u201cQue bom, ent\u00e3o de manh\u00e3 voc\u00ea pode brincar, dormir um pouco mais\u201d. \u201cN\u00e3o\u201d, ela retrucou, \u201ctenho tanta coisa de manh\u00e3&#8230;\u201d \u201cQue tanta coisa?\u201d, indaguei. \u201cAulas de ingl\u00eas, bal\u00e9, pintura, piscina\u201d, e come\u00e7ou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: \u201cQue pena, a Daniela n\u00e3o disse: \u2018Tenho aula de medita\u00e7\u00e3o!\u2019\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"> A sociedade na qual vivemos constr\u00f3i super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos s\u00e3o emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que\u00a0 o QI (Quociente Intelectual), \u00e9 a IE (Intelig\u00eancia Emocional). N\u00e3o adianta ser um superexecutivo se\u00a0 n\u00e3o se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os curr\u00edculos escolares inclu\u00edrem aulas de medita\u00e7\u00e3o!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"> Uma pr\u00f3spera cidade do interior de S\u00e3o Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de gin\u00e1stica; hoje, tem sessenta academias de gin\u00e1stica e tr\u00eas livrarias! N\u00e3o\u00a0 tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a despropor\u00e7\u00e3o em\u00a0 rela\u00e7\u00e3o \u00e0 malha\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Acho \u00f3timo, vamos todos morrer esbeltos: \u201cComo estava o defunto?\u201d. \u201cOlha, uma maravilha, n\u00e3o tinha uma celulite!\u201d Mas como fica a quest\u00e3o da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">Outrora, falava-se em realidade: an\u00e1lise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra \u00e9 virtualidade. Tudo \u00e9 virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: n\u00e3o se pega aids, n\u00e3o h\u00e1 envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Bras\u00edlia, um homem pode ter uma amiga \u00edntima em T\u00f3quio, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o de conhecer o seu vizi\u00adnho de pr\u00e9dio ou de quadra! Tudo \u00e9 virtual, entramos na virtualidade de todos os\u00a0 valores, n\u00e3o h\u00e1 compromisso com o real! \u00c9 muito grave esse processo de\u00a0 abstra\u00e7\u00e3o da linguagem, de sentimentos: somos m\u00edsticos virtuais, religiosos\u00a0 virtuais, cidad\u00e3os virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos tamb\u00e9m eticamente virtuais\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">A cultura come\u00e7a onde a natureza termina. Cultura \u00e9 o refinamento do esp\u00edrito.\u00a0 Televis\u00e3o, no Brasil &#8211; com raras e honrosas exce\u00e7\u00f5es -, \u00e9 um problema: a cada\u00a0 semana que passa, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje \u00e9 \u2018entretenimento\u2019; domingo, ent\u00e3o, \u00e9 o dia nacional da imbecilidade coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai l\u00e1 e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade n\u00e3o consegue vender felicidade, passa a ilus\u00e3o de que felicidade \u00e9\u00a0 o resultado da soma de prazeres: \u201cSe tomar este refrigerante, vestir este\u00a0 t\u00eanis,\u00ad usar esta camisa, comprar este carro, voc\u00ea chega l\u00e1!\u201d O problema \u00e9\u00a0 que, em geral, n\u00e3o se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que\u00a0 acaba\u00ad precisando de um analista. Ou de rem\u00e9dios. Quem resiste, aumenta a neurose.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Coloc\u00e1-los onde? Eu,\u00a0 que n\u00e3o sou da \u00e1rea, posso me dar o direito de apresentar uma su\u00adgest\u00e3o.\u00a0 Acho que s\u00f3 h\u00e1 uma sa\u00edda: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele\u00a0 n\u00e3o tem aonde ir! O grande desafio \u00e9 virar o desejo para dentro, gostar de si\u00a0 mesmo, come\u00e7ar a ver o quanto \u00e9 bom ser livre de todo esse condicionamento\u00a0 globocolonizador, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Ali\u00e1s, para uma boa sa\u00fade mental tr\u00eas requisitos s\u00e3o indispens\u00e1veis: amizades, auto-estima, aus\u00eancia de estresse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"> H\u00e1 uma l\u00f3gica religiosa no consumismo p\u00f3s-moderno. Se algu\u00e9m vai \u00e0 Europa e visita\u00a0 uma pequena cidade onde h\u00e1 uma catedral, deve procurar saber a hist\u00f3ria\u00a0 daquela cidade &#8211; a catedral \u00e9 o sinal de que ela tem hist\u00f3ria. Na Idade M\u00e9dia,\u00a0 as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,\u00a0 constr\u00f3i-se um shopping center. \u00c9 curioso: a maioria dos shopping\u00a0 centers tem linhas arquitet\u00f4nicas de catedrais estilizadas;\u00a0 neles n\u00e3o se pode ir de qualquer maneira, \u00e9 preciso vestir roupa de\u00a0 missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensa\u00e7\u00e3o paradis\u00edaca: n\u00e3o h\u00e1 mendigos, crian\u00e7as de rua, sujeira pelas cal\u00e7adas&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano p\u00f3s-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os v\u00e1rios nichos, todas aquelas capelas com os vener\u00e1veis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar \u00e0 vista, sente-se no reino dos c\u00e9us. Se deve passar cheque pr\u00e9-datado, pagar a cr\u00e9dito,\u00a0 entrar no cheque especial, sente-se no purgat\u00f3rio. Mas se n\u00e3o pode comprar,\u00a0 certamente vai se sentir no inferno&#8230; Felizmente, terminam todos na eucaristia p\u00f3s-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hamb\u00farguer de uma cadeia transnacional de sandu\u00edches saturados de gordura\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">Costumo advertir os balconistas que me cercam \u00e0 porta das lojas: \u201c<strong>Estou apenas fazendo um passeio socr\u00e1tico.<\/strong>\u201d Diante de seus olhares espantados, explico: \u201cS\u00f3crates, fil\u00f3sofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, tamb\u00e9m gostava de descansar a cabe\u00e7a percorrendo o centro\u00a0 comercial de Atenas. Quando vendedores como voc\u00eas o assediavam, ele respondia: \u201c<strong>Estou apenas observando quanta coisa existe de que n\u00e3o preciso para ser\u00a0 feliz.<\/strong>\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/www.freibetto.org\/index.php\/artigos\/73-passeio-socratico\" target=\"_blank\">http:\/\/www.freibetto.org\/index.php\/artigos\/73-passeio-socratico<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PASSEIO SOCR\u00c1TICO Frei Betto Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de S\u00e3o Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. 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