Preparar e proteger: as duas faces da formação universitária madura   Recently updated !


Por que preparar e proteger não se opõem, mas se completam na formação universitária

 

Aldemar Araujo Castro
Criação: 28/06/2026
Atualização: 28/06/2026
Palavras: 1303
Tempo de leitura: 7 minutos

 

Resumo

Este texto discute a falsa oposição entre preparar e proteger na formação universitária e defende que ambas as dimensões são complementares. A partir da teoria da autodeterminação e de evidências sobre saúde mental do estudante, mostra que exigir sem cuidar adoece, enquanto cuidar sem exigir fragiliza. Examina ainda a delegação acrítica à inteligência artificial como caso contemporâneo do problema e propõe o modelo de desafio com suporte como caminho para formar profissionais ao mesmo tempo competentes, prudentes e responsáveis.

 

Introdução

Imagine um estudante diante da primeira tarefa que realmente o assusta. Pode ser a apresentação de um caso clínico para uma plateia experiente, a primeira sutura em um paciente real, a defesa de um projeto perante uma banca exigente. Diante dessa cena, dois impulsos disputam a decisão de quem ensina. O primeiro diz: exija, pressione, porque é assim que se forma um profissional. O segundo diz: proteja, recue, porque o aluno pode não suportar. Essa hesitação, vivida todos os dias em escolas, hospitais e universidades, revela um dilema que parece exigir uma escolha.

A tese deste texto é que a escolha é falsa. Preparar e proteger não são forças opostas, mas dimensões complementares da formação. Quando compreendidas em conjunto, deixam de competir e passam a se sustentar mutuamente. O problema não está em preparar nem em proteger, mas em tratar uma dimensão como se anulasse a outra. Ao longo das próximas seções, percorreremos o que significa preparar, o que significa proteger, os dois fracassos que nascem de separá-los, um caso contemporâneo especialmente revelador e, por fim, o equilíbrio possível.

 

Preparar é formar autonomia

Preparar significa desenvolver capacidade. É estudar, treinar, errar, revisar e amadurecer o pensamento até construir repertório para enfrentar situações complexas. Um aluno preparado não é aquele que nunca encontra dificuldades, mas aquele que dispõe de instrumentos para compreender o problema, decidir, pedir ajuda quando necessário e seguir adiante. Preparar, nesse sentido, é formar autonomia.

A teoria da autodeterminação oferece um vocabulário preciso para esse processo. Segundo Ryan e Deci (2020), o funcionamento humano ótimo depende da satisfação de três necessidades psicológicas básicas: autonomia, competência e pertencimento. A autonomia é a experiência de ser a origem das próprias ações; a competência é a sensação de eficácia diante das tarefas; o pertencimento é o vínculo com professores e colegas. Quando essas necessidades são apoiadas, o estudante desenvolve motivação autônoma, aquela que se integra à sua identidade e sustenta o engajamento mesmo diante de obstáculos. Preparar, portanto, não é apenas transmitir conteúdo. É criar as condições para que o aluno se aproprie do próprio aprendizado e se reconheça como agente de sua formação.

 

Proteger é reduzir riscos, não suprimir o desafio

Proteger, por sua vez, significa reduzir riscos. É criar ambientes seguros, definir limites, prevenir danos e reconhecer que a aprendizagem não deve expor o estudante a sofrimento inútil, humilhação ou abandono. Proteger não é impedir o desafio nem retirar toda exigência. É garantir que o desafio tenha finalidade pedagógica, proporção adequada e suporte institucional.

Aqui reside uma distinção que costuma se perder no debate. Cuidado não é sinônimo de ausência de cobrança. Um ambiente protetor bem concebido não dilui a exigência, ele a torna suportável e produtiva. A evidência sobre saúde mental do estudante reforça esse ponto. Versteeg e Kappe (2021) demonstraram que o suporte institucional no ensino superior atua como fator de proteção contra o estresse acadêmico e a depressão, mediando os efeitos negativos da pressão sobre o bem-estar. A proteção bem compreendida não enfraquece o aluno. Ela permite que ele se desenvolva com mais confiança, clareza e responsabilidade, porque sabe que o erro não será catastrófico e que haverá amparo quando a dificuldade exceder suas forças.

 

A falsa dicotomia e seus dois fracassos

O problema surge quando preparação e proteção passam a ser tratadas como escolhas incompatíveis, e cada extremo produz seu próprio fracasso. Em alguns contextos, valoriza-se apenas o desempenho, como se bastasse exigir mais para formar pessoas melhores. Essa lógica gera ansiedade, competição excessiva e medo de errar. As consequências não são abstratas. Revisões sistemáticas indicam que o esgotamento, conhecido como burnout, afeta parcela expressiva dos estudantes de medicina, com prevalências que variam amplamente conforme o instrumento e o contexto, frequentemente associadas a sofrimento psíquico e até a ideação suicida (Di Vincenzo et al., 2024). Exigir sem proteger, portanto, não fortalece. Adoece.

No extremo oposto, valoriza-se apenas a proteção, como se todo desconforto fosse necessariamente injusto. Essa lógica reduz a tolerância à frustração, enfraquece a autonomia e converte qualquer dificuldade em ameaça. Lukianoff e Haidt (2018) descreveram esse fenômeno como uma cultura da segurança que, ao blindar o jovem contra todo incômodo, compromete sua antifragilidade, isto é, a capacidade de crescer justamente por meio do enfrentamento de adversidades proporcionais. Proteger sem preparar, nesse sentido, não cuida. Fragiliza. O erro comum aos dois extremos é o mesmo: confundir a separação das dimensões com a solução do problema. Não se trata de evidência inquestionável, e há debate legítimo sobre o alcance dessas teses, mas a tensão que elas iluminam é real e cotidiana.

 

Quando a tecnologia protege e deixa de preparar

A inteligência artificial generativa oferece hoje a ilustração mais vívida desse desequilíbrio. Quando o estudante delega à máquina o esforço de pensar, redigir e decidir, ele se protege do desconforto cognitivo, mas deixa de se preparar, porque não constrói repertório nem exercita o julgamento. É o polo da fragilidade transposto para a dimensão intelectual. Gerlich (2025) documentou que o uso frequente de ferramentas de IA está associado à descarga cognitiva, em inglês cognitive offloading, processo pelo qual o indivíduo transfere a tarefas externas o esforço mental que antes realizava, com possível erosão do pensamento crítico ao longo do tempo.

O ponto não é demonizar a ferramenta, que pode funcionar como andaime legítimo para o raciocínio. O ponto é que a conveniência imediata pode mascarar um custo formativo diferido. Proteger o aluno do esforço, neste caso, é o mesmo que privá-lo da própria oportunidade de aprender. A pergunta pedagógica correta não é se a IA deve ou não entrar na universidade, pois já entrou, mas como integrá-la de modo que amplie a preparação em vez de substituí-la.

 

O equilíbrio como desafio com suporte

Se nenhum dos extremos forma, o caminho está em combinar as duas dimensões com inteligência. O estudante precisa ser protegido contra abusos, negligência e riscos evitáveis, mas também precisa ser preparado para lidar com pressão, incerteza, crítica e responsabilidade. Esse arranjo tem um nome na literatura: o modelo de desafio da resiliência, segundo o qual existe uma faixa ótima de exposição ao estresse. Estímulos baixos demais não mobilizam o desenvolvimento; estímulos altos demais sobrecarregam e adoecem (Versteeg e Kappe, 2021). Entre esses limites situa-se a zona em que o desafio forma.

O que mantém o estudante dentro dessa faixa é, precisamente, o suporte. Por isso a expressão desafio com suporte sintetiza bem o equilíbrio buscado. As evidências sobre intervenções no ensino médico apontam nessa direção, ao mostrar que iniciativas institucionais de bem-estar, mentoria e ajuste curricular reduzem o esgotamento sem suprimir a exigência da formação (IsHak et al., 2013). De modo convergente, revisões sobre resiliência no ensino superior indicam que ela não é um traço fixo, mas uma capacidade que ambientes de ensino bem desenhados ajudam a cultivar (Brewer et al., 2019). Uma formação madura, assim, não infantiliza o estudante nem o abandona à própria sorte. Ela oferece apoio suficiente para que ele cresça e exigência suficiente para que ele se transforme.

 

Considerações finais

Preparar sem proteger pode virar brutalidade. Proteger sem preparar pode virar fragilidade. A boa educação está no equilíbrio deliberado entre cuidado e exigência, e esse equilíbrio não é um meio-termo morno, mas uma combinação ativa de apoio e desafio calibrados à medida de cada estudante e de cada etapa. A universidade que compreende isso forma profissionais capazes de agir com competência diante de problemas reais, sem que o preço seja o adoecimento, e capazes de tolerar a dificuldade, sem que isso signifique desamparo.

Essa discussão, por fim, ultrapassa os muros da universidade. Decidir como preparar e proteger é também decidir que tipo de sociedade desejamos construir, uma sociedade de pessoas competentes, prudentes, empáticas e responsáveis. O convite que fica é simples de enunciar e exigente de praticar: a cada decisão pedagógica, em vez de perguntar se devemos exigir ou cuidar, perguntemos como exigir cuidando e como cuidar exigindo. A resposta a essa pergunta, repetida ao longo de uma formação inteira, é o que separa o profissional que apenas sobreviveu à graduação daquele que de fato se transformou nela.

 

Fontes

  1. Ryan RM, Deci EL. Intrinsic and extrinsic motivation from a self-determination theory perspective: definitions, theory, practices, and future directions. Contemp Educ Psychol. 2020;61:101860. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cedpsych.2020.101860 Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0361476X20300254 Comentário: fornece a base conceitual da preparação como formação de autonomia. As três necessidades psicológicas básicas, autonomia, competência e pertencimento, articulam por que o apoio do educador e a exigência da tarefa não se opõem, mas se integram na motivação autônoma do estudante.

 

  1. Versteeg M, Kappe R. Resilience and higher education support as protective factors for student academic stress and depression during Covid-19 in the Netherlands. Front Public Health. 2021;9:737223. DOI: https://doi.org/10.3389/fpubh.2021.737223 Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2021.737223/full Comentário: sustenta empiricamente o papel protetor do suporte institucional e apresenta o modelo de desafio da resiliência, central para a seção do equilíbrio. Mostra que existe uma faixa ótima de estresse entre o estímulo insuficiente e a sobrecarga.

 

  1. Di Vincenzo M, Arsenio E, Della Rocca B, Rosa A, Tretola L, Toricco R, et al. Is there a burnout epidemic among medical students? Results from a systematic review. Medicina (Kaunas). 2024;60(4):575. DOI: https://doi.org/10.3390/medicina60040575 Disponível em: https://www.mdpi.com/1648-9144/60/4/575 Comentário: documenta a prevalência e os fatores de risco do burnout entre estudantes de medicina, dando concretude ao fracasso de exigir sem proteger. Reforça que a pressão sem suporte produz consequências mensuráveis sobre a saúde mental.

 

  1. IsHak W, Nikravesh R, Lederer S, Perry R, Ogunyemi D, Bernstein C. Burnout in medical students: a systematic review. Clin Teach. 2013;10(4):242-5. DOI: https://doi.org/10.1111/tct.12014 Disponível em: https://asmepublications.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/tct.12014 Comentário: além de estimar a magnitude do problema, sintetiza intervenções institucionais e individuais que reduzem o esgotamento. Embasa a ideia de que o suporte pode coexistir com a exigência da formação, sem diluí-la.

 

  1. Lukianoff G, Haidt J. The coddling of the American mind: how good intentions and bad ideas are setting up a generation for failure. New York: Penguin Press; 2018. ISBN: 9780735224896 Disponível em: https://www.thecoddling.com/ Comentário: referência canônica do polo da superproteção. Articula os conceitos de cultura da segurança e de antifragilidade, fundamentais para descrever como blindar o jovem contra todo desconforto pode enfraquecê-lo. Suas teses são objeto de debate, e devem ser lidas criticamente.

 

  1. Gerlich M. AI tools in society: impacts on cognitive offloading and the future of critical thinking. Societies. 2025;15(1):6. DOI: https://doi.org/10.3390/soc15010006 Disponível em: https://www.mdpi.com/2075-4698/15/1/6 Comentário: fundamenta a seção sobre inteligência artificial generativa ao associar o uso frequente dessas ferramentas à descarga cognitiva e à possível erosão do pensamento crítico. Oferece o elo entre o argumento clássico e o cenário tecnológico contemporâneo.

 

  1. Brewer ML, van Kessel G, Sanderson B, Naumann F, Lane M, Reubenson A, et al. Resilience in higher education students: a scoping review. High Educ Res Dev. 2019;38(6):1105-20. DOI: https://doi.org/10.1080/07294360.2019.1626810 Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/07294360.2019.1626810 Comentário: revisão de escopo que reúne evidências sobre como a resiliência pode ser cultivada por ambientes de ensino bem desenhados. Apoia a tese de que resiliência é capacidade construída, e não traço fixo, reforçando a responsabilidade formativa da instituição.

 

Pontos para Recordar

  1. Preparar e proteger não são forças opostas, mas dimensões complementares da formação universitária.
  2. Preparar é desenvolver capacidade e repertório, formando a autonomia que torna o estudante agente do próprio aprendizado.
  3. Proteger é reduzir riscos e criar ambientes seguros, sem suprimir o desafio nem confundir cuidado com ausência de cobrança.
  4. Exigir sem proteger adoece, e o burnout entre estudantes de medicina é a evidência mais visível desse fracasso.
  5. Proteger sem preparar fragiliza, ao reduzir a tolerância à frustração e enfraquecer a antifragilidade do jovem.
  6. A delegação acrítica à inteligência artificial generativa protege do esforço cognitivo, mas custa autonomia e pensamento crítico.
  7. O equilíbrio entre cuidado e exigência, sintetizado na ideia de desafio com suporte, é tanto um projeto pedagógico quanto um projeto de sociedade.

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Declaração de uso de Inteligência Artificial Generativa. Este texto foi produzido com o auxílio de Claude, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estruturação do conteúdo e de produção do texto. As imagens foram produzidas com auxílio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela versão final e precisão das informações, pelo pensamento crítico, pela seleção das fontes e pelo conteúdo publicado é integralmente do autor.

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