{"id":7838,"date":"2026-07-23T14:21:45","date_gmt":"2026-07-23T14:21:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7838"},"modified":"2026-07-23T14:36:02","modified_gmt":"2026-07-23T14:36:02","slug":"nao-sei-nao-se-aplica-prefiro-nao-responder-a-etica-e-a-metodologia-das-opcoes-de-recusa-em-escalas-likert","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7838","title":{"rendered":"N\u00e3o sei, n\u00e3o se aplica, prefiro n\u00e3o responder: a \u00e9tica e a metodologia das op\u00e7\u00f5es de recusa em escalas Likert"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Autonomia e rigor metodol\u00f3gico na recusa e no desconhecimento em escalas Likert<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Aldemar Araujo Castro<br \/>\nCria\u00e7\u00e3o: 23\/07\/2026<br \/>\nAtualiza\u00e7\u00e3o: 23\/07\/2026<br \/>\nPalavras: 2483<br \/>\nTempo de leitura: 12 minutos<\/p>\n<p><strong>Resumo.<\/strong> Este texto examina a inclus\u00e3o de alternativas de n\u00e3o resposta, n\u00e3o sei, n\u00e3o se aplica e prefiro n\u00e3o responder, em escalas Likert utilizadas em pesquisas na \u00e1rea da sa\u00fade e em ci\u00eancias humanas. Discute o fundamento dessa pr\u00e1tica nas Resolu\u00e7\u00f5es CNS 466\/2012 e 510\/2016, distingue os quatro significados normalmente confundidos entre si, prop\u00f5e crit\u00e9rios de apresenta\u00e7\u00e3o visual no instrumento, indica quando a inclus\u00e3o dessas alternativas \u00e9 especialmente recomend\u00e1vel e detalha as consequ\u00eancias metodol\u00f3gicas do tratamento e da codifica\u00e7\u00e3o dos dados ausentes, incluindo o cuidado necess\u00e1rio ao adaptar escalas psicom\u00e9tricas j\u00e1 validadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 id=\"autonomia-e-o-direito-de-n\u00e3o-responder\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Imagine um question\u00e1rio de pesquisa em sa\u00fade que apresenta a afirma\u00e7\u00e3o \u201csinto que meu tratamento tem sido eficaz\u201d e obriga o respondente a escolher entre discordar totalmente e concordar totalmente, sem qualquer alternativa para quem simplesmente n\u00e3o sabe avaliar o pr\u00f3prio tratamento, para quem a pergunta n\u00e3o se aplica ao seu caso, ou para quem prefere, por raz\u00f5es leg\u00edtimas, n\u00e3o expor sua situa\u00e7\u00e3o. Esse cen\u00e1rio \u00e9 mais comum do que se imagina, e revela um problema que atravessa a bio\u00e9tica e a metodologia cient\u00edfica ao mesmo tempo: o que fazer quando o participante n\u00e3o quer, ou n\u00e3o pode, responder ao que a escala Likert prop\u00f5e.<\/p>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o de tratar essa lacuna como um detalhe operacional \u00e9 grande, mas equivocada. A aus\u00eancia de alternativas de recusa em instrumentos de coleta pode for\u00e7ar respostas artificiais, comprometer a validade dos dados e, mais gravemente, ferir a autonomia do participante de pesquisa. Ao mesmo tempo, a solu\u00e7\u00e3o simplista de acrescentar qualquer op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o resposta sem crit\u00e9rio traz riscos pr\u00f3prios, entre eles o de confundir categorias conceitualmente distintas e distorcer a an\u00e1lise estat\u00edstica. Este texto examina como conciliar respeito \u00e0 autonomia e rigor metodol\u00f3gico na constru\u00e7\u00e3o de escalas Likert, distinguindo com precis\u00e3o as alternativas de n\u00e3o resposta e indicando como trat\u00e1-las desde o desenho do instrumento at\u00e9 a an\u00e1lise final dos dados.<\/p>\n<h2 id=\"autonomia-e-o-direito-de-n\u00e3o-responder\">Autonomia e o direito de n\u00e3o responder<\/h2>\n<p>A <strong>autonomia<\/strong> \u00e9 um dos pilares da pesquisa com seres humanos, e sua tradu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica vai muito al\u00e9m da assinatura de um termo de consentimento. No Brasil, a Resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Sa\u00fade n\u00ba 466, de 2012, estabelece que o participante deve ter liberdade para recusar-se a participar, para retirar o consentimento em qualquer fase do estudo e para n\u00e3o sofrer qualquer penaliza\u00e7\u00e3o ou preju\u00edzo em decorr\u00eancia dessa decis\u00e3o. A Resolu\u00e7\u00e3o CNS n\u00ba 510, de 2016, direcionada em particular \u00e0s ci\u00eancias humanas e sociais, refor\u00e7a esse mesmo direito de recusa, somando-lhe a exig\u00eancia de aus\u00eancia de constrangimento, de prote\u00e7\u00e3o da privacidade e de manifesta\u00e7\u00e3o verdadeiramente aut\u00f4noma, consciente, livre e esclarecida por parte de quem participa.<\/p>\n<p>Esse arcabou\u00e7o normativo n\u00e3o se limita \u00e0 desist\u00eancia integral do estudo. Ele tamb\u00e9m ampara a <strong>recusa parcial<\/strong>, isto \u00e9, a decis\u00e3o de n\u00e3o responder a uma pergunta espec\u00edfica sem que isso implique exclus\u00e3o do participante da pesquisa como um todo. Permitir que determinados itens do question\u00e1rio fiquem sem resposta \u00e9, portanto, coerente com o pr\u00f3prio esp\u00edrito da autonomia protegida pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Contudo, seria ing\u00eanuo supor que a autonomia se resume \u00e0 inser\u00e7\u00e3o de uma alternativa a mais no instrumento. Ela pressup\u00f5e informa\u00e7\u00e3o adequada sobre o prop\u00f3sito da pergunta, compreens\u00e3o real do que est\u00e1 sendo solicitado, <strong>voluntariedade<\/strong> na decis\u00e3o de responder ou n\u00e3o, aus\u00eancia de qualquer forma de coer\u00e7\u00e3o, garantia efetiva de privacidade, possibilidade concreta de desist\u00eancia a qualquer momento e, por fim, a certeza de que a recusa n\u00e3o acarretar\u00e1 nenhuma <strong>consequ\u00eancia negativa<\/strong> para o participante. Um formul\u00e1rio eletr\u00f4nico que impede o avan\u00e7o sem preenchimento obrigat\u00f3rio de todos os campos, por exemplo, nega na pr\u00e1tica o que promete no papel: a liberdade de n\u00e3o responder deixa de existir se o sistema n\u00e3o a permite exercer.<\/p>\n<h2 id=\"quatro-alternativas-quatro-significados\">Quatro alternativas, quatro significados<\/h2>\n<p>Um erro conceitual frequente consiste em tratar todas as formas de n\u00e3o resposta como equivalentes. Na realidade, ao menos quatro situa\u00e7\u00f5es distintas precisam ser separadas com clareza. A op\u00e7\u00e3o <strong>nem concordo nem discordo<\/strong> representa um respondente que possui opini\u00e3o formada, mas que se posiciona no ponto intermedi\u00e1rio da escala, entre a concord\u00e2ncia e a discord\u00e2ncia. J\u00e1 a alternativa <strong>n\u00e3o sei<\/strong> expressa algo qualitativamente diferente: a aus\u00eancia de conhecimento ou de elementos suficientes para formular qualquer julgamento sobre o item. A op\u00e7\u00e3o <strong>n\u00e3o se aplica<\/strong> indica que a pergunta, tal como formulada, n\u00e3o corresponde \u00e0 experi\u00eancia vivida pelo respondente. Por fim, <strong>prefiro n\u00e3o responder<\/strong> sinaliza que o participante compreendeu perfeitamente a pergunta, possivelmente at\u00e9 tem uma opini\u00e3o a respeito, mas decidiu, por raz\u00f5es pr\u00f3prias, n\u00e3o a comunicar ao pesquisador.<\/p>\n<p>Um exemplo torna a distin\u00e7\u00e3o mais concreta. Diante da afirma\u00e7\u00e3o \u201ca intelig\u00eancia artificial melhora a qualidade da pesquisa cient\u00edfica\u201d, um respondente pode legitimamente n\u00e3o concordar nem discordar porque pondera vantagens e desvantagens de forma equilibrada, sem inclina\u00e7\u00e3o clara para nenhum dos polos. Outro pode responder n\u00e3o sei simplesmente porque desconhece o assunto e n\u00e3o se sente apto a opinar. Um terceiro pode escolher n\u00e3o se aplica porque nunca utilizou qualquer ferramenta de intelig\u00eancia artificial em sua rotina de pesquisa. Um quarto, ainda, pode preferir n\u00e3o responder porque considera o tema controverso e n\u00e3o deseja registrar publicamente sua posi\u00e7\u00e3o, mesmo tendo uma opini\u00e3o formada. Cada uma dessas quatro pessoas est\u00e1, na verdade, comunicando algo diferente ao pesquisador, e trat\u00e1-las como um \u00fanico bloco de dados ausentes \u00e9 perder informa\u00e7\u00e3o valiosa sobre a natureza da n\u00e3o resposta. A literatura sobre satisficing em pesquisas de opini\u00e3o j\u00e1 demonstrava, d\u00e9cadas atr\u00e1s, que respondentes recorrem a estrat\u00e9gias cognitivas diversas quando o esfor\u00e7o de responder integralmente a uma pergunta parece desproporcional ao benef\u00edcio percebido, e que essas estrat\u00e9gias produzem respostas de natureza distinta entre si (Krosnick, 1991).<\/p>\n<h2 id=\"como-apresentar-as-alternativas-no-question\u00e1rio\">Como apresentar as alternativas no question\u00e1rio<\/h2>\n<p>A forma de apresenta\u00e7\u00e3o dessas alternativas no instrumento n\u00e3o \u00e9 um detalhe est\u00e9tico, mas uma decis\u00e3o que afeta diretamente a interpreta\u00e7\u00e3o dos dados. A boa pr\u00e1tica recomenda manter a escala Likert propriamente dita intacta, por exemplo, discordo totalmente, discordo, nem concordo nem discordo, concordo e concordo totalmente, e acrescentar as op\u00e7\u00f5es de n\u00e3o resposta em bloco <strong>visualmente separado<\/strong>, com instru\u00e7\u00e3o clara de que elas n\u00e3o fazem parte da grada\u00e7\u00e3o de concord\u00e2ncia. Essa separa\u00e7\u00e3o impede que o respondente interprete n\u00e3o sei como uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria adicional entre discord\u00e2ncia e concord\u00e2ncia, erro de leitura que compromete tanto a experi\u00eancia do participante quanto a qualidade psicom\u00e9trica do instrumento.<\/p>\n<p>A escolha das palavras tamb\u00e9m importa. A express\u00e3o <strong>prefiro n\u00e3o responder<\/strong> tende a ser mais acolhedora do que formula\u00e7\u00f5es alternativas como n\u00e3o desejo responder, porque comunica uma escolha leg\u00edtima e neutra, sem transmitir tom de resist\u00eancia ou de confronto ao pesquisador. Em instrumentos aplicados a popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis ou a temas delicados, esse cuidado sem\u00e2ntico pode fazer diferen\u00e7a percept\u00edvel na disposi\u00e7\u00e3o do participante em interagir honestamente com o restante do question\u00e1rio.<\/p>\n<p>Merece aten\u00e7\u00e3o especial o caso dos <strong>formul\u00e1rios digitais<\/strong>. N\u00e3o basta declarar, no termo de consentimento ou nas instru\u00e7\u00f5es do instrumento, que a resposta a determinado item \u00e9 facultativa, se a plataforma tecnicamente impede o avan\u00e7o para a pr\u00f3xima pergunta sem que o campo seja preenchido. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a liberdade formalmente reconhecida \u00e9 praticamente anulada pelo desenho do sistema, e o pesquisador que negligencia esse detalhe t\u00e9cnico compromete, sem perceber, o pr\u00f3prio consentimento que buscou obter.<\/p>\n<h2 id=\"quando-essas-alternativas-s\u00e3o-necess\u00e1rias\">Quando essas alternativas s\u00e3o necess\u00e1rias<\/h2>\n<p>Nem todo item de um question\u00e1rio exige as tr\u00eas alternativas de n\u00e3o resposta. A decis\u00e3o de inclu\u00ed-las, e quais delas incluir, depende de uma <strong>avalia\u00e7\u00e3o criteriosa<\/strong> que considera a sensibilidade da informa\u00e7\u00e3o solicitada, a probabilidade real de desconhecimento por parte da popula\u00e7\u00e3o estudada, a aplicabilidade da pergunta ao universo de respondentes, os riscos de <strong>constrangimento<\/strong> envolvidos, as caracter\u00edsticas espec\u00edficas do grupo pesquisado e o pr\u00f3prio objetivo cient\u00edfico do instrumento.<\/p>\n<p>A literatura sobre perguntas sens\u00edveis em levantamentos \u00e9 particularmente instrutiva aqui. Tourangeau e Yan (2007) mostram que temas relacionados a diagn\u00f3sticos de sa\u00fade, sexualidade, renda e situa\u00e7\u00e3o financeira, orienta\u00e7\u00e3o religiosa, opini\u00e3o pol\u00edtica, ra\u00e7a e etnia, exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, uso de subst\u00e2ncias, condutas il\u00edcitas e experi\u00eancias traum\u00e1ticas produzem, de forma sistem\u00e1tica, maior desconforto no respondente e maior propens\u00e3o \u00e0 distor\u00e7\u00e3o ou \u00e0 omiss\u00e3o da resposta verdadeira. Nesses dom\u00ednios, a alternativa prefiro n\u00e3o responder deixa de ser um refinamento opcional e passa a ser um componente indispens\u00e1vel de qualquer instrumento eticamente respons\u00e1vel. Yan (2021), em revis\u00e3o mais recente sobre as consequ\u00eancias de perguntas sens\u00edveis em levantamentos, refor\u00e7a que a inclus\u00e3o inadequada desses itens afeta n\u00e3o apenas a taxa de resposta ao item espec\u00edfico, mas tamb\u00e9m a disposi\u00e7\u00e3o do participante em continuar respondendo \u00e0s perguntas seguintes e mesmo em participar de rodadas futuras de coleta, no caso de estudos longitudinais.<\/p>\n<p>Essa avalia\u00e7\u00e3o, no entanto, precisa ser feita <strong>item por item<\/strong>, e n\u00e3o como decis\u00e3o gen\u00e9rica aplicada ao question\u00e1rio inteiro. Um instrumento que trata pergunta sobre escolaridade e pergunta sobre uso de subst\u00e2ncias com o mesmo conjunto padr\u00e3o de alternativas de recusa ignora que os riscos de constrangimento e de invas\u00e3o de privacidade variam substancialmente entre os dois casos. O pesquisador em forma\u00e7\u00e3o faria bem em elaborar, ainda na fase de desenho do protocolo submetido ao comit\u00ea de \u00e9tica, uma justificativa expl\u00edcita para cada item em que optar por incluir ou excluir as alternativas de n\u00e3o resposta, de modo que essa decis\u00e3o metodol\u00f3gica n\u00e3o pare\u00e7a arbitr\u00e1ria a avaliadores externos nem, tampouco, ao pr\u00f3prio participante que preenche o formul\u00e1rio.<\/p>\n<h2 id=\"as-consequ\u00eancias-metodol\u00f3gicas-do-dado-ausente\">As consequ\u00eancias metodol\u00f3gicas do dado ausente<\/h2>\n<p>Reconhecer o direito \u00e0 n\u00e3o resposta tem um pre\u00e7o metodol\u00f3gico: o aumento da quantidade de dados ausentes na base final. Esse aumento, contudo, n\u00e3o deve ser automaticamente interpretado como falha do instrumento ou do delineamento do estudo. Uma resposta omitida voluntariamente, por decis\u00e3o informada do participante, \u00e9 geralmente mais honesta do ponto de vista cient\u00edfico do que uma resposta for\u00e7ada e potencialmente fabricada apenas para satisfazer a exig\u00eancia de preenchimento completo do formul\u00e1rio. Groves (2006), em sua revis\u00e3o sobre taxas de n\u00e3o resposta e vi\u00e9s associado em levantamentos domiciliares, demonstra que a rela\u00e7\u00e3o entre n\u00e3o resposta e vi\u00e9s dos resultados n\u00e3o \u00e9 linear nem autom\u00e1tica, e que a simples contagem de itens ausentes diz pouco sobre o impacto real desses dados faltantes na validade do estudo, exigindo an\u00e1lise espec\u00edfica caso a caso.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pr\u00e1tico, recomenda-se que a base de dados utilize <strong>c\u00f3digos distintos<\/strong> para cada tipo de n\u00e3o resposta, por exemplo, os valores num\u00e9ricos de um a cinco para as respostas da escala propriamente dita, e c\u00f3digos separados como NS para n\u00e3o sei, NA para n\u00e3o se aplica e PNR para prefiro n\u00e3o responder. Essas tr\u00eas categorias jamais deveriam ser codificadas como zero, como ponto neutro da escala, como equivalente a discord\u00e2ncia, como <strong>valor m\u00e9dio artificial<\/strong> ou como qualquer categoria ordinal adicional inserida entre os cinco pontos originais. Transformar prefiro n\u00e3o responder em um valor num\u00e9rico igual a tr\u00eas, por exemplo, alteraria artificialmente a m\u00e9dia calculada para o item e produziria uma concentra\u00e7\u00e3o esp\u00faria de respostas no centro da distribui\u00e7\u00e3o, distorcendo qualquer conclus\u00e3o que dependa dessa m\u00e9dia.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio final da pesquisa tamb\u00e9m deve refletir essa distin\u00e7\u00e3o com transpar\u00eancia. \u00c9 recomend\u00e1vel apresentar o n\u00famero e o percentual de cada tipo de n\u00e3o resposta separadamente, os crit\u00e9rios adotados no tratamento estat\u00edstico dos dados ausentes, o impacto estimado dessas aus\u00eancias sobre os resultados apresentados, eventual concentra\u00e7\u00e3o de recusas em itens espec\u00edficos do instrumento e, quando aplic\u00e1vel, uma <strong>an\u00e1lise de sensibilidade<\/strong> que teste a robustez das conclus\u00f5es diante de diferentes tratamentos poss\u00edveis para os dados faltantes. Um padr\u00e3o elevado de respostas n\u00e3o sei pode indicar tanto desconhecimento genu\u00edno do tema pesquisado quanto reda\u00e7\u00e3o excessivamente complexa do item. Uma frequ\u00eancia alta de n\u00e3o se aplica pode apontar para sele\u00e7\u00e3o inadequada da popula\u00e7\u00e3o amostral em rela\u00e7\u00e3o ao conte\u00fado perguntado. J\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o expressiva de prefiro n\u00e3o responder costuma sinalizar pergunta invasiva, receio de identifica\u00e7\u00e3o pessoal por parte do respondente, ou garantias insuficientes de confidencialidade transmitidas pelo pesquisador durante a coleta.<\/p>\n<h2 id=\"escalas-psicom\u00e9tricas-validadas-e-os-limites-da-adapta\u00e7\u00e3o\">Escalas psicom\u00e9tricas validadas e os limites da adapta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Quando o instrumento em uso \u00e9 uma <strong>escala psicom\u00e9trica validada<\/strong> na literatura, a cautela precisa ser redobrada antes de qualquer altera\u00e7\u00e3o, incluindo o acr\u00e9scimo de alternativas de n\u00e3o resposta. Escalas validadas carregam consigo instru\u00e7\u00f5es originais de aplica\u00e7\u00e3o, procedimentos espec\u00edficos de c\u00e1lculo de pontua\u00e7\u00e3o, protocolos pr\u00f3prios para o tratamento de itens ausentes e um corpo de <strong>evid\u00eancias de validade e de confiabilidade<\/strong> constru\u00eddo justamente sobre a vers\u00e3o original do instrumento. Modificar essa estrutura, ainda que com boa inten\u00e7\u00e3o bio\u00e9tica, pode comprometer a comparabilidade dos resultados com estudos anteriores que utilizaram a mesma escala, e pode invalidar parcialmente as pr\u00f3prias evid\u00eancias psicom\u00e9tricas que justificam o uso do instrumento.<\/p>\n<p>Nessas situa\u00e7\u00f5es, o procedimento recomendado \u00e9 consultar cuidadosamente o manual da escala antes de qualquer adapta\u00e7\u00e3o, registrar de forma expl\u00edcita no protocolo de pesquisa submetido ao comit\u00ea de \u00e9tica qualquer modifica\u00e7\u00e3o introduzida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o original, e, dependendo da extens\u00e3o da mudan\u00e7a proposta, considerar a realiza\u00e7\u00e3o de um <strong>novo estudo piloto<\/strong> ou mesmo uma <strong>reavalia\u00e7\u00e3o psicom\u00e9trica<\/strong> formal do instrumento adaptado. O pesquisador que ignora essa etapa corre o risco de produzir dados que, embora eticamente mais confort\u00e1veis para o participante, tornam-se cientificamente incompar\u00e1veis com o corpo de literatura que originalmente justificou a escolha da escala.<\/p>\n<p>Vale ainda observar que a decis\u00e3o de adaptar ou n\u00e3o uma escala validada n\u00e3o deve caber apenas ao pesquisador isoladamente. Comit\u00eas de \u00e9tica em pesquisa, orientadores e, quando existentes, consultores em metodologia quantitativa cumprem papel relevante nessa avalia\u00e7\u00e3o, sobretudo em estudos de mestrado e doutorado, nos quais a press\u00e3o por cronogramas apertados pode levar \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de alterar o instrumento sem a devida documenta\u00e7\u00e3o. Registrar por escrito a justificativa da adapta\u00e7\u00e3o, incluindo a fundamenta\u00e7\u00e3o bio\u00e9tica que a motivou, protege tanto a integridade cient\u00edfica do estudo quanto o pr\u00f3prio pesquisador, caso a decis\u00e3o seja questionada posteriormente por avaliadores, revisores de peri\u00f3dico ou pela banca examinadora.<\/p>\n<h2 id=\"considera\u00e7\u00f5es-finais\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n<p>Oferecer n\u00e3o sei, n\u00e3o se aplica e prefiro n\u00e3o responder como alternativas em uma escala Likert \u00e9, em muitos contextos, uma pr\u00e1tica eticamente recomend\u00e1vel e metodologicamente defens\u00e1vel, desde que executada com o rigor conceitual que o tema exige. Essas tr\u00eas alternativas reconhecem, cada qual \u00e0 sua maneira, um direito distinto do participante de pesquisa: o direito de n\u00e3o possuir conhecimento suficiente sobre o que se pergunta, o direito de n\u00e3o estar de fato abrangido pela situa\u00e7\u00e3o descrita no item, e o direito de decidir autonomamente n\u00e3o fornecer determinada informa\u00e7\u00e3o, mesmo quando ela existe e \u00e9 conhecida pelo pr\u00f3prio respondente. Confundir essas tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es entre si, ou confundi-las com o ponto m\u00e9dio da escala, empobrece tanto a experi\u00eancia \u00e9tica do participante quanto a qualidade estat\u00edstica da pesquisa produzida. A finalidade cient\u00edfica de um estudo, por mais relevante que seja, jamais deveria transformar o participante em algu\u00e9m obrigado a responder aquilo que n\u00e3o sabe, que n\u00e3o vivenciou, ou que legitimamente prefere manter para si.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a autonomia reconhecida ao participante n\u00e3o dispensa o pesquisador do rigor metodol\u00f3gico que a ci\u00eancia exige. As alternativas de n\u00e3o resposta precisam ser separadas visualmente da escala numerada, codificadas de forma distinta na base de dados, jamais convertidas em valores que distor\u00e7am m\u00e9dias ou concentrem artificialmente respostas no centro da distribui\u00e7\u00e3o, e descritas com transpar\u00eancia completa no relat\u00f3rio final, incluindo sua frequ\u00eancia, sua distribui\u00e7\u00e3o entre os itens e seu impacto potencial sobre as conclus\u00f5es do estudo. Pesquisadores em forma\u00e7\u00e3o fariam bem em incorporar essa distin\u00e7\u00e3o j\u00e1 na fase de desenho do instrumento, antes da coleta de dados, e n\u00e3o como remendo posterior diante de reclama\u00e7\u00f5es de participantes ou de questionamentos de comit\u00eas de \u00e9tica. Um question\u00e1rio que respeita, com precis\u00e3o conceitual, os diferentes modos de n\u00e3o resposta, comunica ao participante algo que vai al\u00e9m da cortesia processual: comunica que sua autonomia foi, de fato, levada a s\u00e9rio pelo pesquisador que o convidou a colaborar com a ci\u00eancia.<\/p>\n<h2 id=\"fontes\">Fontes<\/h2>\n<p><strong>1.<\/strong> RIPPEL, J.A.; MEDEIROS, C.A.; MALUF, F. Declara\u00e7\u00e3o Universal sobre Bio\u00e9tica e Direitos Humanos e Resolu\u00e7\u00e3o CNS 466\/2012: an\u00e1lise comparativa. Revista Bio\u00e9tica. 2016;24(3):603-612.<br \/>\nDOI: https:\/\/doi.org\/10.1590\/1983-80422016243160<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/bioet\/a\/rg4X4CZytvcLJLQXjmTzTJK\/<br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: o artigo compara a Resolu\u00e7\u00e3o CNS 466\/2012 com a Declara\u00e7\u00e3o Universal sobre Bio\u00e9tica e Direitos Humanos, evidenciando como o princ\u00edpio da autonomia foi incorporado \u00e0 norma brasileira de pesquisa com seres humanos. Fundamenta, no presente texto, a liga\u00e7\u00e3o entre autonomia normativa e o direito de recusa parcial em instrumentos de coleta.<\/em><\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> TOURANGEAU, R.; YAN, T. Sensitive questions in surveys. Psychological Bulletin. 2007;133(5):859-883.<br \/>\nDOI: https:\/\/doi.org\/10.1037\/0033-2909.133.5.859<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/17723033\/<br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: revis\u00e3o cl\u00e1ssica sobre o comportamento de resposta diante de perguntas sens\u00edveis, identificando os dom\u00ednios tem\u00e1ticos em que a distor\u00e7\u00e3o e a omiss\u00e3o de respostas s\u00e3o mais frequentes. Sustenta, neste texto, a lista de temas em que a alternativa prefiro n\u00e3o responder \u00e9 especialmente recomend\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> KROSNICK, J.A. Response strategies for coping with the cognitive demands of attitude measures in surveys. Applied Cognitive Psychology. 1991;5(3):213-236.<br \/>\nDOI: https:\/\/doi.org\/10.1002\/acp.2350050305<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1002\/acp.2350050305<br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: introduz o conceito de satisficing em pesquisas de opini\u00e3o, explicando por que respondentes recorrem a estrat\u00e9gias cognitivas distintas diante do esfor\u00e7o exigido por um item. Embasa, no texto, a distin\u00e7\u00e3o entre as diferentes motiva\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s de cada alternativa de n\u00e3o resposta.<\/em><\/p>\n<p><strong>4.<\/strong> GROVES, R.M. Nonresponse rates and nonresponse bias in household surveys. Public Opinion Quarterly. 2006;70(5):646-675.<br \/>\nDOI: https:\/\/doi.org\/10.1093\/poq\/nfl033<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/academic.oup.com\/poq\/article\/70\/5\/646\/4084443<br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: demonstra que a rela\u00e7\u00e3o entre taxas de n\u00e3o resposta e vi\u00e9s nos resultados n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica nem linear, exigindo an\u00e1lise espec\u00edfica em cada estudo. Sustenta, no texto, a recomenda\u00e7\u00e3o de reportar e analisar o impacto real dos dados ausentes, em vez de apenas contabiliz\u00e1-los.<\/em><\/p>\n<p><strong>5.<\/strong> YAN, T. Consequences of asking sensitive questions in surveys. Annual Review of Statistics and Its Application. 2021;8:109-127.<br \/>\nDOI: https:\/\/doi.org\/10.1146\/annurev-statistics-040720-033353<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/www.annualreviews.org\/doi\/abs\/10.1146\/annurev-statistics-040720-033353<br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: revis\u00e3o recente que articula o efeito de perguntas sens\u00edveis sobre a n\u00e3o resposta ao item, a n\u00e3o resposta em ondas subsequentes e a qualidade da mensura\u00e7\u00e3o. Fundamenta, no texto, a an\u00e1lise item a item da necessidade de alternativas de recusa, em vez de uma regra gen\u00e9rica para todo o instrumento.<\/em><\/p>\n<h2 id=\"pontos-para-recordar\">Pontos para Recordar<\/h2>\n<ol type=\"1\">\n<li>A autonomia do participante de pesquisa, protegida pelas Resolu\u00e7\u00f5es CNS 466\/2012 e 510\/2016, ampara n\u00e3o apenas a desist\u00eancia total do estudo, mas tamb\u00e9m a recusa parcial em responder itens espec\u00edficos do question\u00e1rio.<\/li>\n<li>Nem concordo nem discordo, n\u00e3o sei, n\u00e3o se aplica e prefiro n\u00e3o responder s\u00e3o quatro categorias com significados distintos entre si, e nenhuma delas equivale a neutralidade ou a discord\u00e2ncia.<\/li>\n<li>As alternativas de n\u00e3o resposta devem aparecer visualmente separadas da escala Likert numerada, para que o respondente n\u00e3o as interprete como posi\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias adicionais.<\/li>\n<li>A express\u00e3o prefiro n\u00e3o responder costuma ser mais acolhedora do que formula\u00e7\u00f5es que soam como recusa ou confronto, e favorece a honestidade do restante do question\u00e1rio.<\/li>\n<li>A inclus\u00e3o dessas alternativas \u00e9 especialmente recomend\u00e1vel em perguntas sobre sa\u00fade, sexualidade, renda, religi\u00e3o, opini\u00e3o pol\u00edtica, ra\u00e7a, viol\u00eancia, uso de subst\u00e2ncias e experi\u00eancias traum\u00e1ticas.<\/li>\n<li>Os dados de n\u00e3o resposta devem ser codificados com categorias pr\u00f3prias, distintas de zero, de ponto neutro ou de qualquer valor num\u00e9rico da escala, e seu percentual deve ser reportado com transpar\u00eancia no relat\u00f3rio final.<\/li>\n<li>A adapta\u00e7\u00e3o de escalas psicom\u00e9tricas j\u00e1 validadas para incluir alternativas de recusa exige consulta ao manual original, registro formal da mudan\u00e7a e, quando necess\u00e1rio, novo estudo piloto ou reavalia\u00e7\u00e3o psicom\u00e9trica.<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso de Intelig\u00eancia Artificial Generativa.<\/strong> <em>Este texto foi produzido com o aux\u00edlio do Claude, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estrutura\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e de produ\u00e7\u00e3o do texto. As imagens foram produzidas com aux\u00edlio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela vers\u00e3o final e precis\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, pelo pensamento cr\u00edtico, pela sele\u00e7\u00e3o das fontes e pelo conte\u00fado publicado \u00e9 integralmente do autor.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto examina a inclus\u00e3o de alternativas de n\u00e3o resposta, n\u00e3o sei, n\u00e3o se aplica e prefiro n\u00e3o responder, em escalas Likert utilizadas em pesquisas na \u00e1rea da sa\u00fade e em ci\u00eancias humanas. Discute o fundamento dessa pr\u00e1tica nas Resolu\u00e7\u00f5es CNS 466\/2012 e 510\/2016, distingue os quatro significados normalmente confundidos entre si, prop\u00f5e crit\u00e9rios de apresenta\u00e7\u00e3o visual no instrumento, indica quando a inclus\u00e3o dessas alternativas \u00e9 especialmente recomend\u00e1vel e detalha as consequ\u00eancias metodol\u00f3gicas do tratamento e da codifica\u00e7\u00e3o dos dados ausentes, incluindo o cuidado necess\u00e1rio ao adaptar escalas psicom\u00e9tricas j\u00e1 validadas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-7838","post","type-post","status-publish","format-standard","category-geral","czr-hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7838","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7838"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7842,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7838\/revisions\/7842"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}