Quem responde pelo texto quando a inteligência artificial ajuda a escrevê-lo
Aldemar Araujo Castro
Criação: 23/09/2026
Atualização: 23/09/2026
Palavras: 1448
Tempo de leitura: 7 minutos
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Resumo. Este texto apresenta a declaração de uso da inteligência humana, proposta que inverte o foco das declarações de uso de inteligência artificial generativa exigidas por periódicos e instituições. Parte das políticas editoriais que vedam a autoria de ferramentas, examina o que a transparência centrada na ferramenta deixa de dizer e reproduz a declaração na íntegra. Discute, em seguida, a falibilidade da inteligência humana e a continuidade da responsabilidade autoral, anterior à inteligência artificial. O leitor encontrará um argumento para ler a declaração como complemento, e não como substituto, das exigências formais, e um convite a redigir a sua própria.
Introdução
Quem submeteu um manuscrito recentemente conhece o novo campo do formulário. Entre a declaração de conflitos de interesse e a de financiamento, surge a pergunta sobre o uso de inteligência artificial (IA) generativa: se foi utilizada, qual ferramenta, em que etapa do trabalho. A pergunta é pertinente, e respondê-la com franqueza tornou-se parte da boa conduta científica.
Há, porém, algo que esse campo não pergunta. Ele quer saber que ferramenta foi usada, mas não indaga quem a usou, com que critério, sob que dúvidas e com que responsabilidade. Pressupõe esse sujeito sem nomeá-lo. Este texto propõe nomeá-lo, por meio de uma declaração que talvez soe, à primeira leitura, como ironia: a declaração de uso da inteligência humana.
Antes de apresentá-la, convém entender de onde vêm as declarações de uso de IA e o que elas pretendem proteger.
O que as declarações de IA exigem, e por quê
No início de 2023, poucos meses após o lançamento do ChatGPT, artigos e preprints chegaram a listar o sistema como coautor, com afiliação institucional e até endereço eletrônico, e parte desses registros foi indexada em bases como o PubMed e o Google Scholar (Flanagin et al., 2023). A reação das revistas foi rápida. A Nature estabeleceu que nenhum modelo de linguagem seria aceito como autor, porque a atribuição de autoria implica responder pelo trabalho, e orientou os pesquisadores a registrar o uso dessas ferramentas nos métodos ou nos agradecimentos (Nature, 2023). A Science, em sua formulação inicial, foi além: vedou o uso de texto gerado por essas ferramentas nos artigos e equiparou a violação a má conduta científica (Thorp, 2023).
As políticas variaram em rigor, mas convergiram num ponto. O fundamento da recusa não é técnico, e sim moral: a ferramenta pode produzir texto fluente, mas não pode responder por ele. Não pode ser questionada sobre uma escolha, corrigir um erro depois da publicação nem assumir as consequências de uma afirmação falsa. Flanagin et al. (2023) situam a questão no plano da integridade: a confiança no conhecimento médico publicado depende de que haja pessoas identificáveis responsáveis pelo que se afirma. Daí a dupla exigência que se consolidou desde então, de transparência quanto ao uso das ferramentas e de responsabilidade integral dos autores pelo conteúdo.
O que a transparência sobre a ferramenta deixa na sombra
Declarar o uso de IA não é tarefa trivial. Hosseini, Resnik e Holmes (2023) argumentam que proibições tendem a ser inexequíveis e a estimular o uso não declarado, e lembram que essas ferramentas podem ter usos legítimos, sobretudo para quem pesquisa e escreve em idioma diverso do materno. Propõem, por isso, que o uso seja declarado no próprio corpo do trabalho, nos métodos, em citações ou em material suplementar. Sustentam, ainda, que a ferramenta não deve figurar sequer nos agradecimentos, pois lhe falta vontade própria e ela não pode ser responsabilizada moral nem legalmente.
O debate, contudo, gira quase inteiramente em torno da ferramenta: qual foi usada, em que etapa, com que instruções, em que proporção do texto final. É uma atenção necessária, mas produz um efeito colateral. Quanto mais minuciosa a descrição do que a máquina fez, mais o agente humano aparece como pano de fundo, como se sua participação fosse evidente demais para merecer registro. Ora, é justamente essa participação que sustenta toda a exigência. Se a ferramenta não pode ser autora porque não responde, a declaração que importa, em última instância, é a de quem responde. O texto a seguir procura dizer isso em voz alta.
A declaração de uso da inteligência humana
Reproduzo abaixo o texto integral, na forma em que passo a adotá-lo como complemento das declarações formais de uso de IA.
Declaração de uso da inteligência humana
Declaro que a elaboração deste trabalho contou com o uso de inteligência humana desde a ideação, passando pela formulação das perguntas, pela escolha dos argumentos, pela interpretação das informações e pelas decisões sobre o que comunicar.
Essa inteligência gerenciou o uso dos recursos tecnológicos, incluindo computadores, internet, processadores eletrônicos de texto, corretores ortográficos, planilhas de dados e aplicativos de criação de desenhos e imagens. Também orquestrou o uso de recursos de inteligência artificial generativa, definindo suas finalidades, orientando as solicitações, avaliando as respostas e decidindo o que incorporar, modificar ou descartar.
Seu uso envolveu curiosidade, memória, experiência, dúvida e julgamento crítico. Reconheço que essa inteligência está sujeita a vieses, cansaço, lacunas de conhecimento e erros, inclusive quando se expressa com segurança.
As ferramentas utilizadas apoiaram o processo de criação. A responsabilidade pelo conteúdo que escolhi publicar, por suas implicações e pelas correções necessárias permanece minha.
Declaro, por fim, que o exercício da inteligência humana inclui reconhecer o que não sei, verificar o que afirmo e rever o que penso diante de boas razões.
Aliás, a responsabilidade humana pelo que se publica sempre foi essa, mesmo antes da IA generativa.
Este texto contou com participação humana consciente, falível e responsável.
A declaração tem uma estrutura deliberada. Descreve primeiro o que a inteligência humana fez, depois o que ela gerenciou, em seguida os seus limites e, por fim, a responsabilidade que dela decorre. Nenhuma dessas partes nega o uso das ferramentas. Todas recusam que o uso das ferramentas seja a parte principal da história.
Uma inteligência que também erra
Seria fácil ler a declaração como elogio da inteligência humana diante da máquina. Não é esse o seu sentido. O terceiro parágrafo reconhece que essa inteligência está sujeita a vieses, cansaço, lacunas e erros, inclusive quando se expressa com segurança. A ressalva não é retórica. A metaciência acumulou evidências de que o pesquisador humano, sem o auxílio de algoritmo algum, enxerga padrões onde há ruído, favorece os dados que confirmam suas expectativas e apresenta como previstas hipóteses que só formulou depois de conhecer os resultados (Munafò et al., 2017).
Munafò et al. (2017) descrevem essas ameaças à ciência reprodutível, entre elas a flexibilidade analítica, a repetição de análises até a obtenção de significância estatística e o viés de publicação, e propõem salvaguardas como o pré-registro, o cegamento e o compartilhamento de dados. O ponto relevante para esta discussão é que essas salvaguardas foram concebidas para proteger a ciência de erros humanos, antes de a IA generativa entrar em cena. A falibilidade não é novidade trazida pela máquina: é condição de quem pesquisa.
Por isso a declaração termina com verbos de revisão. Exercer a inteligência humana, diz o texto, inclui reconhecer o que não se sabe, verificar o que se afirma e rever o que se pensa diante de boas razões. A mesma verificação que se exige das respostas de um assistente de IA deve ser exigida das próprias convicções. Quem confere a referência sugerida pela máquina, mas não confere a que tirou da memória, aplica o rigor pela metade.
Responsabilidade: o que a IA não mudou
A frase mais breve da declaração talvez seja a mais importante: a responsabilidade humana pelo que se publica sempre foi essa, mesmo antes da IA generativa. As normas de autoria nunca exigiram que o autor escrevesse cada palavra sem ajuda. Revisores de idioma, estatísticos, bibliotecários, orientadores e programas de análise sempre participaram da produção científica. O que sempre se exigiu foi que alguém respondesse pelo conjunto: pelas escolhas, pelas afirmações e pelas correções.
A IA generativa não criou esse dever, apenas o tornou mais visível. Ao produzir texto plausível em segundos, ela reduz o custo de escrever e, com isso, aumenta o valor relativo de tudo aquilo que não se automatiza: formular a pergunta certa, reconhecer a resposta errada, decidir o que merece ser dito. É nesse sentido que a declaração de uso da inteligência humana deve ser lida como complemento, e não como substituto, das declarações formais. Estas informam quais recursos foram usados, aquela lembra quem responde por eles. Quem publica em periódico continua obrigado a seguir as normas da revista, e nenhuma declaração autoral dispensa essa obrigação.
Considerações finais
As declarações de uso de IA nasceram de uma preocupação legítima com a integridade da publicação científica e cumprem bem o papel de tornar transparente o uso das ferramentas. Ao concentrar-se nelas, porém, arriscam deixar implícito o que mais importa: a presença de alguém que pergunta, julga, decide e responde. A declaração de uso da inteligência humana procura nomear essa presença, sem esconder os seus limites e sem disputar protagonismo com a máquina.
Fica ao leitor um convite. Na próxima vez em que preencher o campo sobre o uso de IA, pergunte-se também o que diria uma declaração sobre a sua própria participação: que perguntas foram suas, que respostas você recusou, o que verificou e o que deixou de verificar. Talvez essa segunda declaração nunca seja exigida por formulário algum. Ainda assim, é ela que distingue quem usa ferramentas de quem apenas as deixa trabalhar, e é ela que dá sentido à assinatura ao pé do texto.
Fontes
[1]. Flanagin A, Bibbins-Domingo K, Berkwits M, Christiansen SL. Nonhuman “authors” and implications for the integrity of scientific publication and medical knowledge. JAMA. 2023;329(8):637-9. DOI: https://doi.org/10.1001/jama.2023.1344 Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2801170 Comentário: Editorial dos editores do JAMA publicado logo após os primeiros artigos que listaram o ChatGPT como autor. Documenta o episódio, reúne as primeiras reações editoriais e situa o problema no plano da integridade do conhecimento médico. Sustenta o argumento de que a autoria pressupõe pessoas identificáveis e responsáveis pelo que se publica.
[2]. Tools such as ChatGPT threaten transparent science; here are our ground rules for their use [editorial]. Nature. 2023;613(7945):612. DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-023-00191-1 Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-023-00191-1 Comentário: Editorial que fixou as duas regras iniciais da Nature: nenhum modelo de linguagem como autor e registro obrigatório do uso nos métodos ou nos agradecimentos. É a formulação mais citada do fundamento moral da recusa, ao vincular autoria e responsabilidade. Serve de referência para a primeira seção do texto.
[3]. Thorp HH. ChatGPT is fun, but not an author. Science. 2023;379(6630):313. DOI: https://doi.org/10.1126/science.adg7879 Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.adg7879 Comentário: Editorial do editor-chefe da Science que apresentou a política inicial, mais restritiva, da família de revistas. Ilustra o extremo do espectro das respostas editoriais, com a equiparação do uso não autorizado a má conduta. Útil para mostrar a variação de rigor entre as políticas e o ponto em que todas convergem.
[4]. Hosseini M, Resnik DB, Holmes K. The ethics of disclosing the use of artificial intelligence tools in writing scholarly manuscripts. Res Ethics. 2023;19(4):449-65. DOI: https://doi.org/10.1177/17470161231180449 Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/17470161231180449 Comentário: Análise ética de como declarar o uso de IA na escrita acadêmica. Argumenta contra proibições, por serem inexequíveis e estimularem o uso oculto, e propõe formas concretas de declaração. Reforça que a ferramenta não pode ser responsabilizada, o que sustenta a tese de que a declaração decisiva é a de quem responde.
[5]. Munafò MR, Nosek BA, Bishop DVM, Button KS, Chambers CD, Percie du Sert N, et al. A manifesto for reproducible science. Nat Hum Behav. 2017;1(1):0021. DOI: https://doi.org/10.1038/s41562-016-0021 Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41562-016-0021 Comentário: Manifesto de referência da metaciência sobre as ameaças à reprodutibilidade, com ênfase nos vieses cognitivos e nas práticas questionáveis de pesquisadores humanos. Propõe salvaguardas como pré-registro, cegamento e transparência. Fundamenta a seção sobre a falibilidade humana, anterior e independente da IA generativa.
Pontos para Recordar
- As declarações de uso de inteligência artificial generativa tornaram-se exigência comum de periódicos científicos a partir de 2023.
- As principais revistas recusam ferramentas de IA como autoras porque a autoria implica responder pelo trabalho, e uma ferramenta não pode fazê-lo.
- Proibições amplas de uso de IA tendem a ser inexequíveis e a estimular o uso não declarado, razão pela qual a transparência tem sido preferida.
- Declarações centradas apenas na ferramenta tendem a deixar implícito o agente humano que a orienta, avalia e decide.
- A declaração de uso da inteligência humana nomeia esse agente e reconhece expressamente seus vieses, lacunas e erros.
- Vieses cognitivos e práticas questionáveis de pesquisa ameaçam a ciência independentemente do uso de qualquer ferramenta de IA.
- A responsabilidade do autor pelo que publica é anterior à IA generativa, e nenhuma declaração autoral dispensa as normas do periódico.
Declaração de uso de Inteligência Artificial Generativa
Este texto foi produzido com o auxílio de Claude, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estruturação do conteúdo e de produção do texto. As imagens foram produzidas com auxílio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela versão final e precisão das informações, pelo pensamento crítico, pela seleção das fontes e pelo conteúdo publicado é integralmente do autor.
