{"id":7858,"date":"2026-07-25T14:45:47","date_gmt":"2026-07-25T14:45:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7858"},"modified":"2026-07-25T15:02:31","modified_gmt":"2026-07-25T15:02:31","slug":"datasus-nao-e-uma-base-de-dados-o-que-seu-projeto-precisa-nomear-antes-de-analisar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7858","title":{"rendered":"DATASUS n\u00e3o \u00e9 uma base de dados: o que seu projeto precisa nomear antes de analisar"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Por que dizer que a pesquisa usou dados do DATASUS \u00e9 impreciso e o que escrever no lugar<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Aldemar Araujo Castro<br \/>\nCria\u00e7\u00e3o: 25\/07\/2026<br \/>\nAtualiza\u00e7\u00e3o: 25\/07\/2026<br \/>\nPalavras: 1788<br \/>\nTempo de leitura: 9 minutos<\/p>\n<p><strong>Resumo.<\/strong> Dizer que um estudo utilizou dados do DATASUS \u00e9 impreciso, porque o DATASUS \u00e9 a infraestrutura informacional, n\u00e3o a base de dados. Este texto distingue instrumento de coleta, gest\u00e3o t\u00e9cnica e infraestrutura, percorre o trajeto descentralizado do registro at\u00e9 a base nacional e contrap\u00f5e os sistemas de racionalidade epidemiol\u00f3gica, SIM, SINASC e SINAN, aos de racionalidade administrativa, SIH e SIA. Discute cobertura, completitude, unidade de registro e fal\u00e1cia ecol\u00f3gica, e conclui com os cinco elementos que a se\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos precisa declarar, \u00e0 luz da recomenda\u00e7\u00e3o RECORD.<\/p>\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>H\u00e1 uma frase que se repete em projetos de pesquisa, em trabalhos de conclus\u00e3o de curso e mesmo em artigos publicados: o estudo foi realizado com dados do DATASUS. Ela soa t\u00e9cnica, passa despercebida na maioria das bancas e parece inofensiva. Ainda assim, \u00e9 imprecisa, e a imprecis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas terminol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O DATASUS \u00e9 o <strong>Departamento de Informa\u00e7\u00e3o e Inform\u00e1tica do Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/strong> (SUS), \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade encarregado de desenvolver, hospedar e disseminar os sistemas de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. Ele n\u00e3o preenche formul\u00e1rio, n\u00e3o define o conte\u00fado das vari\u00e1veis e n\u00e3o decide o que conta como caso confirmado. Dizer que a pesquisa usou dados do DATASUS equivale a citar a biblioteca em vez do livro que se leu.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o importa porque cada sistema nasceu de uma finalidade distinta, e a finalidade original governa o tipo de erro que o pesquisador vai encontrar. Este texto percorre o caminho que separa o papel preenchido na assist\u00eancia da tabela que aparece na tela do pesquisador, examina por que os cinco principais sistemas nacionais falham de maneiras diferentes e termina com aquilo que deve constar da se\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos de quem trabalha com dados secund\u00e1rios.<\/p>\n<h2>Tr\u00eas coisas diferentes que recebem o mesmo nome<\/h2>\n<p>Quando um estudante afirma que trabalhou com o DATASUS, costuma estar fundindo tr\u00eas realidades que a metodologia exige separar. A primeira \u00e9 o <strong>instrumento de coleta<\/strong>, isto \u00e9, o documento preenchido na assist\u00eancia: a Declara\u00e7\u00e3o de \u00d3bito, a Declara\u00e7\u00e3o de Nascido Vivo, a Autoriza\u00e7\u00e3o de Interna\u00e7\u00e3o Hospitalar, o Boletim de Produ\u00e7\u00e3o Ambulatorial e a ficha de notifica\u00e7\u00e3o. Quem preenche esses documentos, na maior parte das vezes, \u00e9 o pr\u00f3prio profissional de sa\u00fade, com frequ\u00eancia ao final de um plant\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 a <strong>gest\u00e3o t\u00e9cnica do sistema<\/strong>, atribui\u00e7\u00e3o das \u00e1reas final\u00edsticas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, respons\u00e1veis por definir vari\u00e1veis, fluxos, instrutivos e regras de cr\u00edtica. \u00c9 nesse n\u00edvel que se decide o que conta como caso, qual campo \u00e9 obrigat\u00f3rio e como um agravo deve ser investigado.<\/p>\n<p>A terceira \u00e9 a <strong>infraestrutura informacional<\/strong>, e aqui, somente aqui, entra o DATASUS: software, armazenamento, consolida\u00e7\u00e3o nacional e ferramentas p\u00fablicas de acesso, entre as quais o TABNET, o TabWin, os arquivos para transfer\u00eancia e o portal de dados abertos. A confus\u00e3o entre esses tr\u00eas planos n\u00e3o \u00e9 inofensiva, porque impede o pesquisador de formular a pergunta que antecede qualquer an\u00e1lise, a saber, para que finalidade aquele registro foi originalmente produzido. N\u00e3o por acaso, o monitoramento da qualidade dos dados dos sistemas de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade no Brasil nunca seguiu um plano sistem\u00e1tico de avalia\u00e7\u00e3o (Lima et al., 2009).<\/p>\n<h2>O caminho do dado, do papel assinado \u00e0 base nacional<\/h2>\n<p>O dado que o pesquisador baixa em poucos segundos percorreu antes um trajeto longo e desigual. Nasce no servi\u00e7o de sa\u00fade, com o preenchimento de um formul\u00e1rio. Segue para a secretaria municipal, onde \u00e9 digitado, criticado e corrigido. \u00c9 consolidado na esfera estadual, transmitido ao n\u00edvel federal e s\u00f3 ent\u00e3o incorporado \u00e0 base nacional, publicada pelo DATASUS. Cada uma dessas etapas \u00e9 executada por pessoas diferentes, com forma\u00e7\u00e3o, carga de trabalho e infraestrutura distintas.<\/p>\n<p>Essa <strong>alimenta\u00e7\u00e3o descentralizada<\/strong> explica boa parte das limita\u00e7\u00f5es que depois aparecem nos resultados. A completude de um campo, a oportunidade da transmiss\u00e3o e a consist\u00eancia da codifica\u00e7\u00e3o variam entre munic\u00edpios, entre estados e ao longo do tempo. Explica tamb\u00e9m por que os anos mais recentes de qualquer s\u00e9rie costumam ser preliminares, pois a base ainda n\u00e3o fechou. Um estudo que compare 2015 e 2025 sem verificar o est\u00e1gio de consolida\u00e7\u00e3o pode estar comparando um ano maduro com um ano incompleto, e atribuindo a uma suposta queda epidemiol\u00f3gica aquilo que \u00e9 apenas atraso administrativo.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar que os sistemas de estat\u00edsticas vitais foram concebidos justamente para suprir as falhas do Registro Civil e permitir conhecer o perfil epidemiol\u00f3gico de todo o pa\u00eds (Mello Jorge et al., 2007). Cumpriram amplamente esse prop\u00f3sito, mas o cumpriram de modo progressivo, o que significa que a <strong>qualidade do dado tem hist\u00f3ria<\/strong>: s\u00e9ries longas atravessam per\u00edodos de implanta\u00e7\u00e3o, de expans\u00e3o de cobertura e de mudan\u00e7a de instrumento.<\/p>\n<h2>Racionalidade epidemiol\u00f3gica e racionalidade administrativa<\/h2>\n<p>Aqui est\u00e1 a distin\u00e7\u00e3o que muda a interpreta\u00e7\u00e3o de qualquer resultado. Os cinco sistemas mais usados em pesquisa dividem-se em dois grupos, conforme o motivo pelo qual foram criados.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Nascidos Vivos (SINASC) e o Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o (SINAN) obedecem a uma <strong>racionalidade epidemiol\u00f3gica<\/strong>: existem porque algu\u00e9m precisa saber o que est\u00e1 acontecendo na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">J\u00e1 o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Hospitalares do SUS (SIH) e o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Ambulatoriais do SUS (SIA) obedecem a uma <strong>racionalidade administrativa<\/strong>: existem porque algu\u00e9m precisa ser remunerado pelo servi\u00e7o prestado.<\/p>\n<p>A literatura nacional que revisou os m\u00e9todos de avalia\u00e7\u00e3o de completitude adota exatamente essa divis\u00e3o e registra que os sistemas de racionalidade epidemiol\u00f3gica concentraram a quase totalidade dos estudos de qualidade publicados no pa\u00eds (Correia et al., 2014).<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 direta. Nos sistemas de vigil\u00e2ncia, o erro t\u00edpico \u00e9 a <strong>aus\u00eancia<\/strong>: o caso que n\u00e3o foi notificado, o campo deixado em branco, a causa de \u00f3bito registrada como mal definida. Nos sistemas administrativos, o erro t\u00edpico \u00e9 a <strong>distor\u00e7\u00e3o<\/strong>, porque o registro reflete aquilo que o instrumento de pagamento comporta, e n\u00e3o necessariamente aquilo que foi clinicamente realizado.<\/p>\n<p>Ao revisarem quase duas d\u00e9cadas de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica apoiada no Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Hospitalares, Bittencourt e colaboradores reconheceram tanto a cobertura incompleta quanto as incertezas de confiabilidade, sem por isso descartar o sistema, uma vez que os resultados mostravam consist\u00eancia interna e coer\u00eancia com o conhecimento dispon\u00edvel (Bittencourt et al., 2006). A li\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 abandonar a base, e sim conhecer seus pontos fortes e fracos antes de interpret\u00e1-la.<\/p>\n<h2>O que a base n\u00e3o enxerga, e por que a invisibilidade n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria<\/h2>\n<p>Nenhum dos cinco sistemas cobre a popula\u00e7\u00e3o brasileira do mesmo modo. Os sistemas de estat\u00edsticas vitais alcan\u00e7am nascimentos e \u00f3bitos independentemente de quem financiou a assist\u00eancia, ao passo que o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Hospitalares e o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Ambulatoriais registram apenas o que foi custeado pelo SUS. Se o agravo estudado \u00e9 frequentemente tratado na sa\u00fade suplementar, a <strong>parcela invis\u00edvel<\/strong> pode ser substancial, e ela n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria, pois difere justamente nas vari\u00e1veis socioecon\u00f4micas que o pesquisador pretende discutir.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a desigualdade interna \u00e0 pr\u00f3pria cobertura. As revis\u00f5es dispon\u00edveis mostram que os estudos de qualidade se concentraram nas dimens\u00f5es de confiabilidade, validade, cobertura e completitude, e que metade deles se limitou a dados do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo (Lima et al., 2009). Sabemos menos sobre a qualidade do dado exatamente onde h\u00e1 mais raz\u00e3o para suspeitar dela. Quando um estudo ecol\u00f3gico compara regi\u00f5es, a diferen\u00e7a observada pode refletir <strong>desigualdade de registro<\/strong> antes de refletir desigualdade de adoecimento.<\/p>\n<p>O caso das causas mal definidas ilustra bem o ponto. Um percentual elevado de \u00f3bitos sem causa espec\u00edfica n\u00e3o descreve a mortalidade de uma popula\u00e7\u00e3o, descreve a fragilidade do preenchimento da Declara\u00e7\u00e3o de \u00d3bito naquele territ\u00f3rio. Tratar esse percentual como achado epidemiol\u00f3gico, e n\u00e3o como <strong>limita\u00e7\u00e3o do instrumento<\/strong>, \u00e9 um dos equ\u00edvocos mais frequentes em trabalhos de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<h2>A unidade de registro decide o que voc\u00ea pode concluir<\/h2>\n<p>Antes de qualquer an\u00e1lise, conv\u00e9m responder a uma pergunta simples: o que representa uma linha da minha tabela?<\/p>\n<ul>\n<li>No SIM, \u00e9 um \u00f3bito.<\/li>\n<li>No SINASC, \u00e9 um nascido vivo.<\/li>\n<li>No SINAN, \u00e9 uma notifica\u00e7\u00e3o, suspeita ou confirmada.<\/li>\n<li>No Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Hospitalares, \u00e9 uma interna\u00e7\u00e3o faturada, e n\u00e3o um paciente, de modo que o mesmo indiv\u00edduo internado tr\u00eas vezes no ano gera tr\u00eas registros.<\/li>\n<li>No Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Ambulatoriais, boa parte da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 lan\u00e7ada de forma agregada, sem identifica\u00e7\u00e3o individual, o que significa contar procedimentos, e n\u00e3o pessoas.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Confundir esses n\u00edveis produz dois erros cl\u00e1ssicos. O primeiro consiste em tomar o <strong>evento pelo indiv\u00edduo<\/strong>, inflando preval\u00eancias e mascarando reinterna\u00e7\u00f5es. O segundo \u00e9 a <strong>fal\u00e1cia ecol\u00f3gica<\/strong>, isto \u00e9, concluir sobre pessoas a partir de dados agregados por munic\u00edpio, atribuindo ao indiv\u00edduo uma associa\u00e7\u00e3o observada apenas no n\u00edvel do grupo. Nenhum dos dois se resolve com t\u00e9cnica estat\u00edstica sofisticada, ambos se resolvem com clareza sobre o que a base efetivamente registra.<\/p>\n<p>Acrescente-se a dificuldade de acompanhar o mesmo indiv\u00edduo entre sistemas distintos. Sem identificador \u00fanico de uso irrestrito, o v\u00ednculo entre bases depende de <strong>relacionamento probabil\u00edstico de registros<\/strong>, t\u00e9cnica que exige compet\u00eancia espec\u00edfica e carrega erros de pareamento. Na aus\u00eancia desse recurso, o desenho poss\u00edvel costuma ser transversal ou ecol\u00f3gico, e a conclus\u00e3o precisa ser escrita nesse n\u00edvel, sem promessa causal que os dados n\u00e3o sustentam.<\/p>\n<h2>Da cr\u00edtica \u00e0 pr\u00e1tica: como declarar a fonte e as limita\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>Toda essa discuss\u00e3o desemboca em conduta redacional. Existe recomenda\u00e7\u00e3o internacional dedicada a estudos observacionais que utilizam dados coletados de rotina, a <strong>RECORD<\/strong>, extens\u00e3o da recomenda\u00e7\u00e3o STROBE, composta por treze itens que orientam o autor a esclarecer quais c\u00f3digos foram usados para identificar a popula\u00e7\u00e3o e os desfechos, como se deu o v\u00ednculo entre bases e quais limita\u00e7\u00f5es decorrem do fato de o dado ter sido produzido para fins administrativos ou assistenciais, e n\u00e3o para responder \u00e0 pergunta do pesquisador (Benchimol et al., 2015). Adot\u00e1-la \u00e9 o modo mais econ\u00f4mico de converter cr\u00edtica em qualidade.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a frase de m\u00e9todos deve conter <strong>cinco elementos<\/strong>: o sistema nomeado, o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o do evento, a abrang\u00eancia geogr\u00e1fica, o per\u00edodo e a rastreabilidade da extra\u00e7\u00e3o. Em vez de escrever que o estudo utilizou dados do DATASUS, escreva que se trata de estudo ecol\u00f3gico de s\u00e9rie temporal, com dados do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade, referentes a \u00f3bitos por doen\u00e7as do aparelho circulat\u00f3rio segundo o cap\u00edtulo IX da d\u00e9cima revis\u00e3o da Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as, ocorridos em determinado estado e per\u00edodo, obtidos por meio do TABNET, com data de extra\u00e7\u00e3o declarada. Sem esses elementos, ningu\u00e9m reproduz o resultado, nem o pr\u00f3prio autor seis meses depois.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Dica.<\/strong> Para uso em sala de aula e para consulta r\u00e1pida antes da reda\u00e7\u00e3o do projeto, preparei um material visual complementar, com o percurso do dado, o quadro comparativo dos cinco sistemas e uma lista de verifica\u00e7\u00e3o final, dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/aldemararaujo.github.io\/datasus\/\">https:\/\/aldemararaujo.github.io\/datasus\/<\/a><\/p><\/blockquote>\n<h2>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n<p>Os sistemas nacionais de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade constituem patrim\u00f4nio p\u00fablico not\u00e1vel. Poucos pa\u00edses de renda m\u00e9dia disp\u00f5em de s\u00e9ries hist\u00f3ricas t\u00e3o longas, de acesso t\u00e3o aberto e de abrang\u00eancia t\u00e3o ampla, e \u00e9 inteiramente leg\u00edtimo que estudantes e pesquisadores recorram a eles. O problema nunca foi usar dados secund\u00e1rios, o problema \u00e9 us\u00e1-los como se fossem dados prim\u00e1rios, coletados sob controle do pesquisador e desenhados para responder \u00e0 sua pergunta.<\/p>\n<p>Nomear o sistema \u00e9 o primeiro gesto de honestidade metodol\u00f3gica, porque obriga a examinar o instrumento de coleta, a unidade de registro, a cobertura e a finalidade original do registro. Desse exame nasce uma discuss\u00e3o de limita\u00e7\u00f5es espec\u00edfica e verific\u00e1vel, muito distinta do par\u00e1grafo gen\u00e9rico que apenas informa tratar-se de dados secund\u00e1rios sujeitos a subnotifica\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a entre um trabalho que convence e um trabalho que apenas cumpre tabela come\u00e7a, quase sempre, na primeira frase da se\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos.<\/p>\n<h2>Fontes<\/h2>\n<p><strong>[1].<\/strong> Lima CRA, Schramm JMA, Coeli CM, Silva MEM. Revis\u00e3o das dimens\u00f5es de qualidade dos dados e m\u00e9todos aplicados na avalia\u00e7\u00e3o dos sistemas de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. Cad Sa\u00fade P\u00fablica. 2009;25(10):2095-2109.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-311X2009001000002\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-311X2009001000002<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/csp\/a\/6SzFwLD4zgTcfDZYywqw5zj\/?lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/csp\/a\/6SzFwLD4zgTcfDZYywqw5zj\/?lang=pt<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: revis\u00e3o que organiza as dimens\u00f5es pelas quais a qualidade de um sistema de informa\u00e7\u00e3o pode ser julgada, entre elas confiabilidade, validade, cobertura e completitude. Sustenta neste texto duas afirma\u00e7\u00f5es centrais: a de que o monitoramento da qualidade n\u00e3o segue plano sistem\u00e1tico no pa\u00eds e a de que a produ\u00e7\u00e3o avaliativa se concentrou no Sudeste, deixando lacunas justamente onde a suspeita de fragilidade \u00e9 maior. Serve de vocabul\u00e1rio m\u00ednimo para quem precisa redigir a se\u00e7\u00e3o de limita\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><strong>[2].<\/strong> Bittencourt SA, Camacho LAB, Leal MC. O Sistema de Informa\u00e7\u00e3o Hospitalar e sua aplica\u00e7\u00e3o na sa\u00fade coletiva. Cad Sa\u00fade P\u00fablica. 2006;22(1):19-30.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-311X2006000100003\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0102-311X2006000100003<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/csp\/a\/wr86Wn5xbYf3McdLwh3tv7g\/?lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/csp\/a\/wr86Wn5xbYf3McdLwh3tv7g\/?lang=pt<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: revis\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica constru\u00edda sobre o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es Hospitalares em quase duas d\u00e9cadas. Reconhece a cobertura incompleta e as incertezas de confiabilidade sem descartar o sistema, argumentando que a consist\u00eancia interna dos achados justifica seu uso desde que os pontos fortes e fracos sejam compreendidos. \u00c9 a refer\u00eancia que sustenta a leitura equilibrada proposta neste texto, distante tanto do entusiasmo acr\u00edtico quanto da recusa sum\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p><strong>[3].<\/strong> Correia LOS, Padilha BM, Vasconcelos SML. M\u00e9todos para avaliar a completitude dos dados dos sistemas de informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade do Brasil: uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica. Ci\u00eanc Sa\u00fade Coletiva. 2014;19(11):4467-4478.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/1413-812320141911.02822013\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/1413-812320141911.02822013<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/csc\/a\/HGyrfBHWLXMd3mz74HCcvpy\/?lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/csc\/a\/HGyrfBHWLXMd3mz74HCcvpy\/?lang=pt<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: revis\u00e3o sistem\u00e1tica produzida na Universidade Federal de Alagoas que emprega expressamente a distin\u00e7\u00e3o entre sistemas de racionalidade epidemiol\u00f3gica e sistemas de racionalidade administrativa, eixo argumentativo deste texto. Documenta a escassez e a heterogeneidade dos estudos de completitude no Brasil e registra que o s\u00edtio do DATASUS \u00e9 a via de acesso predominante aos dados, o que refor\u00e7a a necessidade de nomear corretamente sistema e ferramenta.<\/em><\/p>\n<p><strong>[4].<\/strong> Mello Jorge MHP, Laurenti R, Gotlieb SLD. An\u00e1lise da qualidade das estat\u00edsticas vitais brasileiras: a experi\u00eancia de implanta\u00e7\u00e3o do SIM e do SINASC. Ci\u00eanc Sa\u00fade Coletiva. 2007;12(3):643-654.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S1413-81232007000300014\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S1413-81232007000300014<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/S1413-81232007000300014\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/S1413-81232007000300014<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: reconstitui a concep\u00e7\u00e3o, a implanta\u00e7\u00e3o e a avalia\u00e7\u00e3o dos dois sistemas de estat\u00edsticas vitais, criados para superar as defici\u00eancias do Registro Civil. Fundamenta a advert\u00eancia de que a qualidade do dado tem hist\u00f3ria, pois s\u00e9ries longas atravessam fases sucessivas de expans\u00e3o de cobertura e de mudan\u00e7a de instrumento, o que imp\u00f5e cautela na interpreta\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias temporais.<\/em><\/p>\n<p><strong>[5].<\/strong> Benchimol EI, Smeeth L, Guttmann A, Harron K, Moher D, Petersen I, et al. The REporting of studies Conducted using Observational Routinely-collected health Data (RECORD) statement. PLoS Med. 2015;12(10):e1001885.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pmed.1001885\">https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pmed.1001885<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosmedicine\/article?id=10.1371%2Fjournal.pmed.1001885\">https:\/\/journals.plos.org\/plosmedicine\/article?id=10.1371%2Fjournal.pmed.1001885<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: extens\u00e3o da recomenda\u00e7\u00e3o STROBE dedicada a estudos observacionais que utilizam dados coletados de rotina para fins administrativos e assistenciais. Os treze itens da lista de verifica\u00e7\u00e3o orientam a descri\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos usados para identificar popula\u00e7\u00e3o e desfechos, do v\u00ednculo entre bases e das limita\u00e7\u00f5es decorrentes da origem do dado. \u00c9 o instrumento que converte a cr\u00edtica metodol\u00f3gica discutida neste texto em pr\u00e1tica concreta de reda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/em><\/p>\n<h2>Pontos para Recordar<\/h2>\n<ol>\n<li>O DATASUS \u00e9 o departamento do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade respons\u00e1vel pela infraestrutura informacional, n\u00e3o \u00e9 uma base de dados nem o produtor do dado.<\/li>\n<li>Todo registro analisado tem origem em um documento preenchido na assist\u00eancia, e a qualidade do dado come\u00e7a no preenchimento desse documento.<\/li>\n<li>A alimenta\u00e7\u00e3o dos sistemas \u00e9 descentralizada, o que torna completude e oportunidade desiguais entre munic\u00edpios, entre estados e ao longo do tempo.<\/li>\n<li>SIM, SINASC e SINAN obedecem a racionalidade epidemiol\u00f3gica e falham tipicamente por aus\u00eancia de registro; SIH e SIA obedecem a racionalidade administrativa e falham tipicamente por distor\u00e7\u00e3o do que \u00e9 remuner\u00e1vel.<\/li>\n<li>SIH e SIA cobrem apenas o que foi custeado pelo SUS, e a parcela n\u00e3o coberta difere sistematicamente nas vari\u00e1veis socioecon\u00f4micas de maior interesse anal\u00edtico.<\/li>\n<li>A unidade de registro define o limite da conclus\u00e3o, pois interna\u00e7\u00e3o faturada n\u00e3o \u00e9 paciente, procedimento n\u00e3o \u00e9 pessoa e dado agregado por munic\u00edpio n\u00e3o autoriza infer\u00eancia individual.<\/li>\n<li>A se\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos deve declarar sistema, crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o do evento, abrang\u00eancia geogr\u00e1fica, per\u00edodo e data de extra\u00e7\u00e3o, conforme orienta a recomenda\u00e7\u00e3o RECORD.<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso de Intelig\u00eancia Artificial Generativa.<\/strong> <em>Este texto foi produzido com o aux\u00edlio do Claude, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estrutura\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e de produ\u00e7\u00e3o do texto. As imagens foram produzidas com aux\u00edlio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela vers\u00e3o final e precis\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, pelo pensamento cr\u00edtico, pela sele\u00e7\u00e3o das fontes e pelo conte\u00fado publicado \u00e9 integralmente do autor.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizer que um estudo utilizou dados do DATASUS \u00e9 impreciso, porque o DATASUS \u00e9 a infraestrutura informacional, n\u00e3o a base de dados. Este texto distingue instrumento de coleta, gest\u00e3o t\u00e9cnica e infraestrutura, percorre o trajeto descentralizado do registro at\u00e9 a base nacional e contrap\u00f5e os sistemas de racionalidade epidemiol\u00f3gica, SIM, SINASC e SINAN, aos de racionalidade administrativa, SIH e SIA. Discute cobertura, completitude, unidade de registro e fal\u00e1cia ecol\u00f3gica, e conclui com os cinco elementos que a se\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos precisa declarar, \u00e0 luz da recomenda\u00e7\u00e3o RECORD.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[18,19,23,21,22,20],"class_list":["post-7858","post","type-post","status-publish","format-standard","category-geral","tag-dados-secundarios","tag-datasus","tag-record","tag-sim","tag-sinan","tag-sistemas-de-informacao-em-saude","czr-hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7858","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7858"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7858\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7863,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7858\/revisions\/7863"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}