{"id":7921,"date":"2026-08-13T15:45:47","date_gmt":"2026-08-13T15:45:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7921"},"modified":"2026-09-13T19:31:28","modified_gmt":"2026-09-13T19:31:28","slug":"carta-aos-meus-alunos-13-08-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7921","title":{"rendered":"Carta aos meus alunos 13\/08\/2026"},"content":{"rendered":"<p>Caros alunos,<\/p>\n<p>Escrevo sobre uma cena pequena. \u00c9 meio-dia e vinte, o ambulat\u00f3rio est\u00e1 com sete pacientes ainda por atender, e um de voc\u00eas diz, com naturalidade, estou com fome. N\u00e3o pede licen\u00e7a, n\u00e3o pergunta se falta muito, n\u00e3o combina a substitui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o espera a autoriza\u00e7\u00e3o. Apenas informa e sai. Fica na sala a enfermeira, que est\u00e1 de p\u00e9 desde as sete, o t\u00e9cnico de enfermagem, que dobrou o plant\u00e3o, o preceptor, que tamb\u00e9m n\u00e3o comeu, e a senhora da terceira cadeira, que saiu de casa \u00e0s cinco da manh\u00e3, veio de dois \u00f4nibus e n\u00e3o trouxe dinheiro para lanche.<\/p>\n<p>Quero ser exato desde o in\u00edcio, porque a exatid\u00e3o aqui importa mais do que a indigna\u00e7\u00e3o: o problema n\u00e3o \u00e9 a sua fome.<\/p>\n<h3>A fome n\u00e3o \u00e9 o objeto desta carta<\/h3>\n<p>Se eu escrevesse para dizer que m\u00e9dico n\u00e3o sente fome, estaria mentindo, e voc\u00eas perceberiam a mentira na primeira linha. A gera\u00e7\u00e3o que me formou cultivava uma imagem do m\u00e9dico que n\u00e3o come, n\u00e3o dorme, n\u00e3o adoece e n\u00e3o chora, e essa imagem produziu profissionais doentes, dependentes qu\u00edmicos e suicidas em n\u00famero que a categoria demorou d\u00e9cadas para admitir. N\u00e3o tenho a menor inten\u00e7\u00e3o de restaur\u00e1-la. Voc\u00eas t\u00eam raz\u00e3o quando recusam a idealiza\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio. T\u00eam raz\u00e3o quando dizem que corpo cansado erra mais, que fome prolongada compromete aten\u00e7\u00e3o e julgamento, e que a institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o organiza um hor\u00e1rio de refei\u00e7\u00e3o est\u00e1 transferindo para o indiv\u00edduo um problema que \u00e9 dela. Tudo isso \u00e9 verdadeiro e eu subscrevo.<\/p>\n<p>O objeto desta carta \u00e9 outro. \u00c9 o ato assistencial iniciado e abandonado. \u00c9 a diferen\u00e7a, que parece sutil e n\u00e3o \u00e9, entre suspender o atendimento e sair do atendimento.<\/p>\n<h3>O que se transfere quando algu\u00e9m sai<\/h3>\n<p>Um atendimento em curso \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o desaparece quando quem a assumiu se ausenta. Ela apenas muda de dono. Quando voc\u00eas saem no meio da tarde ambulatorial, os sete pacientes n\u00e3o somem. Eles s\u00e3o redistribu\u00eddos entre os que ficaram, que estavam com a mesma fome, no mesmo hor\u00e1rio, sob a mesma jornada. A diferen\u00e7a entre voc\u00eas e eles, naquele instante, n\u00e3o \u00e9 de necessidade fisiol\u00f3gica. \u00c9 de posi\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas podem sair porque a estrutura permite que estudantes saiam. A t\u00e9cnica de enfermagem n\u00e3o pode, porque ela responde por escala, ponto e advert\u00eancia. O paciente n\u00e3o pode, porque perder a vez significa nova refer\u00eancia, nova espera, novo \u00f4nibus, e \u00e0s vezes um desfecho pior.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que me incomoda, e pe\u00e7o que examinem se n\u00e3o incomoda tamb\u00e9m a voc\u00eas: a decis\u00e3o parece individual e n\u00e3o \u00e9. Ela \u00e9 uma decis\u00e3o sobre quem paga a conta. E ela \u00e9 tomada, quase sempre, sem que se olhe para quem vai pag\u00e1-la.<\/p>\n<p>Reparem que n\u00e3o estou pedindo hero\u00edsmo. Estou pedindo aritm\u00e9tica moral elementar. Se sair custa quarenta minutos de trabalho adicional distribu\u00eddos entre tr\u00eas pessoas que tamb\u00e9m n\u00e3o comeram, o custo n\u00e3o foi eliminado. Foi terceirizado.<\/p>\n<h3>A hip\u00f3tese da gera\u00e7\u00e3o, e por que eu a considero insuficiente<\/h3>\n<p>Circula entre professores da minha idade uma explica\u00e7\u00e3o c\u00f4moda para essa cena. Diz-se que \u00e9 uma nova gera\u00e7\u00e3o, com outros valores, menos comprometida, formada no conforto, avessa ao esfor\u00e7o. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o que agrada porque nos absolve: se o problema \u00e9 geracional, \u00e9 deles, e n\u00f3s apenas assistimos.<\/p>\n<p>N\u00e3o a aceito, e devo a voc\u00eas as raz\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que n\u00e3o conhe\u00e7o evid\u00eancia que a sustente. Falo de evid\u00eancia no sentido pr\u00f3prio, estudos comparativos de coortes de estudantes ao longo do tempo, com medida definida de comprometimento profissional. N\u00e3o os tenho. O que tenho \u00e9 minha mem\u00f3ria, e minha mem\u00f3ria \u00e9 uma testemunha suspeita, porque tende a comparar o melhor aluno de 1995 com o pior aluno de 2026. Afirmar decl\u00ednio geracional sem dado \u00e9 exatamente o tipo de racioc\u00ednio que passo o semestre inteiro ensinando voc\u00eas a recusar em mat\u00e9ria cl\u00ednica. Seria incoerente que eu o praticasse em mat\u00e9ria moral.<\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o \u00e9 que a queixa \u00e9 velha demais para ser sobre voc\u00eas. Ela reaparece a cada gera\u00e7\u00e3o, com as mesmas palavras, desde a Antiguidade. Uma cr\u00edtica que sobrevive vinte e cinco s\u00e9culos sem alterar o texto n\u00e3o est\u00e1 descrevendo um fen\u00f4meno hist\u00f3rico. Est\u00e1 descrevendo a idade de quem a formula.<\/p>\n<p>A terceira, e a mais importante, \u00e9 que a hip\u00f3tese geracional explica mal o que se v\u00ea. O que mudou n\u00e3o foi o car\u00e1ter de voc\u00eas. Foi o contrato moral da profiss\u00e3o, e mudou por raz\u00f5es em grande parte leg\u00edtimas. Substituiu-se o dever de sacrif\u00edcio ilimitado pelo reconhecimento de que o profissional tem limites, direitos e vida fora do hospital. Esse deslocamento \u00e9 uma conquista, n\u00e3o uma decad\u00eancia.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que todo deslocamento desse tipo produz uma zona cinzenta, e \u00e9 nela que a cena do ambulat\u00f3rio acontece. O vocabul\u00e1rio do autocuidado, que nasceu para proteger o profissional de uma exig\u00eancia desumana, presta-se com facilidade demais a justificar a deser\u00e7\u00e3o pontual. Dizer que estou cuidando de mim \u00e9 sempre verdadeiro e quase nunca suficiente, porque n\u00e3o responde \u00e0 \u00fanica pergunta que interessa: quem ficou no meu lugar e a que custo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o minha resposta \u00e0 pergunta que voc\u00eas certamente j\u00e1 fizeram, se isto \u00e9 quest\u00e3o de valores, de car\u00e1ter ou de \u00e9poca, \u00e9 a seguinte: \u00e9 menos de car\u00e1ter do que se sup\u00f5e e mais de linguagem do que se percebe. N\u00e3o vejo indiferen\u00e7a nos alunos que saem. Vejo alunos que disp\u00f5em de um vocabul\u00e1rio sofisticado para nomear o pr\u00f3prio cansa\u00e7o e de nenhum vocabul\u00e1rio para nomear a obriga\u00e7\u00e3o que deixaram para tr\u00e1s. O problema n\u00e3o \u00e9 que valorizem demais o pr\u00f3prio bem-estar. \u00c9 que ningu\u00e9m lhes ensinou a enunciar o outro lado da equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o isento a institui\u00e7\u00e3o. Servi\u00e7o que n\u00e3o estabelece janela de refei\u00e7\u00e3o, escala de revezamento e hor\u00e1rio de t\u00e9rmino previs\u00edvel est\u00e1 fabricando o conflito que depois atribui ao car\u00e1ter do estudante. Quando cobro de voc\u00eas, cobro sabendo que parte da culpa \u00e9 nossa, e que exigir virtude individual para compensar desorganiza\u00e7\u00e3o institucional \u00e9 uma forma pregui\u00e7osa de ensinar.<\/p>\n<h3>O crit\u00e9rio que proponho<\/h3>\n<p>N\u00e3o vou pedir que fiquem sempre. Vou pedir tr\u00eas coisas, e elas cabem em um minuto.<\/p>\n<p>Primeiro, n\u00e3o abandonem ato iniciado. Paciente j\u00e1 chamado, exame j\u00e1 come\u00e7ado, procedimento em curso e conversa dif\u00edcil aberta se encerram antes da sa\u00edda. O que ainda n\u00e3o come\u00e7ou pode esperar. O que come\u00e7ou, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo, quando sa\u00edrem, saiam por combina\u00e7\u00e3o e n\u00e3o por informa\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a entre dizer que v\u00e3o almo\u00e7ar e perguntar quem pode assumir \u00e9 a diferen\u00e7a entre transferir um custo \u00e0s escondidas e negoci\u00e1-lo \u00e0s claras. Custa uma frase.<\/p>\n<p>Terceiro, olhem para a fila antes de decidir. N\u00e3o para se punirem, mas para saberem o que est\u00e3o decidindo. Se h\u00e1 uma senhora que veio de dois \u00f4nibus e \u00e9 a \u00faltima, talvez valha ficar. Se h\u00e1 sete pacientes e tr\u00eas colegas dispon\u00edveis, v\u00e3o comer, e voltem.<\/p>\n<p>E, por favor, cobrem de n\u00f3s o que nos cabe. Escala de refei\u00e7\u00e3o, previs\u00e3o de t\u00e9rmino, substitui\u00e7\u00e3o organizada. Voc\u00eas t\u00eam mais legitimidade para exigir isso do que a minha gera\u00e7\u00e3o jamais teve, porque n\u00f3s ach\u00e1vamos que pedir era fraqueza.<\/p>\n<p>Encerro com o que penso ser o essencial. A pergunta n\u00e3o \u00e9 se voc\u00eas t\u00eam direito de almo\u00e7ar. T\u00eam. A pergunta \u00e9 se conseguem enxergar, no momento em que se levantam, as outras pessoas que est\u00e3o exatamente com a mesma fome e n\u00e3o podem se levantar. Essa capacidade de enxergar tem um nome antigo na nossa profiss\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 sacrif\u00edcio. \u00c9 considera\u00e7\u00e3o pelo outro, que \u00e9, afinal, a \u00fanica coisa que estamos aqui para aprender.<\/p>\n<p>Com estima e com a expectativa de discutir isto com voc\u00eas pessoalmente,<\/p>\n<p>Aldemar Araujo Castro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta carta dirigida aos estudantes parte de uma cena de ambulat\u00f3rio, quando um aluno interrompe o atendimento e se retira alegando fome. O texto recusa a idealiza\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio m\u00e9dico e reconhece que corpo cansado erra mais e que organizar o hor\u00e1rio de refei\u00e7\u00e3o \u00e9 dever da institui\u00e7\u00e3o. Sustenta, por\u00e9m, que o objeto em discuss\u00e3o \u00e9 outro, a diferen\u00e7a entre suspender e abandonar um ato assistencial j\u00e1 iniciado. Argumenta que a obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o desaparece com a aus\u00eancia de quem a assumiu, apenas muda de dono, e recai sobre a equipe que fica e sobre o paciente que espera.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[67],"tags":[76,85],"class_list":["post-7921","post","type-post","status-publish","format-standard","category-educacao-e-formacao","tag-docencia","tag-educacao-em-saude","czr-hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7921","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7921"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7921\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8092,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7921\/revisions\/8092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7921"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7921"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7921"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}