{"id":7964,"date":"2026-09-13T11:57:27","date_gmt":"2026-09-13T11:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7964"},"modified":"2026-09-13T13:27:24","modified_gmt":"2026-09-13T13:27:24","slug":"cemiterio-estudos-invisiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=7964","title":{"rendered":"O cemit\u00e9rio dos estudos invis\u00edveis: por que a literatura publicada engana"},"content":{"rendered":"\r\n<blockquote>\r\n<h3 style=\"text-align: center;\">O que a literatura publicada esconde e por que isso muda sua leitura da evid\u00eancia<\/h3>\r\n<\/blockquote>\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: right;\">Aldemar Araujo Castro<br \/>Cria\u00e7\u00e3o: 13\/09\/2026<br \/>Atualiza\u00e7\u00e3o: 13\/09\/2026<br \/>Palavras: 1615<br \/>Tempo de leitura: 8 minutos<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gaveta fechada<\/strong><br \/><strong>os pap\u00e9is que ningu\u00e9m leu<\/strong><br \/><strong>o p\u00f3 cobre tudo<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Resumo.<\/strong> Este texto examina por que o conjunto de artigos recuperado em uma base de dados n\u00e3o representa a pesquisa efetivamente realizada sobre um tema. Distingue tr\u00eas mecanismos de desaparecimento, o vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o em sentido estrito, o relato seletivo de desfechos e os filtros de idioma e de indexa\u00e7\u00e3o, e apresenta a evid\u00eancia emp\u00edrica que documenta cada um deles. Discute os instrumentos de detec\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis, como o gr\u00e1fico de funil, e seus limites reconhecidos. Encerra com condutas pr\u00e1ticas para o pesquisador, na leitura da literatura alheia e na produ\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma mestranda pesquisa a efic\u00e1cia de determinada cobertura para cicatriza\u00e7\u00e3o de feridas cr\u00f4nicas. Recupera quarenta e dois artigos na base de dados, l\u00ea os resumos e observa que trinta e seis relatam benef\u00edcio. A conclus\u00e3o parece impor-se sozinha: a interven\u00e7\u00e3o funciona, e a literatura \u00e9 consistente a respeito. O que ela n\u00e3o viu, porque n\u00e3o havia como ver, s\u00e3o os estudos que testaram a mesma cobertura, n\u00e3o encontraram diferen\u00e7a alguma e jamais chegaram a ser publicados.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a forma mais silenciosa de erro na leitura da evid\u00eancia cient\u00edfica, e tamb\u00e9m a mais dif\u00edcil de perceber, porque n\u00e3o se manifesta em nenhum dado vis\u00edvel. Manifesta-se em uma aus\u00eancia. O conjunto de artigos que o pesquisador recupera n\u00e3o \u00e9 uma amostra aleat\u00f3ria da pesquisa efetivamente realizada sobre o tema, \u00e9 o res\u00edduo de um processo de sele\u00e7\u00e3o sucessiva no qual autores, patrocinadores, revisores e editores decidiram, cada um a seu modo e por raz\u00f5es distintas, o que mereceria existir publicamente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto examina os mecanismos desse desaparecimento, a evid\u00eancia emp\u00edrica que os documenta, os instrumentos dispon\u00edveis para detect\u00e1-los e, sobretudo, o que o pesquisador em forma\u00e7\u00e3o pode fazer, tanto ao ler a literatura alheia quanto ao produzir a pr\u00f3pria.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O avi\u00e3o que voltou do combate<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma hist\u00f3ria recorrente nos cursos de metodologia. Durante a Segunda Guerra Mundial, analistas examinavam os bombardeiros que retornavam das miss\u00f5es e mapeavam a localiza\u00e7\u00e3o dos furos de proj\u00e9til na fuselagem. A proposta inicial foi refor\u00e7ar a blindagem exatamente onde havia mais furos. O estat\u00edstico encarregado teria observado o contr\u00e1rio: os furos indicavam justamente as regi\u00f5es em que uma aeronave podia ser atingida e ainda assim voltar. O refor\u00e7o deveria ir para as \u00e1reas sem furos, porque os avi\u00f5es atingidos ali n\u00e3o retornavam para serem examinados.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conv\u00e9m uma ressalva antes de prosseguir. A narrativa circula em vers\u00f5es muito estilizadas, e o trabalho t\u00e9cnico original tratava de estimar vulnerabilidade a partir de dados incompletos, n\u00e3o de uma cena de inspira\u00e7\u00e3o s\u00fabita. Ela serve como <strong>ilustra\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio<\/strong>, n\u00e3o como evid\u00eancia metodol\u00f3gica, e \u00e9 assim que deve ser usada em sala de aula.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Feita a ressalva, a transposi\u00e7\u00e3o para a pesquisa em sa\u00fade \u00e9 direta e desconfort\u00e1vel. A base indexada \u00e9 a frota que voltou. O pesquisador examina apenas os estudos que sobreviveram a todos os filtros do percurso editorial, e desses estudos extrai conclus\u00f5es sobre o universo inteiro de pesquisas realizadas. Chamamos isso de <strong>vi\u00e9s de sobreviv\u00eancia<\/strong> quando a sobreviv\u00eancia \u00e9 do objeto observado, e de <strong>vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o<\/strong> quando o filtro atua sobre a divulga\u00e7\u00e3o de resultados cient\u00edficos. O mecanismo l\u00f3gico \u00e9 o mesmo: inferir o todo a partir de um recorte que foi produzido por um crit\u00e9rio correlacionado com aquilo que se quer medir.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tr\u00eas modos de desaparecer<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desaparecimento n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno \u00fanico. Conv\u00e9m separar ao menos tr\u00eas mecanismos, porque as contramedidas diferem.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro \u00e9 o <strong>vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o<\/strong> em sentido estrito, isto \u00e9, a menor probabilidade de um estudo com resultado nulo ou desfavor\u00e1vel ser publicado. A revis\u00e3o mais abrangente sobre o tema mostra que o determinante principal n\u00e3o \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o pelo editor, como costuma supor o pesquisador iniciante, mas a decis\u00e3o do pr\u00f3prio investigador de n\u00e3o submeter o manuscrito, por antecipar desinteresse, por j\u00e1 ter deslocado seu tempo para outro projeto ou por julgar que resultado nulo n\u00e3o constr\u00f3i carreira (Song et al., 2010). O filtro, portanto, opera dentro do laborat\u00f3rio antes de operar na reda\u00e7\u00e3o do peri\u00f3dico.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo \u00e9 o <strong>relato seletivo de desfechos<\/strong>, que \u00e9 mais insidioso porque n\u00e3o elimina o estudo, apenas o reescreve. A compara\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica entre protocolos submetidos a comit\u00eas de \u00e9tica e artigos posteriormente publicados revelou que a maioria dos ensaios apresentava ao menos uma discrep\u00e2ncia no desfecho prim\u00e1rio, seja por omiss\u00e3o, seja por introdu\u00e7\u00e3o de desfecho n\u00e3o previsto, seja por troca daquilo que fora declarado como principal, e que os desfechos com resultado estatisticamente significativo tinham chance consideravelmente maior de serem relatados de forma completa (Chan et al., 2004). O estudo est\u00e1 publicado, \u00e9 recuper\u00e1vel e aparenta integridade, mas responde a uma pergunta diferente daquela que se prop\u00f4s responder.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro \u00e9 o conjunto de filtros de acesso, entre os quais o vi\u00e9s de idioma e o de indexa\u00e7\u00e3o. Pesquisa relevante conduzida no Brasil e publicada em portugu\u00eas em peri\u00f3dico n\u00e3o indexado nas grandes bases internacionais \u00e9, para efeitos pr\u00e1ticos de uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica conduzida apenas em ingl\u00eas, inexistente. O efeito desse filtro \u00e9 assim\u00e9trico por regi\u00e3o e por tema, o que compromete de modo particular a evid\u00eancia sobre condi\u00e7\u00f5es prevalentes em pa\u00edses de renda m\u00e9dia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O caso dos antidepressivos<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A demonstra\u00e7\u00e3o mais persuasiva do fen\u00f4meno surge quando existe um registro independente que permita comparar o que foi feito com o que foi publicado. Foi esse o caso dos ensaios de antidepressivos submetidos \u00e0 ag\u00eancia reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos (Food and Drug Administration, FDA), cujos resultados eram conhecidos do regulador independentemente de qualquer publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O confronto entre os dois conjuntos mostrou um padr\u00e3o n\u00edtido. Praticamente todos os ensaios classificados como positivos pela ag\u00eancia foram publicados, ao passo que a maior parte dos ensaios classificados como negativos ou duvidosos ou n\u00e3o foi publicada, ou foi publicada de maneira que sugeria resultado favor\u00e1vel. A consequ\u00eancia quantitativa \u00e9 o que mais importa aqui: o tamanho de efeito agregado calculado a partir da literatura publicada excedeu em cerca de um ter\u00e7o aquele calculado a partir do conjunto completo de ensaios (Turner et al., 2008).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto a reter n\u00e3o \u00e9 que antidepressivos n\u00e3o funcionem, conclus\u00e3o que o estudo n\u00e3o autoriza. O ponto \u00e9 que <strong>a magnitude aparente de um efeito depende do subconjunto de estudos acess\u00edvel<\/strong>, e que essa depend\u00eancia \u00e9 sistem\u00e1tica, n\u00e3o aleat\u00f3ria. Uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica metodologicamente impec\u00e1vel, conduzida sobre um conjunto enviesado de estudos, produz uma estimativa precisa e errada. O rigor do m\u00e9todo n\u00e3o corrige a seletividade do insumo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que se pode detectar e o que n\u00e3o se pode<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem instrumentos estat\u00edsticos para investigar a assimetria de um conjunto de estudos. O mais difundido \u00e9 o gr\u00e1fico de funil, que disp\u00f5e cada estudo conforme seu tamanho de efeito e sua precis\u00e3o, com a expectativa de que estudos pequenos se dispersem simetricamente em torno da estimativa comum, enquanto estudos grandes se concentrem no centro. A aus\u00eancia de estudos pequenos com resultado desfavor\u00e1vel produz uma lacuna caracter\u00edstica em um dos lados do funil, e existe teste estat\u00edstico espec\u00edfico para avaliar essa assimetria (Egger et al., 1997).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso desses instrumentos exige cautela que nem sempre \u00e9 observada. As recomenda\u00e7\u00f5es consolidadas sobre a mat\u00e9ria advertem que <strong>assimetria de funil n\u00e3o equivale a vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: ela tamb\u00e9m pode decorrer de heterogeneidade cl\u00ednica genu\u00edna entre os estudos, de diferen\u00e7as de qualidade metodol\u00f3gica associadas ao tamanho da amostra, de relato seletivo dentro dos estudos ou simplesmente do acaso, sobretudo quando o n\u00famero de estudos \u00e9 pequeno. Da\u00ed a orienta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o aplicar testes de assimetria a conjuntos com menos de dez estudos e de interpretar o resultado como hip\u00f3tese a investigar, nunca como diagn\u00f3stico (Sterne et al., 2011).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, al\u00e9m disso, um limite l\u00f3gico intranspon\u00edvel. Nenhum teste estat\u00edstico recupera informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe no conjunto analisado. Os m\u00e9todos de detec\u00e7\u00e3o indicam que algo pode estar faltando, jamais o que est\u00e1 faltando nem quanto. A solu\u00e7\u00e3o real do problema n\u00e3o \u00e9 estat\u00edstica, \u00e9 de infraestrutura da pesquisa, e passa pelo registro daquilo que se pretende fazer antes de se conhecer o resultado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que fazer, como leitor e como autor<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na condi\u00e7\u00e3o de leitor, tr\u00eas h\u00e1bitos alteram substancialmente a qualidade da leitura. O primeiro \u00e9 procurar o protocolo registrado do ensaio que se est\u00e1 lendo e conferir se o desfecho prim\u00e1rio declarado corresponde ao desfecho prim\u00e1rio relatado, verifica\u00e7\u00e3o que leva poucos minutos em bases como o Registro Brasileiro de Ensaios Cl\u00ednicos (ReBEC) e o ClinicalTrials.gov. O segundo \u00e9 examinar, em qualquer revis\u00e3o sistem\u00e1tica, se os autores avaliaram o risco de vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o e como o fizeram, tratando a omiss\u00e3o desse item como sinal de alerta. O terceiro \u00e9 estender a busca \u00e0 literatura cinzenta, incluindo teses, disserta\u00e7\u00f5es e anais, onde resultados nulos sobrevivem com frequ\u00eancia maior do que nos peri\u00f3dicos.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na condi\u00e7\u00e3o de autor, a contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 mais exigente e mais decisiva. Registrar prospectivamente o estudo, declarar o desfecho prim\u00e1rio antes da coleta e sustent\u00e1-lo depois, publicar o resultado obtido ainda quando ele contrarie a hip\u00f3tese, e reportar integralmente os desfechos secund\u00e1rios e os eventos adversos, mesmo os que enfraquecem a narrativa do artigo. <strong>O estudo nulo bem conduzido \u00e9 informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica leg\u00edtima<\/strong>, e o sil\u00eancio sobre ele n\u00e3o \u00e9 neutro: desloca a estimativa coletiva na dire\u00e7\u00e3o do efeito aparente. A gaveta em que dorme um resultado negativo \u00e9, em termos agregados, uma forma de distor\u00e7\u00e3o da literatura.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta que abre uma revis\u00e3o de literatura n\u00e3o deveria ser apenas o que os estudos mostram, mas tamb\u00e9m quais estudos teriam chegado at\u00e9 aqui se tivessem encontrado o contr\u00e1rio. Essa segunda pergunta n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica nem c\u00e9tica em sentido est\u00e9ril: ela reorienta a leitura, obriga a procurar protocolos, registros e literatura n\u00e3o indexada, e recalibra a confian\u00e7a depositada em um conjunto de artigos que parecia un\u00e2nime. A unanimidade aparente de um campo \u00e9, com frequ\u00eancia, a assinatura de um filtro operando, n\u00e3o de uma verdade consolidada.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o que ultrapassa a t\u00e9cnica. Todo pesquisador decide, ao menos uma vez na carreira, o que fazer com um resultado que n\u00e3o confirmou a hip\u00f3tese e que dificilmente render\u00e1 cita\u00e7\u00f5es. Essa decis\u00e3o individual, replicada por milhares de pesquisadores, \u00e9 exatamente o mecanismo que produz o vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe corre\u00e7\u00e3o estat\u00edstica capaz de compensar a soma dessas escolhas privadas. O que existe \u00e9 a possibilidade de cada um escrever o artigo que ningu\u00e9m pediu, submet\u00ea-lo, registrar o protocolo antes de saber o desfecho e assumir que a integridade do conjunto depende de gestos que raramente s\u00e3o recompensados. A literatura cient\u00edfica \u00e9, afinal, o que os pesquisadores decidem contar sobre aquilo que fizeram.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fontes<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[1].<\/strong> Song F, Parekh S, Hooper L, Loke YK, Ryder J, Sutton AJ, et al. Dissemination and publication of research findings: an updated review of related biases. Health Technol Assess. 2010;14(8):1-193.<br \/>DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3310\/hta14080\">https:\/\/doi.org\/10.3310\/hta14080<\/a><br \/>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3310\/hta14080\">https:\/\/doi.org\/10.3310\/hta14080<\/a><br \/><em>Coment\u00e1rio: revis\u00e3o de grande amplitude sobre os vieses que afetam a dissemina\u00e7\u00e3o de resultados de pesquisa, reunindo estudos emp\u00edricos sobre publica\u00e7\u00e3o, tempo at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o, idioma e duplica\u00e7\u00e3o. Sustenta no texto a afirma\u00e7\u00e3o de que o filtro principal atua na decis\u00e3o do investigador de n\u00e3o submeter o manuscrito, e n\u00e3o na rejei\u00e7\u00e3o editorial. \u00c9 a refer\u00eancia indicada a quem pretenda aprofundar a tipologia dos vieses de dissemina\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[2].<\/strong> Chan AW, Hr\u00f3bjartsson A, Haahr MT, G\u00f8tzsche PC, Altman DG. Empirical evidence for selective reporting of outcomes in randomized trials: comparison of protocols to published articles. JAMA. 2004;291(20):2457-65.<br \/>DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1001\/jama.291.20.2457\">https:\/\/doi.org\/10.1001\/jama.291.20.2457<\/a><br \/>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1001\/jama.291.20.2457\">https:\/\/doi.org\/10.1001\/jama.291.20.2457<\/a><br \/><em>Coment\u00e1rio: estudo que comparou protocolos aprovados por comit\u00eas de \u00e9tica com os artigos correspondentes, quantificando omiss\u00f5es, introdu\u00e7\u00f5es e trocas de desfecho prim\u00e1rio. Fundamenta a se\u00e7\u00e3o sobre relato seletivo e demonstra que a distor\u00e7\u00e3o pode ocorrer dentro de um estudo publicado, sem qualquer supress\u00e3o vis\u00edvel. Continua sendo a refer\u00eancia can\u00f4nica do problema.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[3].<\/strong> Turner EH, Matthews AM, Linardatos E, Tell RA, Rosenthal R. Selective publication of antidepressant trials and its influence on apparent efficacy. N Engl J Med. 2008;358(3):252-60.<br \/>DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1056\/NEJMsa065779\">https:\/\/doi.org\/10.1056\/NEJMsa065779<\/a><br \/>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1056\/NEJMsa065779\">https:\/\/doi.org\/10.1056\/NEJMsa065779<\/a><br \/><em>Coment\u00e1rio: compara\u00e7\u00e3o entre ensaios de antidepressivos registrados na ag\u00eancia reguladora norte-americana e ensaios efetivamente publicados, com estimativa do quanto a efic\u00e1cia aparente foi inflada pela sele\u00e7\u00e3o. Serve no texto como demonstra\u00e7\u00e3o emp\u00edrica do efeito quantitativo do vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o sobre a magnitude do efeito estimado.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[4].<\/strong> Egger M, Davey Smith G, Schneider M, Minder C. Bias in meta-analysis detected by a simple, graphical test. BMJ. 1997;315(7109):629-34.<br \/>DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.315.7109.629\">https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.315.7109.629<\/a><br \/>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.315.7109.629\">https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.315.7109.629<\/a><br \/><em>Coment\u00e1rio: artigo que prop\u00f4s o teste de assimetria do gr\u00e1fico de funil que passou a levar o nome do primeiro autor. \u00c9 a base do instrumento de detec\u00e7\u00e3o discutido na quinta se\u00e7\u00e3o e leitura obrigat\u00f3ria para quem conduz meta-an\u00e1lise.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>[5].<\/strong> Sterne JAC, Sutton AJ, Ioannidis JPA, Terrin N, Jones DR, Lau J, et al. Recommendations for examining and interpreting funnel plot asymmetry in meta-analyses of randomised controlled trials. BMJ. 2011;343:d4002.<br \/>DOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.d4002\">https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.d4002<\/a><br \/>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.d4002\">https:\/\/doi.org\/10.1136\/bmj.d4002<\/a><br \/><em>Coment\u00e1rio: documento de recomenda\u00e7\u00f5es que delimita o uso respons\u00e1vel do gr\u00e1fico de funil, esclarecendo que a assimetria admite explica\u00e7\u00f5es alternativas ao vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o. Fundamenta as cautelas apresentadas no texto, inclusive a orienta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o aplicar testes de assimetria a conjuntos com menos de dez estudos.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pontos para Recordar<\/h2>\r\n\r\n\r\n\r\n<ol class=\"wp-block-list\">\r\n<li>O conjunto de artigos recuperado em uma base de dados \u00e9 o resultado de filtros sucessivos, e n\u00e3o uma amostra aleat\u00f3ria da pesquisa realizada sobre o tema.<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li>O principal determinante do vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o \u00e9 a decis\u00e3o do pr\u00f3prio investigador de n\u00e3o submeter resultados nulos, e n\u00e3o a rejei\u00e7\u00e3o pelos editores.<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li>O relato seletivo de desfechos distorce a literatura sem suprimir nenhum artigo, pois altera a pergunta que o estudo publicado aparenta responder.<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li>A compara\u00e7\u00e3o entre protocolos registrados e artigos publicados revela discrep\u00e2ncia de desfecho prim\u00e1rio na maioria dos ensaios examinados.<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li>Quando existe registro independente dos ensaios, como o de uma ag\u00eancia reguladora, a efic\u00e1cia estimada pela literatura publicada tende a superar a efic\u00e1cia estimada pelo conjunto completo de estudos.<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li>A assimetria do gr\u00e1fico de funil sugere investiga\u00e7\u00e3o adicional, mas n\u00e3o equivale a diagn\u00f3stico de vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o, pois admite explica\u00e7\u00f5es alternativas.<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li>Registrar o estudo prospectivamente, sustentar o desfecho prim\u00e1rio declarado e publicar resultados nulos s\u00e3o as condutas que efetivamente reduzem o problema na origem.<\/li>\r\n<\/ol>\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\r\n\r\n\r\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso de Intelig\u00eancia Artificial Generativa.<\/strong> <em>Este texto foi produzido com o aux\u00edlio de Claude, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estrutura\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e de produ\u00e7\u00e3o do texto. A responsabilidade pela vers\u00e3o final e precis\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, pelo pensamento cr\u00edtico, pela sele\u00e7\u00e3o das fontes e pelo conte\u00fado publicado \u00e9 integralmente do autor.<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto examina por que o conjunto de artigos recuperado em uma base de dados n\u00e3o representa a pesquisa efetivamente realizada sobre um tema. Distingue tr\u00eas mecanismos de desaparecimento, o vi\u00e9s de publica\u00e7\u00e3o em sentido estrito, o relato seletivo de desfechos e os filtros de idioma e de indexa\u00e7\u00e3o, e apresenta a evid\u00eancia emp\u00edrica que documenta cada um deles. Discute os instrumentos de detec\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis, como o gr\u00e1fico de funil, e seus limites reconhecidos. Encerra com condutas pr\u00e1ticas para o pesquisador, na leitura da literatura alheia e na produ\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[64],"tags":[51,50],"class_list":["post-7964","post","type-post","status-publish","format-standard","category-metodologia-cientifica","tag-metodologia-cientifica","tag-revisao-sistematica","czr-hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7964"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7964\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7971,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7964\/revisions\/7971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}