{"id":8346,"date":"2026-10-11T01:34:39","date_gmt":"2026-10-11T01:34:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=8346"},"modified":"2026-10-11T02:30:27","modified_gmt":"2026-10-11T02:30:27","slug":"por-que-inovacoes-em-saude-falham","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/?p=8346","title":{"rendered":"Por que boas inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade acabam esquecidas no arm\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade falham mais na ado\u00e7\u00e3o e na implanta\u00e7\u00e3o do que na t\u00e9cnica<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Aldemar Araujo Castro<br \/>\nCria\u00e7\u00e3o: 10\/10\/2026<br \/>\nAtualiza\u00e7\u00e3o: 10\/10\/2026<br \/>\nPalavras: 1922<br \/>\nTempo de leitura: 10 minutos<\/p>\n<p><strong>Aparelho novo<\/strong><br \/>\n<strong>no canto da enfermaria<\/strong><br \/>\n<strong>coberto de p\u00f3<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo.<\/strong> Este texto examina por que tantas inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade funcionam no piloto e fracassam na rotina. Mostra que a maioria das falhas n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica, mas de previs\u00e3o, de implanta\u00e7\u00e3o e de ajuste ao contexto. Discute o otimismo dos planejadores, a implanta\u00e7\u00e3o como etapa pr\u00f3pria, a evid\u00eancia sobre difus\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es em servi\u00e7os e o modelo que organiza a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o e o abandono de tecnologias em sete dom\u00ednios. Encerra com o uso de um quadro consolidado de pesquisa em implementa\u00e7\u00e3o como lista de verifica\u00e7\u00e3o antes de come\u00e7ar.<\/p>\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Quase todo hospital tem o seu arm\u00e1rio de inova\u00e7\u00f5es. Pode ser literal, uma sala onde repousam equipamentos comprados com entusiasmo e usados por poucos meses. Pode ser digital: o aplicativo de telemonitoramento que ningu\u00e9m abre, o prontu\u00e1rio com um m\u00f3dulo de apoio \u00e0 decis\u00e3o que os m\u00e9dicos aprenderam a ignorar, a plataforma de agendamento que convive com o caderno da recep\u00e7\u00e3o. Em todos os casos, a tecnologia funcionava. O projeto-piloto tinha mostrado bons resultados. E, ainda assim, ela n\u00e3o sobreviveu \u00e0 rotina.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o mais comum para esses fracassos \u00e9 t\u00e9cnica: o sistema era lento, o equipamento quebrava, a interface era ruim. \u00c0s vezes \u00e9 verdade. Na maioria dos casos, por\u00e9m, a tecnologia \u00e9 apenas o lugar onde o fracasso se torna vis\u00edvel. As causas est\u00e3o antes e ao redor dela, em previs\u00f5es otimistas demais, em implanta\u00e7\u00f5es tratadas como detalhe e em contextos que ningu\u00e9m examinou com cuidado.<\/p>\n<p>Este texto percorre o que a pesquisa sobre implementa\u00e7\u00e3o aprendeu nas \u00faltimas d\u00e9cadas a respeito de <strong>por que inova\u00e7\u00f5es falham<\/strong> e prop\u00f5e que essa pergunta seja feita antes de come\u00e7ar, e n\u00e3o depois de o equipamento estar coberto de p\u00f3.<\/p>\n<h2>O otimismo do planejador<\/h2>\n<p>O primeiro erro costuma acontecer no planejamento, e tem ra\u00edzes psicol\u00f3gicas bem documentadas. Kahneman e Lovallo (1993) descreveram um padr\u00e3o aparentemente contradit\u00f3rio no comportamento de gestores: escolhas t\u00edmidas e <strong>previs\u00f5es ousadas<\/strong>. Diante de decis\u00f5es isoladas, as pessoas tendem a ser avessas ao risco. Mas, quando projetam o resultado do pr\u00f3prio projeto, tendem a superestimar benef\u00edcios e subestimar prazos, custos e obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Os autores atribu\u00edram essa tend\u00eancia, em parte, ao que chamaram de <strong>vis\u00e3o de dentro<\/strong>. Quem planeja olha para o seu projeto como caso \u00fanico, imagina o caminho ideal para conclu\u00ed-lo e ancora as estimativas nesse cen\u00e1rio. Raramente pergunta como projetos semelhantes se sa\u00edram no passado. A alternativa \u00e9 a vis\u00e3o de fora: identificar uma classe de refer\u00eancia de iniciativas compar\u00e1veis e partir da sua taxa real de sucesso, de atraso e de abandono, ajustando depois para as particularidades do caso.<\/p>\n<p>Na sa\u00fade, a vis\u00e3o de dentro \u00e9 alimentada por pilotos bem-sucedidos. O piloto acontece numa unidade escolhida, com uma equipe motivada, um l\u00edder entusiasmado, aten\u00e7\u00e3o redobrada e, muitas vezes, recursos extras. Seus resultados s\u00e3o reais, mas pertencem a condi\u00e7\u00f5es que dificilmente se repetem na expans\u00e3o. Quando o planejamento toma o piloto como amostra do que acontecer\u00e1 em toda a rede, a decep\u00e7\u00e3o est\u00e1 contratada.<\/p>\n<h2>A implanta\u00e7\u00e3o como etapa pr\u00f3pria<\/h2>\n<p>O segundo erro \u00e9 tratar a decis\u00e3o de adotar uma inova\u00e7\u00e3o como se fosse o mesmo que us\u00e1-la. Klein e Sorra (1996) chamaram aten\u00e7\u00e3o para o intervalo entre a decis\u00e3o de ado\u00e7\u00e3o e o uso rotineiro, que denominaram <strong>implanta\u00e7\u00e3o<\/strong>. Nesse intervalo, os membros da organiza\u00e7\u00e3o precisam aprender a usar a inova\u00e7\u00e3o, ajustar seus processos, resolver problemas imprevistos e decidir, dia ap\u00f3s dia, se vale a pena insistir.<\/p>\n<p>Para as autoras, a efetividade da implanta\u00e7\u00e3o depende de dois fatores principais. O primeiro \u00e9 o <strong>clima de implanta\u00e7\u00e3o<\/strong>: a percep\u00e7\u00e3o dos profissionais de que o uso da inova\u00e7\u00e3o \u00e9 esperado, apoiado e recompensado, com treinamento adequado, tempo dispon\u00edvel e remo\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos. O segundo \u00e9 o ajuste entre a inova\u00e7\u00e3o e os valores dos usu\u00e1rios. Uma tecnologia percebida como contr\u00e1ria ao que os profissionais consideram bom cuidado, ou ao que valorizam no pr\u00f3prio trabalho, encontrar\u00e1 resist\u00eancia mesmo com clima favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 decisiva. Um gestor pode comprar o melhor sistema do mercado, anunciar a mudan\u00e7a e considerar a tarefa cumprida. Do ponto de vista de Klein e Sorra, a tarefa mal come\u00e7ou. O que define o sucesso \u00e9 o que acontece nas semanas e meses seguintes, quando a enfermeira do plant\u00e3o noturno precisa decidir se registra no sistema novo ou no papel de sempre.<\/p>\n<h2>A difus\u00e3o em servi\u00e7os de sa\u00fade<\/h2>\n<p>Greenhalgh e colaboradores (2004) conduziram uma das revis\u00f5es mais abrangentes sobre como inova\u00e7\u00f5es se difundem em organiza\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o, com foco na sa\u00fade. A revis\u00e3o reuniu contribui\u00e7\u00f5es de tradi\u00e7\u00f5es diversas, da sociologia rural \u00e0 gest\u00e3o, e prop\u00f4s um modelo que organiza os determinantes da difus\u00e3o em v\u00e1rios grupos.<\/p>\n<p>O primeiro grupo diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria inova\u00e7\u00e3o. Inova\u00e7\u00f5es se difundem com mais facilidade quando oferecem <strong>vantagem relativa<\/strong> clara, s\u00e3o compat\u00edveis com valores e pr\u00e1ticas existentes, t\u00eam baixa complexidade, podem ser testadas em pequena escala, produzem resultados observ\u00e1veis e admitem adapta\u00e7\u00e3o local. O segundo grupo diz respeito aos adotantes: suas necessidades, motiva\u00e7\u00f5es, conhecimentos e o sentido que atribuem \u00e0 mudan\u00e7a. O terceiro envolve a comunica\u00e7\u00e3o, com destaque para redes interpessoais, l\u00edderes de opini\u00e3o e agentes de mudan\u00e7a. H\u00e1 ainda os antecedentes do sistema, como estrutura, capacidade de absor\u00e7\u00e3o de conhecimento e clima receptivo; a prontid\u00e3o espec\u00edfica para aquela inova\u00e7\u00e3o; o contexto externo; e o processo de implanta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A revis\u00e3o tamb\u00e9m distinguiu tr\u00eas <strong>modos de dissemina\u00e7\u00e3o<\/strong>. No primeiro, deixa-se acontecer: a inova\u00e7\u00e3o circula espontaneamente, sem planejamento. No segundo, ajuda-se a acontecer: h\u00e1 esfor\u00e7os de persuas\u00e3o e facilita\u00e7\u00e3o. No terceiro, faz-se acontecer: a difus\u00e3o \u00e9 planejada, regulada e gerenciada. Nenhum modo \u00e9 sempre o melhor, mas a escolha consciente entre eles evita tanto o voluntarismo ing\u00eanuo quanto a imposi\u00e7\u00e3o que gera resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais \u00fateis da revis\u00e3o \u00e9 desfazer a ideia de que a ado\u00e7\u00e3o \u00e9 um evento bin\u00e1rio. Profissionais e equipes adotam parcialmente, adaptam, usam em algumas situa\u00e7\u00f5es e n\u00e3o em outras, abandonam e \u00e0s vezes retomam. Avaliar uma inova\u00e7\u00e3o apenas pelo n\u00famero de licen\u00e7as compradas ou de usu\u00e1rios cadastrados diz pouco sobre o seu uso real.<\/p>\n<h2>Os sete dom\u00ednios do NASSS<\/h2>\n<p>Mais de uma d\u00e9cada depois, Greenhalgh e outra equipe de colaboradores (2017) concentraram-se nas tecnologias de sa\u00fade e cuidado, especialmente as digitais, e propuseram o modelo NASSS. A sigla inglesa re\u00fane os desfechos que o modelo procura explicar: n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o, abandono e dificuldades de escala, de dissemina\u00e7\u00e3o e de <strong>sustentabilidade<\/strong>.<\/p>\n<p>O modelo organiza a an\u00e1lise em sete dom\u00ednios. O primeiro \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, que pode ser bem compreendida ou cercada de incerteza e comorbidades. O segundo \u00e9 a tecnologia, com seus requisitos de infraestrutura, interoperabilidade e suporte. O terceiro \u00e9 a proposta de valor, tanto para quem a fornece quanto para pacientes e servi\u00e7os. O quarto \u00e9 o sistema de adotantes, incluindo profissionais, pacientes e cuidadores, com as mudan\u00e7as de papel que a tecnologia lhes imp\u00f5e. O quinto \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o, com sua capacidade, sua disposi\u00e7\u00e3o para mudar e seu trabalho necess\u00e1rio para implantar. O sexto \u00e9 o contexto mais amplo, com regula\u00e7\u00e3o, financiamento e pol\u00edticas. O s\u00e9timo \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o e a adapta\u00e7\u00e3o ao longo do tempo.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o central do NASSS \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de <strong>complexidade<\/strong>. Em cada dom\u00ednio, a situa\u00e7\u00e3o pode ser simples, complicada ou complexa. Uma situa\u00e7\u00e3o complicada tem muitas partes, mas \u00e9 previs\u00edvel; uma situa\u00e7\u00e3o complexa \u00e9 din\u00e2mica, imprevis\u00edvel e n\u00e3o se resolve apenas com mais planejamento. Os autores observaram que projetos com complexidade em v\u00e1rios dom\u00ednios simultaneamente raramente chegam ao uso sustentado em escala. A li\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica \u00e9 reduzir a complexidade onde for poss\u00edvel, antes de come\u00e7ar, e reconhecer honestamente onde ela n\u00e3o pode ser reduzida.<\/p>\n<p>Considere um sistema de telemonitoramento para pacientes com insufici\u00eancia card\u00edaca. A condi\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa, com comorbidades e descompensa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis. A tecnologia exige conex\u00e3o est\u00e1vel e integra\u00e7\u00e3o com o prontu\u00e1rio. A proposta de valor \u00e9 incerta para o hospital, que pode perder receita com menos interna\u00e7\u00f5es. Os pacientes precisam aprender a usar o equipamento, e os enfermeiros passam a ter uma nova tarefa sem redu\u00e7\u00e3o das antigas. A organiza\u00e7\u00e3o precisa redesenhar fluxos. O financiamento depende de regras que ainda n\u00e3o preveem esse tipo de cuidado. Cada um desses pontos \u00e9 uma oportunidade de fracasso, e o modelo ajuda a v\u00ea-los antes da compra.<\/p>\n<h2>Antes de come\u00e7ar<\/h2>\n<p>Se a pergunta sobre por que inova\u00e7\u00f5es falham costuma ser feita tarde, a pesquisa em implementa\u00e7\u00e3o oferece instrumentos para faz\u00ea-la cedo. Damschroder e colaboradores (2009) consolidaram dezenas de teorias e modelos dispersos num \u00fanico quadro, o <strong>Quadro Consolidado para Pesquisa em Implementa\u00e7\u00e3o<\/strong>, conhecido pela sigla inglesa CFIR.<\/p>\n<p>O quadro organiza os fatores que influenciam a implementa\u00e7\u00e3o em cinco dom\u00ednios: as caracter\u00edsticas da interven\u00e7\u00e3o, o ambiente externo, o ambiente interno da organiza\u00e7\u00e3o, as caracter\u00edsticas dos indiv\u00edduos envolvidos e o processo de implementa\u00e7\u00e3o. Cada dom\u00ednio se desdobra em construtos, como a for\u00e7a da evid\u00eancia que sustenta a interven\u00e7\u00e3o, sua adaptabilidade, as necessidades dos pacientes, a cultura e o clima de implanta\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o, o conhecimento e as cren\u00e7as dos profissionais, o planejamento e a reflex\u00e3o sobre o processo.<\/p>\n<p>Embora tenha sido concebido para a pesquisa, o CFIR funciona bem como <strong>lista de verifica\u00e7\u00e3o<\/strong> para gestores e equipes. Antes de comprar um equipamento ou contratar um sistema, vale percorrer os dom\u00ednios e perguntar: a evid\u00eancia que sustenta esta inova\u00e7\u00e3o foi produzida em contexto semelhante ao nosso? Ela pode ser adaptada sem perder o que a torna eficaz? A equipe que vai us\u00e1-la participou da decis\u00e3o? Temos tempo, treinamento e lideran\u00e7a para atravessar o per\u00edodo de implanta\u00e7\u00e3o? Quem vai acompanhar o uso e com quais indicadores?<\/p>\n<p>Essas perguntas n\u00e3o garantem o sucesso, mas tornam vis\u00edveis os riscos que, de outra forma, s\u00f3 apareceriam quando j\u00e1 fosse caro corrigi-los.<\/p>\n<h2>Quando o fracasso j\u00e1 aconteceu<\/h2>\n<p>Nem sempre se chega a tempo de prevenir. Muitos servi\u00e7os j\u00e1 convivem com tecnologias subutilizadas, sistemas paralelos e equipamentos encostados. Tamb\u00e9m nesse caso os modelos ajudam, agora como instrumentos de diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>O primeiro passo \u00e9 abandonar a pergunta sobre culpados e adotar a pergunta sobre causas. Em vez de concluir que os profissionais resistem \u00e0 mudan\u00e7a, vale perguntar o que a inova\u00e7\u00e3o lhes pede e o que lhes oferece em troca. Uma tecnologia que acrescenta trabalho sem reduzir nenhuma tarefa antiga, que n\u00e3o se integra aos sistemas j\u00e1 usados ou que produz informa\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m consulta n\u00e3o \u00e9 rejeitada por teimosia. \u00c9 rejeitada por uma avalia\u00e7\u00e3o racional de custo e benef\u00edcio feita por quem est\u00e1 na linha de frente.<\/p>\n<p>O segundo passo \u00e9 <strong>ouvir quem abandonou<\/strong>. Os usu\u00e1rios que deixaram de usar uma tecnologia sabem exatamente por que o fizeram, e raramente s\u00e3o consultados. Algumas conversas estruturadas com profissionais e pacientes costumam revelar mais do que relat\u00f3rios de uso. Muitas vezes, o problema est\u00e1 num detalhe corrig\u00edvel: um campo obrigat\u00f3rio que atrasa o atendimento, uma senha que expira com frequ\u00eancia, um fluxo que exige voltar a uma tela j\u00e1 preenchida.<\/p>\n<p>O terceiro passo \u00e9 decidir com honestidade entre tr\u00eas caminhos: <strong>adaptar<\/strong>, insistir com mais apoio ou encerrar. Encerrar uma inova\u00e7\u00e3o que n\u00e3o funciona naquele contexto n\u00e3o \u00e9 fracasso de gest\u00e3o; \u00e9 aprendizagem. O custo do abandono assumido costuma ser menor do que o de manter, por anos, uma tecnologia que consome recursos, gera retrabalho e desacredita a pr\u00f3xima iniciativa. A literatura de implementa\u00e7\u00e3o tem dedicado aten\u00e7\u00e3o crescente a esse movimento de retirar pr\u00e1ticas e tecnologias de baixo valor, justamente porque elas tendem a permanecer por in\u00e9rcia.<\/p>\n<p>Por fim, o fracasso documentado \u00e9 um ativo. Registrar o que se tentou, por que n\u00e3o funcionou e o que se aprendeu evita que a mesma tecnologia, com outro nome, seja comprada de novo tr\u00eas anos depois, por outra gest\u00e3o, com o mesmo entusiasmo e o mesmo destino.<\/p>\n<h2>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n<p>Boas inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade raramente fracassam porque a tecnologia n\u00e3o funciona. Fracassam porque foram planejadas com otimismo excessivo, porque a implanta\u00e7\u00e3o foi tratada como detalhe, porque n\u00e3o se ajustaram aos valores e \u00e0s rotinas de quem deveria us\u00e1-las, ou porque a complexidade acumulada em v\u00e1rios dom\u00ednios tornou o uso sustentado improv\u00e1vel. A pesquisa sobre difus\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o oferece modelos, instrumentos e evid\u00eancias para enxergar esses riscos antes que se transformem em equipamentos encostados.<\/p>\n<p>Para gestores, pesquisadores e empreendedores, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 deslocar o esfor\u00e7o. Menos energia na escolha da tecnologia mais avan\u00e7ada e mais energia na pergunta sobre como ela chegar\u00e1 \u00e0 rotina de quem a usar\u00e1. O arm\u00e1rio de inova\u00e7\u00f5es esquecidas n\u00e3o \u00e9 feito de m\u00e1quinas ruins. \u00c9 feito de perguntas que ningu\u00e9m fez a tempo.<\/p>\n<h2>Fontes<\/h2>\n<p>1. Greenhalgh T, Wherton J, Papoutsi C, Lynch J, Hughes G, A&#8217;Court C, et al. Beyond adoption: a new framework for theorizing and evaluating nonadoption, abandonment, and challenges to the scale-up, spread, and sustainability of health and care technologies. J Med Internet Res. 2017;19(11):e367.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.2196\/jmir.8775\">https:\/\/doi.org\/10.2196\/jmir.8775<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.2196\/jmir.8775\">https:\/\/doi.org\/10.2196\/jmir.8775<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Artigo que prop\u00f5e o modelo NASSS para explicar a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o, o abandono e as dificuldades de escala e sustentabilidade de tecnologias de sa\u00fade. Organiza a an\u00e1lise em sete dom\u00ednios e introduz a distin\u00e7\u00e3o entre situa\u00e7\u00f5es simples, complicadas e complexas, central para a se\u00e7\u00e3o correspondente do texto.<\/em><\/p>\n<p>2. Greenhalgh T, Robert G, Macfarlane F, Bate P, Kyriakidou O. Diffusion of innovations in service organizations: systematic review and recommendations. Milbank Q. 2004;82(4):581-629.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.0887-378X.2004.00325.x\">https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.0887-378X.2004.00325.x<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.0887-378X.2004.00325.x\">https:\/\/doi.org\/10.1111\/j.0887-378X.2004.00325.x<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Revis\u00e3o sistem\u00e1tica abrangente sobre a difus\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es em organiza\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o, com \u00eanfase na sa\u00fade. Organiza os determinantes da difus\u00e3o e distingue modos de dissemina\u00e7\u00e3o espont\u00e2neos, facilitados e gerenciados. Sustenta a se\u00e7\u00e3o sobre difus\u00e3o em servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/em><\/p>\n<p>3. Klein KJ, Sorra JS. The challenge of innovation implementation. Acad Manage Rev. 1996;21(4):1055-80.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5465\/amr.1996.9704071863\">https:\/\/doi.org\/10.5465\/amr.1996.9704071863<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.5465\/amr.1996.9704071863\">https:\/\/doi.org\/10.5465\/amr.1996.9704071863<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Artigo te\u00f3rico que define a implanta\u00e7\u00e3o como o per\u00edodo entre a decis\u00e3o de adotar e o uso rotineiro de uma inova\u00e7\u00e3o. Atribui sua efetividade ao clima de implanta\u00e7\u00e3o e ao ajuste entre a inova\u00e7\u00e3o e os valores dos usu\u00e1rios, base para a se\u00e7\u00e3o sobre a implanta\u00e7\u00e3o como etapa pr\u00f3pria.<\/em><\/p>\n<p>4. Damschroder LJ, Aron DC, Keith RE, Kirsh SR, Alexander JA, Lowery JC. Fostering implementation of health services research findings into practice: a consolidated framework for advancing implementation science. Implement Sci. 2009;4:50.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1186\/1748-5908-4-50\">https:\/\/doi.org\/10.1186\/1748-5908-4-50<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1186\/1748-5908-4-50\">https:\/\/doi.org\/10.1186\/1748-5908-4-50<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Artigo que consolida dezenas de teorias de implementa\u00e7\u00e3o no quadro CFIR, organizado em cinco dom\u00ednios. \u00c9 amplamente usado na pesquisa em implementa\u00e7\u00e3o e, no texto, \u00e9 proposto como lista de verifica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica antes da ado\u00e7\u00e3o de uma inova\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>5. Kahneman D, Lovallo D. Timid choices and bold forecasts: a cognitive perspective on risk taking. Manage Sci. 1993;39(1):17-31.<br \/>\nDOI: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1287\/mnsc.39.1.17\">https:\/\/doi.org\/10.1287\/mnsc.39.1.17<\/a><br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1287\/mnsc.39.1.17\">https:\/\/doi.org\/10.1287\/mnsc.39.1.17<\/a><br \/>\n<em>Coment\u00e1rio: Artigo que descreve a combina\u00e7\u00e3o de escolhas avessas ao risco com previs\u00f5es otimistas sobre os pr\u00f3prios projetos e a atribui \u00e0 vis\u00e3o de dentro. Prop\u00f5e a vis\u00e3o de fora, baseada em classes de refer\u00eancia, como corre\u00e7\u00e3o. Sustenta a se\u00e7\u00e3o sobre o otimismo do planejador.<\/em><\/p>\n<h2>Pontos para Recordar<\/h2>\n<ol>\n<li>A maioria das inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade n\u00e3o falha por defeito t\u00e9cnico, mas por problemas de previs\u00e3o, implanta\u00e7\u00e3o e contexto.<\/li>\n<li>Planejadores tendem a fazer previs\u00f5es otimistas sobre os pr\u00f3prios projetos, e a vis\u00e3o de fora ajuda a corrigi-las.<\/li>\n<li>Resultados de projetos-piloto pertencem a condi\u00e7\u00f5es especiais que raramente se repetem na expans\u00e3o.<\/li>\n<li>A implanta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma etapa pr\u00f3pria, entre a decis\u00e3o de adotar e o uso rotineiro, e depende do clima organizacional.<\/li>\n<li>A difus\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es depende das caracter\u00edsticas da inova\u00e7\u00e3o, dos adotantes, da comunica\u00e7\u00e3o e do contexto.<\/li>\n<li>O modelo NASSS mostra que a complexidade acumulada em v\u00e1rios dom\u00ednios torna o uso sustentado improv\u00e1vel.<\/li>\n<li>O quadro CFIR pode ser usado como lista de verifica\u00e7\u00e3o para antecipar riscos antes de adotar uma inova\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000080;\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso de Intelig\u00eancia Artificial Generativa<\/strong><\/span><br \/>\n<span style=\"color: #000080;\">Este texto foi produzido com o aux\u00edlio de Claude Opus 5.5, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estrutura\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e de produ\u00e7\u00e3o do texto. As imagens foram produzidas com aux\u00edlio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela vers\u00e3o final e precis\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es, pelo pensamento cr\u00edtico, pela sele\u00e7\u00e3o das fontes e pelo conte\u00fado publicado \u00e9 integralmente do autor.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o de uso da intelig\u00eancia humana<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Declaro que a elabora\u00e7\u00e3o deste trabalho contou com o uso de intelig\u00eancia humana desde a idea\u00e7\u00e3o, passando pela formula\u00e7\u00e3o das perguntas, pela escolha dos argumentos, pela interpreta\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es e pelas decis\u00f5es sobre o que comunicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Essa intelig\u00eancia gerenciou o uso dos recursos tecnol\u00f3gicos, incluindo computadores, internet, processadores eletr\u00f4nicos de texto, corretores ortogr\u00e1ficos, planilhas de dados e aplicativos de cria\u00e7\u00e3o de desenhos e imagens. Tamb\u00e9m orquestrou o uso de recursos de intelig\u00eancia artificial generativa, definindo suas finalidades, orientando as solicita\u00e7\u00f5es, avaliando as respostas e decidindo o que incorporar, modificar ou descartar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Seu uso envolveu curiosidade, mem\u00f3ria, experi\u00eancia, d\u00favida e julgamento cr\u00edtico. Reconhe\u00e7o que essa intelig\u00eancia est\u00e1 sujeita a vieses, cansa\u00e7o, lacunas de conhecimento e erros, inclusive quando se expressa com seguran\u00e7a.\u00a0As ferramentas utilizadas apoiaram o processo de cria\u00e7\u00e3o. A responsabilidade pelo conte\u00fado que escolhi publicar, por suas implica\u00e7\u00f5es e pelas corre\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias permanece minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: center; color: #1a4fbf;\">Declaro, por fim, que o exerc\u00edcio da intelig\u00eancia humana inclui reconhecer o que n\u00e3o sei, verificar o que afirmo e rever o que penso diante de boas raz\u00f5es.\u00a0Ali\u00e1s, a responsabilidade humana pelo que se publica sempre foi essa, mesmo antes da IA generativa.\u00a0<em>Este texto contou com participa\u00e7\u00e3o humana consciente, fal\u00edvel e respons\u00e1vel.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto examina por que tantas inova\u00e7\u00f5es em sa\u00fade funcionam no piloto e fracassam na rotina. Mostra que a maioria das falhas n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica, mas de previs\u00e3o, de implanta\u00e7\u00e3o e de ajuste ao contexto. Discute o otimismo dos planejadores, a implanta\u00e7\u00e3o como etapa pr\u00f3pria, a evid\u00eancia sobre difus\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es em servi\u00e7os e o modelo que organiza a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o e o abandono de tecnologias em sete dom\u00ednios. Encerra com o uso de um quadro consolidado de pesquisa em implementa\u00e7\u00e3o como lista de verifica\u00e7\u00e3o antes de come\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[68],"tags":[77,94,92],"class_list":["post-8346","post","type-post","status-publish","format-standard","category-inovacao-e-propriedade-intelectual","tag-inovacao","tag-qualidade-em-saude","tag-vieses-cognitivos","czr-hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=8346"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8365,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/8346\/revisions\/8365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=8346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=8346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.usinadepesquisa.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=8346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}