A ferida tem um diário   Recently updated !


Para reconhecer a mudança de uma ferida, é preciso registrar o caminho

Aldemar Araujo Castro
Médico CRM-AL: 3296
Cirurgião vascular RQE: 2907
Criação: 30/10/2026
Atualização: 30/10/2026
Palavras: 1251
Tempo de leitura: 6 minutos

Régua de papel
encostada à mesma borda
outra quarta-feira

Resumo. Este texto trata a documentação da ferida como um diário, em que cada atendimento acrescenta um capítulo que precisa ser legível e comparável. Discute o registro do ponto de partida, a padronização das medidas e o viés do produto comprimento por largura, a descrição objetiva do leito, do exsudato e da pele perilesional, o registro da dor e o uso da fotografia, incluindo a proteção do dado sensível. Mostra por que a tendência das primeiras semanas tem valor prognóstico e como registros consistentes permitem rever o plano no momento certo.

Infográfico com quatro perguntas de toda evolução de ferida: estado, mudança, sentido e plano

Toda evolução de ferida deveria dizer como ela está, o que mudou, o que isso significa e qual é o próximo passo.

Introdução

Segunda-feira, troca de equipe no ambulatório. O prontuário da semana anterior diz “ferida em melhora, bom aspecto”. O da semana retrasada diz quase o mesmo. O paciente acha que está igual; a enfermeira acha que aumentou; o residente acha que diminuiu. Ninguém consegue provar nada, porque nada foi registrado de forma que pudesse ser comparado.

Uma avaliação mostra como a ferida está naquele momento. Uma sequência de avaliações comparáveis mostra para onde ela vai. Pensar a ferida como um diário ajuda a entender a diferença: cada atendimento acrescenta um capítulo, e esse capítulo precisa ser claro o bastante para orientar quem escreverá o próximo.

Este texto encerra uma série. Depois de discutir onde olhar, como raciocinar e como conduzir o tratamento, resta a pergunta mais prosaica e talvez a mais decisiva: como registrar o caminho.

O primeiro capítulo: o ponto de partida

A avaliação inicial é a linha de base contra a qual todas as outras serão lidas. Ela registra localização e lateralidade, tempo de evolução, circunstâncias do aparecimento, tratamentos anteriores e os achados relevantes do exame. Registra também a hipótese etiológica, os fatores associados e as dúvidas que ainda precisam ser esclarecidas, porque um diário honesto começa admitindo o que não se sabe.

Quando há várias lesões, cada uma precisa de identificação estável. “Úlcera do maléolo medial esquerdo” e “ferida da perna” podem ser a mesma lesão ou duas diferentes, e o leitor do próximo capítulo não tem como saber.

As medidas precisam falar a mesma língua

Nenhuma parte do diário é tão traída pela inconsistência quanto as medidas. Comprimento, largura e profundidade só se comparam se forem tomados com o mesmo método, nas mesmas unidades e com a mesma convenção de eixos. A padronização das definições e da forma de medir é justamente o que permite falar em evolução da cicatrização, e não em impressões sucessivas (Lazarus et al., 1994).

O método mais usado à beira do leito, multiplicar o maior comprimento pela maior largura, tem um viés conhecido: ele calcula a área de um retângulo, e feridas raramente são retangulares. Em um estudo pequeno, de dez feridas arredondadas ou ovais, a medida com régua superestimou a área em média 41% em comparação com a planimetria digital (Rogers et al., 2010). O número exato importa menos do que a lição: a régua não é inútil, mas mede outra coisa, e trocar de método no meio do acompanhamento pode fabricar uma melhora ou uma piora que não aconteceram.

Por isso, o registro deve dizer qual método foi usado. Régua, fotografia calibrada e planimetria produzem números que não são intercambiáveis.

Túneis e descolamentos também fazem parte da medida. Sua presença, localização e extensão precisam ser documentadas, porque uma ferida pode encolher na superfície enquanto se aprofunda por baixo da borda. Precisão, aqui, inclui reconhecer os limites da medida.

Leito, exsudato e pele ao redor

“Ferida com bom aspecto” é a frase mais comum e a menos útil do prontuário. Ela comunica uma impressão do avaliador, não um achado. O registro útil diz o que foi visto: os tecidos presentes no leito, sua distribuição, as estruturas expostas. Se houver estimativa de proporção de cada tecido, ela deve ser declarada como estimativa visual, e não como medida.

Há também o que não pôde ser visto. Quando o leito está recoberto e a profundidade não pode ser avaliada, essa limitação deve constar no registro. Informação não avaliada não pode aparecer como normal.

O exsudato precisa de contexto para significar alguma coisa. Quantidade, consistência e cor dizem pouco se não se sabe há quanto tempo a cobertura estava no lugar, quanto ela estava saturada e se houve vazamento. Uma cobertura encharcada em quatro horas e outra igualmente encharcada em três dias descrevem feridas muito diferentes; “muito exsudato”, sem esse dado, pode significar coisas distintas para cada avaliador.

A pele perilesional e as bordas completam o capítulo. Maceração, eritema, descamação e edema devem ser registrados, porque a lesão pode diminuir de tamanho enquanto a pele ao redor se deteriora. Acompanhar só as dimensões oferece uma visão incompleta.

A dor também escreve a história

A dor é o achado que o paciente percebe primeiro e que o prontuário mais esquece. Ela deve ser registrada com uma escala adequada, mantida a mesma nas avaliações seguintes, acompanhada de localização, padrão e contexto: em repouso, à marcha, durante a limpeza ou na retirada da cobertura. Em um inquérito internacional com mais de dois mil pacientes com feridas crônicas, a troca do curativo apareceu como fonte frequente de dor (Price et al., 2008), o que torna esse momento particularmente importante para o registro.

O número permite comparar; a descrição permite interpretar. E uma dor nova, ou diferente do habitual, é uma pista que merece ser anotada antes de ser explicada.

A fotografia ilustra, mas não substitui o exame

Fotografias facilitam a comparação quando obtidas com técnica consistente: mesma distância, mesmo ângulo, mesma iluminação, mesmo posicionamento e uma escala de referência no enquadramento. Sem isso, a diferença entre duas imagens pode refletir a câmera, e não a ferida.

A imagem, porém, não registra dor, temperatura, pulsos ou sensibilidade, e não substitui o exame presencial. Ela também tem uma dimensão jurídica que o estudante precisa conhecer: a fotografia de uma ferida é dado referente à saúde e, portanto, dado pessoal sensível nos termos da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018, art. 5º, II). Seu uso depende de consentimento e das regras institucionais de registro e armazenamento, e nunca do celular pessoal sem controle.

Registrar o que foi feito e por quê

Cada capítulo deve dizer o que foi feito, o que mudou no tratamento, quais orientações foram dadas e quando será a próxima avaliação. Mais do que isso, deve dizer por quê. Se a cobertura mudou, qual necessidade motivou a troca? Se houve encaminhamento, qual achado o justificou? As dificuldades relatadas pelo paciente e os ajustes combinados com ele também pertencem ao registro.

Essa justificativa permite que o leitor seguinte compreenda a relação entre intervenções e acontecimentos, sem presumir que toda mudança na ferida foi causada pelo tratamento.

Ler os capítulos anteriores antes de escrever o próximo

A evolução de hoje só tem sentido quando dialoga com as anteriores: o que melhorou, o que permaneceu estável, o que piorou, que dúvidas surgiram. E a tendência das primeiras semanas é, ela própria, um dado clínico. Em úlceras do pé diabético, a redução percentual da área ao longo de quatro semanas mostrou-se um bom preditor de cicatrização em doze semanas: as úlceras que cicatrizaram tinham, em mediana, reduzido sua área em cerca de 82% no primeiro mês, contra cerca de 25% nas que não cicatrizaram (Sheehan et al., 2006). Esse tipo de leitura só é possível quando as medidas foram tomadas da mesma forma.

As diretrizes do International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF) caminham no mesmo sentido: recomendam inspeção regular da úlcera e revisão do plano, incluindo a investigação vascular, quando ela não cicatriza em quatro a seis semanas apesar de boa conduta (Schaper et al., 2024). Sem registros comparáveis, não há como saber se esse prazo foi atingido.

Os números precisam ser lidos junto com o restante. Depois de um desbridamento, por exemplo, a ferida pode medir mais, porque os limites reais da lesão foram expostos, e não porque ela piorou.

Considerações finais

O diário da ferida pertence ao cuidado compartilhado. Um registro útil tem data, identificação de quem o escreveu e informações que outra pessoa consegue compreender; distingue o que o paciente relatou, o que foi encontrado no exame e o que é interpretação clínica. Para o estudante, toda evolução deveria responder a quatro perguntas: como a ferida está, o que mudou, como interpreto essa mudança e qual é o próximo passo.

A memória oferece uma impressão do caminho. A documentação consistente permite examiná-lo, compartilhá-lo e corrigir a direção a tempo. A ferida tem um diário, e para reconhecer a mudança é preciso registrar o caminho.

Fontes

[1]. Lazarus GS, Cooper DM, Knighton DR, Margolis DJ, Percoraro RE, Rodeheaver G, et al. Definitions and guidelines for assessment of wounds and evaluation of healing. Wound Repair Regen. 1994;2(3):165-70.
DOI: https://doi.org/10.1046/j.1524-475X.1994.20305.x
Disponível em: https://doi.org/10.1046/j.1524-475X.1994.20305.x
Comentário: documento clássico de consenso que propôs definições e diretrizes para a avaliação de feridas e para a medida da cicatrização. Fundamenta a ideia de que a padronização dos termos e da forma de medir é condição para comparar avaliações e falar em evolução.

[2]. Rogers LC, Bevilacqua NJ, Armstrong DG, Andros G. Digital planimetry results in more accurate wound measurements: a comparison to standard ruler measurements. J Diabetes Sci Technol. 2010;4(4):799-802.
DOI: https://doi.org/10.1177/193229681000400405
Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2909508/
Comentário: estudo pequeno, com dez feridas, que comparou a medida com régua à planimetria digital e encontrou superestimação média de 41% da área pelo produto comprimento por largura. Sustenta a advertência de que métodos diferentes não produzem números intercambiáveis.

[3]. Sheehan P, Jones P, Giurini JM, Caselli A, Veves A. Percent change in wound area of diabetic foot ulcers over a 4-week period is a robust predictor of complete healing in a 12-week prospective trial. Plast Reconstr Surg. 2006;117(7 Suppl):239S-244S.
DOI: https://doi.org/10.1097/01.prs.0000222891.74489.33
Disponível em: https://doi.org/10.1097/01.prs.0000222891.74489.33
Comentário: republicação de estudo prospectivo que mostrou que a redução percentual da área da úlcera do pé diabético em quatro semanas prediz a cicatrização em doze semanas. Fundamenta a afirmação de que a tendência das primeiras semanas é um dado clínico, desde que as medidas sejam comparáveis.

[4]. Price PE, Fagervik-Morton H, Mudge EJ, Beele H, Ruiz JC, Nystrøm TH, et al. Dressing-related pain in patients with chronic wounds: an international patient perspective. Int Wound J. 2008;5(2):159-71.
DOI: https://doi.org/10.1111/j.1742-481X.2008.00471.x
Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1742-481X.2008.00471.x
Comentário: inquérito transversal com mais de dois mil pacientes de quinze países sobre a dor associada às feridas crônicas e à troca de curativos. Ampara a seção que trata a dor como parte obrigatória do registro.

[5]. Schaper NC, van Netten JJ, Apelqvist J, Bus SA, Fitridge R, Game F, et al. Practical guidelines on the prevention and management of diabetes-related foot disease (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev. 2024;40(3):e3657.
DOI: https://doi.org/10.1002/dmrr.3657
Disponível em: https://iwgdfguidelines.org/guidelines-2023/
Comentário: síntese prática das diretrizes do International Working Group on the Diabetic Foot. Sustenta a recomendação de inspeção regular da úlcera e de revisão do plano quando a cicatrização não ocorre em quatro a seis semanas, prazo que só pode ser verificado com registros comparáveis.

Pontos para Recordar

  1. Uma única avaliação mostra o estado da ferida, mas só uma sequência de avaliações comparáveis mostra sua evolução.
  2. A avaliação inicial deve registrar a hipótese etiológica e as dúvidas pendentes, e não apenas a descrição da lesão.
  3. Medidas de feridas só são comparáveis quando tomadas com o mesmo método, e o registro deve informar qual método foi usado.
  4. O produto do comprimento pela largura superestima a área de feridas irregulares em comparação com a planimetria.
  5. Expressões vagas como “bom aspecto” devem ser substituídas pela descrição objetiva dos tecidos, do exsudato com seu contexto e da pele perilesional.
  6. A fotografia de feridas exige técnica padronizada, consentimento e proteção como dado pessoal sensível, e não substitui o exame presencial.
  7. A redução de área nas primeiras semanas tem valor prognóstico, e a falta de cicatrização em quatro a seis semanas deve motivar a revisão do plano.

Declaração de uso de Inteligência Artificial Generativa
Este texto foi produzido com o auxílio de Claude Opus 5.5, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estruturação do conteúdo e de produção do texto. A imagem foi produzida com auxílio do Claude Opus 5.5, da Anthropic. A responsabilidade pela versão final e precisão das informações, pelo pensamento crítico, pela seleção das fontes e pelo conteúdo publicado é integralmente do autor.


Declaração de uso da inteligência humana

Declaro que a elaboração deste trabalho contou com o uso de inteligência humana desde a ideação, passando pela formulação das perguntas, pela escolha dos argumentos, pela interpretação das informações e pelas decisões sobre o que comunicar. Essa inteligência gerenciou o uso dos recursos tecnológicos, incluindo computadores, internet, processadores eletrônicos de texto, corretores ortográficos, planilhas de dados e aplicativos de criação de desenhos e imagens. Também orquestrou o uso de recursos de inteligência artificial generativa, definindo suas finalidades, orientando as solicitações, avaliando as respostas e decidindo o que incorporar, modificar ou descartar. Seu uso envolveu curiosidade, memória, experiência, dúvida e julgamento crítico. Reconheço que essa inteligência está sujeita a vieses, cansaço, lacunas de conhecimento e erros, inclusive quando se expressa com segurança. As ferramentas utilizadas apoiaram o processo de criação. A responsabilidade pelo conteúdo que escolhi publicar, por suas implicações e pelas correções necessárias permanece minha. Declaro, por fim, que o exercício da inteligência humana inclui reconhecer o que não sei, verificar o que afirmo e rever o que penso diante de boas razões. Aliás, a responsabilidade humana pelo que se publica sempre foi essa, mesmo antes da IA generativa. Este texto contou com participação humana consciente, falível e responsável.