{"id":8340,"date":"2026-10-11T01:31:14","date_gmt":"2026-10-11T01:31:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=8340"},"modified":"2026-10-11T02:30:15","modified_gmt":"2026-10-11T02:30:15","slug":"inovacao-aberta-quando-a-melhor-ideia-vem-de-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=8340","title":{"rendered":"Inova\u00e7\u00e3o aberta: quando a melhor ideia vem de fora"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Abrir a inova\u00e7\u00e3o exige saber buscar fora, proteger dentro e dividir o valor<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Aldemar Araujo Castro<br \/>\nCria\u00e7\u00e3o: 10\/10\/2026<br \/>\nAtualiza\u00e7\u00e3o: 10\/10\/2026<br \/>\nPalavras: 2090<br \/>\nTempo de leitura: 10 minutos<\/p>\n<p><strong>Porta entreaberta<\/strong><br \/>\n<strong>o vizinho traz a chave<\/strong><br \/>\n<strong>a casa se amplia<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo.<\/strong> Este texto apresenta a inova\u00e7\u00e3o aberta, formulada por Henry Chesbrough, como modelo em que o conhecimento atravessa deliberadamente as fronteiras da organiza\u00e7\u00e3o, para dentro e para fora. Explica os fluxos de entrada e de sa\u00edda, discute a evid\u00eancia de que abrir demais tamb\u00e9m prejudica e mostra por que integrar o conhecimento externo \u00e9 mais dif\u00edcil do que busc\u00e1-lo. Examina experi\u00eancias em sa\u00fade e o papel da universidade p\u00fablica brasileira, \u00e0 luz do Marco Legal de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, sem perder de vista o interesse p\u00fablico.<\/p>\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Durante boa parte do s\u00e9culo XX, a imagem da inova\u00e7\u00e3o bem-sucedida era a do grande laborat\u00f3rio corporativo. Empresas contratavam os melhores cientistas, isolavam-nos em centros de pesquisa pr\u00f3prios, protegiam tudo com patentes e s\u00f3 deixavam sair o produto acabado. O conhecimento era tratado como fortaleza: quanto mais alto o muro, maior a vantagem.<\/p>\n<p>Esse modelo come\u00e7ou a ruir por raz\u00f5es pr\u00e1ticas. Pesquisadores qualificados passaram a circular entre empresas, universidades e startups. O capital de risco permitiu que ideias abandonadas num laborat\u00f3rio florescessem fora dele. A internet barateou a troca de informa\u00e7\u00e3o. E o conhecimento relevante para qualquer problema complexo passou a estar distribu\u00eddo por um n\u00famero de organiza\u00e7\u00f5es muito maior do que qualquer uma delas poderia empregar.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que surge a no\u00e7\u00e3o de <strong>inova\u00e7\u00e3o aberta<\/strong>. Ela n\u00e3o \u00e9 um apelo rom\u00e2ntico \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o, nem uma ren\u00fancia \u00e0 propriedade intelectual. \u00c9 uma forma de gerir deliberadamente o que entra e o que sai pelas fronteiras da organiza\u00e7\u00e3o. Este texto percorre o conceito, seus fluxos, seus limites e sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 universidade p\u00fablica.<\/p>\n<h2>O fim do laborat\u00f3rio fechado<\/h2>\n<p>A express\u00e3o foi popularizada por Henry Chesbrough no in\u00edcio dos anos 2000, a partir da observa\u00e7\u00e3o de empresas de tecnologia que lucravam licenciando o que n\u00e3o usavam e incorporando o que n\u00e3o haviam inventado. Uma d\u00e9cada depois, Chesbrough e Bogers (2014) propuseram uma defini\u00e7\u00e3o mais precisa: inova\u00e7\u00e3o aberta \u00e9 um <strong>processo distribu\u00eddo de inova\u00e7\u00e3o<\/strong>, baseado em fluxos de conhecimento gerenciados intencionalmente atrav\u00e9s das fronteiras organizacionais, por mecanismos pecuni\u00e1rios e n\u00e3o pecuni\u00e1rios, em coer\u00eancia com o modelo de neg\u00f3cio da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada elemento da defini\u00e7\u00e3o importa. &#8220;Gerenciados intencionalmente&#8221; separa a inova\u00e7\u00e3o aberta do simples vazamento de informa\u00e7\u00e3o ou da colabora\u00e7\u00e3o casual. &#8220;Pecuni\u00e1rios e n\u00e3o pecuni\u00e1rios&#8221; reconhece que o conhecimento pode ser comprado, vendido, licenciado, mas tamb\u00e9m doado, compartilhado ou trocado por reputa\u00e7\u00e3o. E a refer\u00eancia ao <strong>modelo de neg\u00f3cio<\/strong> lembra que abrir s\u00f3 faz sentido quando a organiza\u00e7\u00e3o sabe como vai criar e capturar valor com aquilo que entra ou sai.<\/p>\n<p>O contraste com o modelo fechado n\u00e3o \u00e9 de bondade contra ego\u00edsmo. \u00c9 de pressupostos. O modelo fechado sup\u00f5e que as melhores pessoas trabalham para n\u00f3s e que, se inventarmos primeiro, venceremos. O modelo aberto sup\u00f5e que a maioria das pessoas inteligentes trabalha para outros, que ideias externas podem ser t\u00e3o valiosas quanto as internas e que um bom modelo de neg\u00f3cio vale mais do que chegar primeiro ao mercado.<\/p>\n<h2>Os fluxos de entrada e de sa\u00edda<\/h2>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o aberta tem duas dire\u00e7\u00f5es. Na <strong>inova\u00e7\u00e3o aberta de entrada<\/strong>, a organiza\u00e7\u00e3o traz para dentro conhecimento, tecnologia ou ideias produzidas fora. Na <strong>inova\u00e7\u00e3o aberta de sa\u00edda<\/strong>, ela deixa sair conhecimento pr\u00f3prio que n\u00e3o pretende explorar diretamente, para que outros o desenvolvam.<\/p>\n<p>Dahlander e Gann (2010) cruzaram essas duas dire\u00e7\u00f5es com a natureza da troca e chegaram a quatro formas de abertura. Do lado da entrada, a organiza\u00e7\u00e3o pode buscar conhecimento sem pagar, acompanhando a literatura cient\u00edfica, ouvindo usu\u00e1rios ou participando de comunidades, ou pode adquiri-lo, comprando licen\u00e7as, contratando servi\u00e7os tecnol\u00f3gicos ou adquirindo empresas. Do lado da sa\u00edda, pode revelar conhecimento gratuitamente, publicando ou liberando c\u00f3digo, ou pode vend\u00ea-lo, licenciando patentes e transferindo tecnologia.<\/p>\n<p>Um exemplo brasileiro recente ajuda a visualizar a entrada pecuni\u00e1ria. Em 2020, a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz firmou com a farmac\u00eautica AstraZeneca um acordo de encomenda tecnol\u00f3gica que inclu\u00eda a transfer\u00eancia da tecnologia de produ\u00e7\u00e3o de uma vacina contra a covid-19. A institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica n\u00e3o inventou a vacina, mas absorveu o conhecimento externo e passou a produzi-la no pa\u00eds. O caso mostra que buscar fora n\u00e3o \u00e9 sinal de fraqueza cient\u00edfica; pode ser a rota mais r\u00e1pida para atender a uma necessidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Do lado da sa\u00edda, a universidade \u00e9, por natureza, uma grande praticante da revela\u00e7\u00e3o gratuita: publica artigos, forma pessoas, apresenta resultados em congressos. O que a inova\u00e7\u00e3o aberta acrescenta \u00e9 a pergunta estrat\u00e9gica sobre quando revelar e quando licenciar, tema que se conecta diretamente ao trabalho dos n\u00facleos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<h2>Quanto abrir<\/h2>\n<p>Se abrir \u00e9 bom, abrir mais seria melhor? A evid\u00eancia sugere que n\u00e3o. Laursen e Salter (2006) analisaram dados de milhares de empresas industriais brit\u00e2nicas e examinaram duas dimens\u00f5es da busca externa: a <strong>amplitude<\/strong>, isto \u00e9, quantas fontes diferentes a empresa consulta, e a profundidade, isto \u00e9, com que intensidade se apoia em cada uma.<\/p>\n<p>O resultado foi uma rela\u00e7\u00e3o em forma de U invertido. At\u00e9 certo ponto, buscar em mais fontes e com mais intensidade se associa a melhor desempenho inovador. A partir da\u00ed, a rela\u00e7\u00e3o se inverte: a empresa passa a <strong>buscar demais<\/strong>. A aten\u00e7\u00e3o da equipe \u00e9 limitada, cada parceria exige tempo de constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e de linguagem comum, e o excesso de canais dispersa o esfor\u00e7o sem aprofundar nenhum.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 valiosa para gestores entusiasmados com parcerias. Assinar dezenas de acordos de coopera\u00e7\u00e3o, participar de todos os ecossistemas e abrir chamadas de ideias permanentes n\u00e3o garante inova\u00e7\u00e3o. Pode, ao contr\u00e1rio, produzir uma organiza\u00e7\u00e3o ocupada em se relacionar e incapaz de aproveitar o que recebe. Abrir bem \u00e9 escolher.<\/p>\n<h2>O paradoxo da prote\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Quem ouve falar de inova\u00e7\u00e3o aberta pela primeira vez costuma supor que ela dispensa a propriedade intelectual. Ocorre quase o contr\u00e1rio. Para que o conhecimento circule com seguran\u00e7a entre organiza\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso que algu\u00e9m saiba a quem ele pertence, em que condi\u00e7\u00f5es pode ser usado e como ser\u00e3o repartidos os ganhos. Um licenciamento s\u00f3 existe se houver algo a licenciar; uma parceria de pesquisa s\u00f3 se firma se as partes souberem, de antem\u00e3o, como tratar\u00e3o os resultados.<\/p>\n<p>A literatura chama essa tens\u00e3o de <strong>paradoxo da abertura<\/strong>: para colaborar, \u00e9 preciso revelar; mas revelar demais, sem prote\u00e7\u00e3o, pode entregar a outros o valor que se pretendia compartilhar. A sa\u00edda n\u00e3o est\u00e1 em escolher um dos polos, e sim em desenhar as condi\u00e7\u00f5es da troca. <strong>Acordos de confidencialidade<\/strong> antes das conversas, cl\u00e1usulas claras sobre titularidade e uso de resultados, decis\u00f5es conscientes sobre o que publicar e quando: tudo isso faz parte da pr\u00e1tica madura da abertura (Chesbrough e Bogers, 2014).<\/p>\n<p>Na universidade, o paradoxo assume uma forma conhecida. O pesquisador quer publicar r\u00e1pido, porque a carreira acad\u00eamica recompensa a prioridade. A empresa parceira quer sigilo, porque o mercado recompensa a exclusividade. O n\u00facleo de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica existe, em boa parte, para negociar esse encontro, e o faz melhor quando \u00e9 chamado antes de o artigo ser submetido, e n\u00e3o depois.<\/p>\n<h2>Onde a abertura falha<\/h2>\n<p>West e Bogers (2014) revisaram a pesquisa sobre a inova\u00e7\u00e3o aberta de entrada e organizaram o processo em etapas: obter o conhecimento externo, integr\u00e1-lo \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e comercializ\u00e1-lo, com intera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua entre as partes. A revis\u00e3o mostrou um desequil\u00edbrio. A literatura havia estudado muito a primeira etapa, a de encontrar e obter, e muito menos a segunda, a de <strong>integrar<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente na integra\u00e7\u00e3o que a abertura costuma falhar. O conhecimento que chega de fora vem escrito em outra linguagem, ajustado a outros equipamentos, pressupondo outras rotinas. Absorv\u00ea-lo exige gente capaz de entend\u00ea-lo, tempo para adapt\u00e1-lo e disposi\u00e7\u00e3o para mudar processos internos. Sem essa capacidade, a organiza\u00e7\u00e3o compra licen\u00e7as que n\u00e3o usa, firma conv\u00eanios que n\u00e3o saem do papel e recebe ideias que ningu\u00e9m tem condi\u00e7\u00f5es de testar.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma <strong>resist\u00eancia cultural<\/strong> conhecida, \u00e0s vezes chamada de s\u00edndrome do &#8220;n\u00e3o foi inventado aqui&#8221;: a tend\u00eancia de equipes a desvalorizar solu\u00e7\u00f5es externas simplesmente por serem externas. Na academia, ela se mistura ao prest\u00edgio da autoria. Um grupo de pesquisa pode preferir passar dois anos desenvolvendo um m\u00e9todo pr\u00f3prio a adotar um protocolo validado por outro grupo, porque o primeiro rende artigos e o segundo n\u00e3o.<\/p>\n<h2>Inova\u00e7\u00e3o aberta em sa\u00fade<\/h2>\n<p>A sa\u00fade oferece um terreno particularmente f\u00e9rtil para a abertura, porque o conhecimento relevante est\u00e1 espalhado entre atores que raramente conversam: pacientes que convivem com uma condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, profissionais da assist\u00eancia, gestores, pesquisadores, fabricantes e reguladores. Muitas das melhores ideias para melhorar um servi\u00e7o nascem de quem o usa ou de quem o opera, e n\u00e3o de quem o planeja.<\/p>\n<p>Bullinger e colaboradores (2012) analisaram uma plataforma digital aberta em que pacientes, profissionais e outros interessados podiam propor e discutir ideias de inova\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade. O estudo mostrou o potencial de reunir <strong>contribui\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios<\/strong> e tamb\u00e9m os seus desafios: qualidade vari\u00e1vel das propostas, necessidade de modera\u00e7\u00e3o, dificuldade de transformar ideias soltas em projetos execut\u00e1veis e o mesmo problema de integra\u00e7\u00e3o descrito na literatura geral. Uma plataforma aberta gera ideias com facilidade; transform\u00e1-las em mudan\u00e7a no servi\u00e7o exige uma estrutura do lado de dentro.<\/p>\n<p>H\u00e1 formatos j\u00e1 consolidados para essa escuta. Desafios de inova\u00e7\u00e3o, em que uma institui\u00e7\u00e3o apresenta um problema concreto e convida equipes externas a propor solu\u00e7\u00f5es, permitem delimitar o escopo e comparar respostas. Maratonas de desenvolvimento re\u00fanem, em poucos dias, profissionais de sa\u00fade, programadores, designers e pacientes em torno de um problema assistencial. Laborat\u00f3rios vivos testam solu\u00e7\u00f5es no ambiente real de uso, com a participa\u00e7\u00e3o de quem as usar\u00e1. Todos t\u00eam em comum a mesma virtude e o mesmo risco: geram muitas ideias em pouco tempo e dependem de um compromisso posterior para que alguma delas chegue ao servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Para hospitais universit\u00e1rios e servi\u00e7os p\u00fablicos, isso sugere uma estrat\u00e9gia em dois tempos. Primeiro, criar canais para ouvir quem est\u00e1 fora da equipe de gest\u00e3o, inclusive pacientes e trabalhadores da linha de frente. Segundo, e mais importante, designar quem ser\u00e1 respons\u00e1vel por receber, triar, testar e dar retorno sobre o que chega. Sem o segundo tempo, o primeiro vira apenas uma <strong>caixa de sugest\u00f5es digital<\/strong>.<\/p>\n<h2>A universidade como parceira<\/h2>\n<p>No Brasil, a universidade p\u00fablica ganhou nos \u00faltimos anos instrumentos jur\u00eddicos mais claros para praticar a inova\u00e7\u00e3o aberta. A Emenda Constitucional n\u00ba 85\/2015, a Lei n\u00ba 13.243\/2016, que reformou a Lei de Inova\u00e7\u00e3o, e o Decreto n\u00ba 9.283\/2018 comp\u00f5em o chamado <strong>Marco Legal de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o<\/strong>. Esse conjunto prev\u00ea acordos de parceria para pesquisa e desenvolvimento, compartilhamento de laborat\u00f3rios e equipamentos, licenciamento de tecnologias, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os t\u00e9cnicos e encomendas tecnol\u00f3gicas, entre outros instrumentos.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia dos instrumentos n\u00e3o resolve, por si s\u00f3, as tens\u00f5es. A universidade p\u00fablica tem miss\u00e3o pr\u00f3pria, que n\u00e3o se confunde com a de uma empresa. Ao abrir suas fronteiras, ela precisa proteger a liberdade de pesquisa, garantir transpar\u00eancia nos acordos, evitar conflitos de interesse e assegurar que o conhecimento produzido com recursos p\u00fablicos retorne \u00e0 sociedade. Na sa\u00fade, essa preocupa\u00e7\u00e3o ganha relevo: uma tecnologia licenciada em condi\u00e7\u00f5es que a tornem inacess\u00edvel ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade pode ser um bom neg\u00f3cio e, ao mesmo tempo, um mau resultado p\u00fablico.<\/p>\n<p>Por isso, a inova\u00e7\u00e3o aberta na universidade n\u00e3o deve ser lida como mercantiliza\u00e7\u00e3o, nem rejeitada por princ\u00edpio. Deve ser praticada com crit\u00e9rio, com a mesma pergunta que orienta qualquer <strong>escolha estrat\u00e9gica<\/strong>: que valor estamos criando, para quem e com que garantias.<\/p>\n<h2>Um roteiro para come\u00e7ar<\/h2>\n<p>Para um servi\u00e7o de sa\u00fade, um grupo de pesquisa ou uma pequena empresa que queira praticar a inova\u00e7\u00e3o aberta com crit\u00e9rio, algumas perguntas ajudam a organizar os primeiros passos.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 sobre o <strong>problema<\/strong>, e n\u00e3o sobre a parceria. Que necessidade concreta n\u00e3o estamos conseguindo resolver sozinhos? Abrir sem um problema claro produz reuni\u00f5es, n\u00e3o solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A segunda \u00e9 sobre quem j\u00e1 resolveu algo parecido. Uma busca cuidadosa na literatura cient\u00edfica, em bases de patentes e em relatos de outros servi\u00e7os frequentemente revela que a solu\u00e7\u00e3o, ou parte dela, j\u00e1 existe. Adot\u00e1-la, com os devidos cr\u00e9ditos e acordos, pode ser mais sensato do que reinvent\u00e1-la.<\/p>\n<p>A terceira \u00e9 sobre a <strong>capacidade de absor\u00e7\u00e3o<\/strong>. Temos pessoas, tempo e processos para receber o que vier de fora, entend\u00ea-lo e adapt\u00e1-lo? Se a resposta for negativa, o primeiro investimento talvez seja interno.<\/p>\n<p>A quarta \u00e9 sobre o que temos a oferecer. Que conhecimento, dados, m\u00e9todos ou tecnologias produzidos aqui est\u00e3o parados e poderiam ser \u00fateis a outros, sob licen\u00e7a, em parceria ou simplesmente publicados?<\/p>\n<p>A quinta, por fim, \u00e9 sobre as regras. Antes da primeira conversa substantiva, conv\u00e9m saber quem \u00e9 dono do qu\u00ea, o que pode ser divulgado e como ser\u00e3o tratados os resultados. Essa conversa, que parece burocr\u00e1tica, \u00e9 a que permite que as demais aconte\u00e7am com confian\u00e7a.<\/p>\n<h2>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o aberta desloca a pergunta cl\u00e1ssica da gest\u00e3o do conhecimento. Em vez de perguntar como manter tudo dentro, pergunta o que deve entrar, o que deve sair e por quais caminhos. A evid\u00eancia ensina que abrir traz ganhos, que abrir demais dispersa e que o gargalo raramente est\u00e1 em encontrar boas ideias externas, mas em ter capacidade interna para integr\u00e1-las.<\/p>\n<p>Para pesquisadores, gestores de sa\u00fade e empreendedores, o convite \u00e9 olhar para as pr\u00f3prias fronteiras com mais inten\u00e7\u00e3o. Que conhecimento existe l\u00e1 fora e poderia poupar anos de trabalho? Que conhecimento parado aqui dentro poderia ser \u00fatil a outros? A porta entreaberta n\u00e3o \u00e9 sinal de descuido. \u00c9 uma decis\u00e3o sobre quem pode entrar, o que pode sair e o que a casa ganha com isso.<\/p>\n<h2>Fontes<\/h2>\n<p>1. Chesbrough H, Bogers M. Explicating open innovation: clarifying an emerging paradigm for understanding innovation. In: Chesbrough H, Vanhaverbeke W, West J, editors. New frontiers in open innovation. Oxford: Oxford University Press; 2014. p. 3-28.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1093\/acprof:oso\/9780199682461.003.0001\">https:\/\/doi.org\/10.1093\/acprof:oso\/9780199682461.003.0001<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1093\/acprof:oso\/9780199682461.003.0001\">https:\/\/doi.org\/10.1093\/acprof:oso\/9780199682461.003.0001<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Cap\u00edtulo em que o autor do conceito e um colaborador revisam uma d\u00e9cada de pesquisa e prop\u00f5em a defini\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o aberta como processo distribu\u00eddo baseado em fluxos de conhecimento gerenciados intencionalmente. Sustenta a defini\u00e7\u00e3o adotada no texto e o v\u00ednculo entre abertura e modelo de neg\u00f3cio.<\/em><\/p>\n<p>2. Laursen K, Salter A. Open for innovation: the role of openness in explaining innovation performance among U.K. manufacturing firms. Strateg Manag J. 2006;27(2):131-50.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1002\/smj.507\">https:\/\/doi.org\/10.1002\/smj.507<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1002\/smj.507\">https:\/\/doi.org\/10.1002\/smj.507<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Estudo emp\u00edrico com grande amostra de empresas industriais brit\u00e2nicas que mede a amplitude e a profundidade da busca externa. Mostra rela\u00e7\u00e3o em forma de U invertido com o desempenho inovador, o que fundamenta a ideia de que existe um ponto a partir do qual abrir mais prejudica.<\/em><\/p>\n<p>3. Dahlander L, Gann DM. How open is innovation? Res Policy. 2010;39(6):699-709.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.respol.2010.01.013\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.respol.2010.01.013<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.respol.2010.01.013\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.respol.2010.01.013<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Revis\u00e3o que classifica as formas de abertura cruzando a dire\u00e7\u00e3o do fluxo, de entrada ou de sa\u00edda, com a natureza da troca, pecuni\u00e1ria ou n\u00e3o. Oferece a tipologia usada no texto para distinguir buscar, adquirir, revelar e vender conhecimento.<\/em><\/p>\n<p>4. West J, Bogers M. Leveraging external sources of innovation: a review of research on open innovation. J Prod Innov Manag. 2014;31(4):814-31.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/jpim.12125\">https:\/\/doi.org\/10.1111\/jpim.12125<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/jpim.12125\">https:\/\/doi.org\/10.1111\/jpim.12125<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Revis\u00e3o da pesquisa sobre inova\u00e7\u00e3o aberta de entrada, que organiza o processo em obten\u00e7\u00e3o, integra\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do conhecimento externo. Aponta que a etapa de integra\u00e7\u00e3o foi pouco estudada, base para a se\u00e7\u00e3o sobre onde a abertura falha.<\/em><\/p>\n<p>5. Bullinger AC, Rass M, Adamczyk S, Moeslein KM, Sohn S. Open innovation in health care: analysis of an open health platform. Health Policy. 2012;105(2-3):165-75.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.healthpol.2012.02.009\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.healthpol.2012.02.009<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.healthpol.2012.02.009\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.healthpol.2012.02.009<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: An\u00e1lise de uma plataforma digital aberta a pacientes, profissionais e outros interessados para a proposi\u00e7\u00e3o de ideias de inova\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. Ilustra o potencial e os limites da participa\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios e sustenta a se\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 inova\u00e7\u00e3o aberta em sa\u00fade.<\/em><\/p>\n<h2>Pontos para Recordar<\/h2>\n<ol>\n<li>Inova\u00e7\u00e3o aberta \u00e9 a gest\u00e3o intencional de fluxos de conhecimento que entram e saem pelas fronteiras da organiza\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>A abertura pode ser de entrada ou de sa\u00edda, e a troca pode envolver ou n\u00e3o pagamento.<\/li>\n<li>Buscar conhecimento em fontes externas melhora o desempenho at\u00e9 certo ponto; al\u00e9m dele, a busca excessiva dispersa a aten\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>O maior gargalo da inova\u00e7\u00e3o aberta costuma estar na integra\u00e7\u00e3o do conhecimento externo, e n\u00e3o na sua obten\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Na sa\u00fade, pacientes e profissionais da linha de frente s\u00e3o fontes valiosas de ideias, desde que haja estrutura para receb\u00ea-las.<\/li>\n<li>O Marco Legal de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o oferece \u00e0 universidade p\u00fablica instrumentos jur\u00eddicos de parceria e licenciamento.<\/li>\n<li>A abertura da universidade deve preservar a liberdade de pesquisa, a transpar\u00eancia e o retorno do conhecimento \u00e0 sociedade.<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso de Intelig\u00eancia Artificial Generativa<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000080;\">Este texto foi produzido com o aux\u00edlio de Claude Opus 5.5, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estrutura\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e de produ\u00e7\u00e3o do texto. As imagens foram produzidas com aux\u00edlio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela vers\u00e3o final e precis\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, pelo pensamento cr\u00edtico, pela sele\u00e7\u00e3o das fontes e pelo conte\u00fado publicado \u00e9 integralmente do autor.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso da intelig\u00eancia humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Declaro que a elabora\u00e7\u00e3o deste trabalho contou com o uso de intelig\u00eancia humana desde a idea\u00e7\u00e3o, passando pela formula\u00e7\u00e3o das perguntas, pela escolha dos argumentos, pela interpreta\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e pelas decis\u00f5es sobre o que comunicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Essa intelig\u00eancia gerenciou o uso dos recursos tecnol\u00f3gicos, incluindo computadores, internet, processadores eletr\u00f4nicos de texto, corretores ortogr\u00e1ficos, planilhas de dados e aplicativos de cria\u00e7\u00e3o de desenhos e imagens. Tamb\u00e9m orquestrou o uso de recursos de intelig\u00eancia artificial generativa, definindo suas finalidades, orientando as solicita\u00e7\u00f5es, avaliando as respostas e decidindo o que incorporar, modificar ou descartar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Seu uso envolveu curiosidade, mem\u00f3ria, experi\u00eancia, d\u00favida e julgamento cr\u00edtico. Reconhe\u00e7o que essa intelig\u00eancia est\u00e1 sujeita a vieses, cansa\u00e7o, lacunas de conhecimento e erros, inclusive quando se expressa com seguran\u00e7a.\u00a0As ferramentas utilizadas apoiaram o processo de cria\u00e7\u00e3o. A responsabilidade pelo conte\u00fado que escolhi publicar, por suas implica\u00e7\u00f5es e pelas corre\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias permanece minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Declaro, por fim, que o exerc\u00edcio da intelig\u00eancia humana inclui reconhecer o que n\u00e3o sei, verificar o que afirmo e rever o que penso diante de boas raz\u00f5es.\u00a0Ali\u00e1s, a responsabilidade humana pelo que se publica sempre foi essa, mesmo antes da IA generativa.\u00a0<em>Este texto contou com participa\u00e7\u00e3o humana consciente, fal\u00edvel e respons\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto apresenta a inova\u00e7\u00e3o aberta, formulada por Henry Chesbrough, como modelo em que o conhecimento atravessa deliberadamente as fronteiras da organiza\u00e7\u00e3o, para dentro e para fora. Explica os fluxos de entrada e de sa\u00edda, discute a evid\u00eancia de que abrir demais tamb\u00e9m prejudica e mostra por que integrar o conhecimento externo \u00e9 mais dif\u00edcil do que busc\u00e1-lo. Examina experi\u00eancias em sa\u00fade e o papel da universidade p\u00fablica brasileira, \u00e0 luz do Marco Legal de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, sem perder de vista o interesse p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[68],"tags":[77,103,95,104],"class_list":["post-8340","post","type-post","status-publish","format-standard","category-inovacao-e-propriedade-intelectual","tag-inovacao","tag-inovacao-universitaria","tag-propriedade-intelectual","tag-transferencia-de-tecnologia","czr-hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8340","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8340"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8340\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8362,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8340\/revisions\/8362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8340"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8340"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8340"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}