Reagir, dialogar, confrontar: um modelo de três modos para pensar a interação com a inteligência artificial e com o conhecimento   Recently updated !


Um modelo de três modos, reativo, dialógico e dialético, para pensar IA, ciência e decisão

Aldemar Araujo Castro
Criação: 23/07/2026
Atualização: 23/07/2026
Palavras: 3091
Tempo de leitura: 15 minutos

Resumo. Este texto propõe um modelo de três modos de interação, reativo, dialógico e dialético, e examina sua utilidade para pensar a inteligência artificial, a educação, a pesquisa científica, a medicina, o direito e a gestão. O modo reativo resolve uma demanda imediata, o modo dialógico constrói compreensão compartilhada e o modo dialético confronta pressupostos para produzir uma síntese mais sólida. O texto discute como essa distinção organiza o uso de sistemas de inteligência artificial generativa, o ensino ativo e a pesquisa científica, a decisão clínica compartilhada e a argumentação jurídica, e conclui que os três modos não formam uma hierarquia rígida, mas um repertório cuja escolha depende da natureza do problema enfrentado.

 

 

Introdução

Um estudante de mestrado abre um aplicativo de inteligência artificial generativa e pergunta qual é a dose recomendada de determinado fármaco em insuficiência renal. Recebe, em segundos, uma resposta correta, objetiva e completa. No dia seguinte, o mesmo estudante volta ao aplicativo, mas desta vez para discutir o desenho de um ensaio clínico ainda incerto em sua cabeça. A ferramenta não lhe entrega uma resposta pronta: pergunta sobre a população-alvo, sugere desfechos alternativos, pede que ele justifique a escolha do comparador. Na semana seguinte, ao apresentar a mesma proposta a um colega crítico, ambos discutem, discordam, testam premissas contrárias e chegam a um desenho mais robusto do que qualquer um dos dois teria produzido sozinho.

Três episódios, três formas distintas de interação. A primeira responde a uma demanda pontual. A segunda constrói compreensão em conjunto. A terceira confronta pressupostos até que sobreviva apenas a formulação mais sólida. Essa distinção, entre reagir, dialogar e pensar dialeticamente, não é nova: atravessa a tradição filosófica desde Sócrates e a pedagogia contemporânea desde os estudos sobre a fala em sala de aula. O que é relativamente novo é a oportunidade de aplicá-la, de modo explícito, à relação cada vez mais cotidiana entre pesquisadores, profissionais e sistemas de inteligência artificial.

Este texto propõe um modelo de três modos de interação, reativo, dialógico e dialético, e examina sua utilidade para pensar seis campos: a própria inteligência artificial, a educação, a pesquisa científica, a medicina, o direito e a gestão. O objetivo não é hierarquizar os modos como se um fosse superior aos demais, mas mostrar que cada um serve a uma finalidade distinta, e que problemas complexos costumam exigir a passagem progressiva de um para o outro.

Reagir, dialogar, confrontar: a anatomia dos três modos

O modo reativo caracteriza-se por uma dinâmica simples: alguém formula uma solicitação e recebe, em resposta, uma entrega que a satisfaz. Não há, nesse modo, construção conjunta de sentido, apenas transferência de informação ou execução de tarefa. Sua finalidade é resolver uma demanda imediata, e sua eficácia se mede pela rapidez e pela precisão da resposta. É o modo apropriado quando a pergunta já está bem formulada e a resposta correta é, em larga medida, conhecida ou recuperável.

O modo dialógico introduz uma dinâmica distinta: o interlocutor não apenas responde, mas pergunta, considera o contexto trazido pelo outro e constrói a resposta em conjunto com quem pergunta. A finalidade deixa de ser a entrega de um produto acabado e passa a ser a compreensão compartilhada. O diálogo pressupõe que nenhuma das partes detém sozinha todos os elementos necessários à solução, e que o próprio processo de perguntar e reformular é produtor de conhecimento. A literatura sobre ensino dialógico descreve esse processo como uma sequência de perguntas encadeadas, em que cada resposta do estudante orienta a pergunta seguinte do professor, de modo que o conhecimento emerge da interação e não apenas da transmissão (Alexander, 2018).

O modo dialético, por fim, caracteriza-se pelo confronto deliberado de ideias. Não basta que as partes conversem: é preciso que identifiquem contradições, testem perspectivas opostas e submetam as próprias premissas ao risco de refutação. A finalidade não é apenas compreender, mas revisar pressupostos e produzir uma síntese mais sólida do que qualquer uma das posições de partida. A raiz desse modo remonta ao método socrático, que Platão descreveu por meio da técnica do elenchos, o exame que expõe contradições no discurso do interlocutor até que reste apenas o que resiste ao escrutínio. Nas profissões de saúde, o método socrático tem sido empregado explicitamente como instrumento de ensino do pensamento crítico, ao substituir a exposição de conteúdo pronto por uma sequência de perguntas que obrigam o estudante a justificar, comparar e revisar suas próprias inferências (Ho, Chen, Li, 2023).

É importante notar que esses três modos não descrevem apenas estilos de comunicação, mas estruturas distintas de produção epistêmica. O modo reativo pressupõe uma assimetria de informação a ser corrigida: alguém sabe, alguém não sabe, e a interação corrige essa lacuna. O modo dialógico pressupõe uma assimetria de perspectiva a ser integrada: cada parte enxerga um aspecto do problema, e a interação integra esses aspectos. O modo dialético pressupõe uma tensão entre posições a ser resolvida: teses concorrentes disputam a mesma questão, e a interação decide, ou ao menos qualifica, qual delas resiste melhor ao teste. Essa distinção estrutural é o que permite aplicar o modelo, sem forçar analogias, a campos tão diversos quanto a inteligência artificial, a clínica e o processo judicial.

Vale ainda uma ressalva conceitual, retomada com mais detalhe adiante: os três modos não constituem uma hierarquia de valor, mas um repertório de ferramentas. Perguntar a um sistema de inteligência artificial a fórmula química de um composto não exige diálogo, e forçar uma discussão dialética sobre um fato objetivo apenas desperdiça tempo. O critério de escolha do modo é a natureza do problema, não uma preferência estética por sofisticação.

A inteligência artificial em três registros

A aplicação mais imediata do modelo, e talvez a mais promissora, está no uso de sistemas de inteligência artificial generativa. Uma IA reativa limita-se a responder ao comando: o usuário formula uma instrução, o sistema devolve um texto, uma tradução, um resumo ou um cálculo. Essa é, ainda hoje, a forma predominante de uso desses sistemas, e é perfeitamente adequada para tarefas de recuperação de informação, formatação de referências ou geração de rascunhos que serão revisados pelo próprio usuário.

Uma IA dialógica conversa, pergunta e adapta a resposta ao contexto fornecido pelo interlocutor ao longo de várias trocas. Em vez de entregar uma resposta definitiva à primeira solicitação, o sistema explora ambiguidades, solicita esclarecimentos e ajusta o resultado à medida que recebe mais informação. Esse padrão de uso já é bem documentado em contextos educacionais, nos quais assistentes conversacionais são empregados para explorar, em conjunto com o estudante, um problema mal definido, em vez de fornecer a solução de imediato.

Uma IA dialética, por fim, questiona premissas, apresenta contra-argumentos e ajuda a reformular o próprio pensamento de quem a utiliza. Esse uso é o menos difundido e o mais exigente, pois requer que o sistema seja instruído, de modo explícito, a assumir o papel de interlocutor crítico, e não de assistente complacente. Um estudo comparativo recente, conduzido com estudantes universitários em Taiwan, avaliou justamente essa possibilidade: comparou a percepção de estudantes sobre tutores humanos e sobre um sistema de inteligência artificial generativa empregado segundo metodologia socrática, voltada ao desenvolvimento do pensamento crítico. Os resultados indicaram que os estudantes reconhecem no sistema de inteligência artificial vantagens específicas, como disponibilidade constante e ausência de julgamento, ao mesmo tempo em que atribuem aos tutores humanos uma capacidade superior de oferecer retorno individualizado e suporte emocional, o que sugere que os dois formatos são complementares, e não substitutos plenos um do outro (Fakour, Imani, 2025).

Essa constatação tem uma implicação prática relevante para o pesquisador que utiliza sistemas de inteligência artificial no cotidiano. O mesmo sistema pode operar nos três registros, e a diferença está menos na ferramenta do que na instrução que o usuário lhe dá e no critério que aplica à resposta recebida. Solicitar explicitamente que o sistema questione premissas, aponte fragilidades metodológicas e apresente a melhor objeção possível a uma hipótese de pesquisa transforma uma ferramenta reativa em um instrumento de confronto dialético, desde que o usuário mantenha o julgamento crítico sobre as respostas geradas, inclusive porque esses sistemas ainda estão sujeitos a erros factuais apresentados com aparência de certeza. Uma formulação possível sintetiza bem essa gradação: a inteligência artificial pode ser usada de maneira reativa, quando apenas responde, dialógica, quando participa da construção do raciocínio, e dialética, quando confronta pressupostos e contribui para transformar a compreensão inicial.

Da sala de aula ao laboratório: educação e pesquisa científica

No campo educacional, o modo reativo corresponde ao formato mais tradicional de ensino: o estudante pergunta, o professor responde, e a interação se encerra com a transferência da informação solicitada. É um formato eficiente para dúvidas pontuais, mas insuficiente quando o objetivo é desenvolver autonomia intelectual. O modo dialógico corresponde às metodologias ativas que ganharam espaço na pedagogia contemporânea nas últimas décadas: professor e estudante constroem o conhecimento por meio de perguntas sucessivas, em que cada resposta do estudante orienta a intervenção seguinte do docente. Pesquisas sobre o chamado ensino dialógico demonstram que essa sequência de perguntas encadeadas, quando sustentada ao longo de um programa estruturado de formação docente, produz ganhos mensuráveis na qualidade do raciocínio dos estudantes e na sua disposição para justificar, e não apenas afirmar, suas próprias conclusões (Alexander, 2018).

O modo dialético corresponde à etapa em que diferentes explicações concorrentes são confrontadas, criticadas e reorganizadas, até que sobreviva a formulação mais bem fundamentada. Esse é o terreno próprio da avaliação formativa mais exigente, da tutoria orientada à pesquisa e da formação do pensamento crítico propriamente dito. Um estudo conduzido em escolas de ciências da saúde em Taiwan aplicou explicitamente o método socrático em disciplinas laboratoriais de bioquímica, por meio de roteiros de perguntas que exigiam dos estudantes clareza, precisão, relevância e coerência lógica em suas respostas, avaliadas segundo padrões intelectuais amplamente reconhecidos na literatura sobre pensamento crítico. Os resultados mostraram progresso mensurável nas dimensões de clareza e de lógica ao longo do curso, sugerindo que o confronto sistemático de hipóteses, mesmo em disciplinas de conteúdo aparentemente fechado, desenvolve competências transferíveis a outras situações de julgamento clínico e científico (Ho, Chen, Li, 2023).

Na pesquisa científica propriamente dita, os três modos correspondem a etapas praticamente sequenciais de qualquer projeto sério. O modo reativo localiza informações ou responde a dúvidas metodológicas pontuais: qual é o tamanho amostral mínimo, qual teste estatístico é adequado a determinado desenho, qual é a normativa aplicável a determinado tipo de estudo. O modo dialógico desenvolve progressivamente uma pergunta de pesquisa ou um projeto, em conversas sucessivas entre orientador e orientando, ou entre pesquisadores de um mesmo grupo, nas quais a formulação inicial vai sendo refinada até adquirir precisão suficiente para ser testada empiricamente. O modo dialético submete hipóteses a objeções, explicações concorrentes e evidências contraditórias, e é esse o modo que sustenta, em sua forma mais institucionalizada, a discussão científica em congressos, a revisão por pares e a avaliação crítica de artigos publicados. Um projeto de pesquisa que nunca passa pelo modo dialético, que nunca é exposto ao teste de uma objeção séria antes de sua execução, corre o risco de incorporar premissas frágeis que só serão descobertas, a um custo bem mais alto, depois de coletados os dados.

Essa progressão também explica por que a orientação acadêmica de qualidade raramente se resume a corrigir versões sucessivas de um texto. Um orientador que apenas reage a perguntas pontuais do orientando, sem jamais confrontar as premissas do projeto com uma objeção séria, priva o estudante justamente da etapa em que sua formulação seria testada antes de se tornar pública. Da mesma forma, uma banca de qualificação que se limita a formular perguntas dialógicas, sem jamais submeter a proposta a um confronto direto entre hipóteses concorrentes, cumpre apenas parcialmente sua função formativa.

Decidir em medicina, argumentar em direito

Na prática clínica, o modo reativo responde a uma dúvida pontual: qual é a interação entre dois fármacos, qual é o valor de referência de determinado exame, qual é a conduta indicada em determinado protocolo. É a forma mais elementar, e também mais frequente, de consulta a fontes de informação médica, sejam elas humanas ou artificiais. O modo dialógico explora o contexto do paciente e constrói, em conjunto com ele, a decisão clínica. Esse é o território da decisão compartilhada, um modelo de prática clínica hoje amplamente reconhecido, segundo o qual a decisão sobre um tratamento não deve resultar apenas do julgamento técnico do profissional, nem apenas da preferência isolada do paciente, mas de um processo estruturado de deliberação, no qual o profissional apresenta as opções disponíveis com suas evidências, e o paciente contribui com aquilo que mais importa para sua própria vida (Elwyn et al., 2012). Esse modelo reconhece explicitamente que, na maior parte das decisões clínicas relevantes, não existe uma única resposta correta independente das preferências e dos valores de quem vai vivê-la, o que torna o modo puramente reativo insuficiente e, em muitos casos, eticamente problemático.

O modo dialético, por sua vez, confronta hipóteses diagnósticas concorrentes, pesa riscos e benefícios de alternativas terapêuticas distintas e submete cada hipótese ao teste de novas evidências até que sobreviva apenas a explicação mais consistente com o quadro clínico. É o raciocínio próprio da discussão de casos complexos, das reuniões multidisciplinares e do próprio ensino clínico à beira do leito, quando conduzido de forma socrática, no qual o professor não entrega o diagnóstico, mas conduz o estudante, por meio de perguntas sucessivas, a testar e descartar hipóteses até que a mais provável se sustente sozinha.

No direito, a mesma progressão se manifesta com clareza. O modo reativo esclarece uma norma: qual é o prazo prescricional aplicável, qual é o rito processual cabível, qual é a redação exata de determinado dispositivo legal. O modo dialógico interpreta o caso considerando os fatos concretos e os interesses envolvidos, em um processo que aproxima a norma abstrata da situação real, tarefa em que a mera leitura literal do texto legal raramente é suficiente. O modo dialético confronta tese e antítese, avalia os argumentos da parte adversa e constrói uma conclusão fundamentada apenas depois de considerar, com seriedade, a posição contrária mais forte possível. A própria estrutura da argumentação jurídica, com efeito, é modelada há décadas pela teoria da argumentação como um processo formalmente dialético, no qual a justificação de uma conclusão jurídica assume a forma de um diálogo entre um proponente e um oponente, em que um argumento só se considera justificado se resiste a todos os ataques que o oponente pode lhe dirigir dentro das regras do sistema (Prakken, Sartor, 1996). Essa modelagem não é uma metáfora: é a estrutura lógica subjacente ao processo, à sustentação oral e à própria redação de uma sentença que enfrenta, e não ignora, os argumentos da parte vencida.

Na gestão e na inovação, por fim, a mesma lógica se repete em outro vocabulário. O modo reativo resolve um problema operacional pontual, o modo dialógico compreende as necessidades das partes interessadas antes de propor uma solução, e o modo dialético testa as premissas de um projeto, enfrenta objeções sérias de quem discorda e aperfeiçoa a solução antes de sua implementação em larga escala. Equipes que pulam diretamente da identificação do problema para a execução, sem jamais confrontar as premissas do projeto com uma objeção interna consistente, tendem a repetir, em escala maior, os mesmos erros que uma discussão dialética teria revelado a um custo bem menor.

Por que os modos não formam uma hierarquia rígida

Seria um erro concluir, a partir do exposto, que o modo dialético é superior aos demais e que todo problema deveria, idealmente, ser tratado de forma dialética. Essa conclusão inverteria a lógica do próprio modelo. Cada modo é adequado a uma finalidade específica, e aplicar o modo errado a um problema não o resolve melhor, apenas o resolve de forma ineficiente. Submeter ao confronto dialético uma pergunta cuja resposta é objetiva e bem estabelecida, como a data de publicação de uma norma ou o valor de referência de um exame laboratorial, desperdiça tempo e energia intelectual sem qualquer ganho compensatório. Da mesma forma, tratar de modo puramente reativo uma decisão clínica carregada de incerteza e de valores pessoais do paciente, ou uma controvérsia jurídica que depende da ponderação entre princípios concorrentes, produz respostas tecnicamente corretas e, ainda assim, insatisfatórias, porque ignoram a complexidade real do problema.

A ressalva conceitual mais importante, contudo, é outra: problemas complexos geralmente exigem a passagem de um modo para o outro, e não a escolha definitiva de um único modo desde o início. Uma pesquisa científica costuma começar no modo reativo, quando o pesquisador esclarece dúvidas metodológicas básicas, avança para o modo dialógico, quando desenvolve progressivamente sua pergunta em conversas com orientadores e pares, e só então alcança o modo dialético, quando submete a proposta já amadurecida ao teste de objeções sérias, na banca, na revisão por pares ou na réplica de outros pesquisadores. Pular etapas, começar diretamente pelo confronto dialético antes de ter compreendido adequadamente o problema, tende a produzir discussões estéreis, baseadas em premissas ainda mal formuladas.

Essa gradação também se aplica, com particular clareza, ao uso da inteligência artificial. Não faz sentido exigir de um sistema um confronto dialético sofisticado sobre um tema que o próprio usuário ainda não formulou com clareza suficiente para si mesmo. A sequência costuma ser mais produtiva quando reproduz o mesmo movimento: usar o modo reativo para levantar informação básica, o modo dialógico para organizar e amadurecer as próprias ideias, e o modo dialético, por fim, para submetê-las a um teste de resistência antes de defendê-las publicamente, seja em um artigo, em um parecer jurídico, em uma decisão clínica compartilhada ou em uma proposta de projeto. Reconhecer em que ponto dessa sequência se está, e resistir à tentação de pular etapas, é talvez a competência mais transferível entre todos os campos examinados neste texto.

Considerações finais

O valor do modelo proposto não está em rotular interações passadas, mas em orientar escolhas futuras. Antes de formular uma pergunta a um sistema de inteligência artificial, de levar uma dúvida a um orientador, de discutir um caso clínico ou de redigir uma peça processual, vale perguntar qual modo o problema efetivamente exige. Uma resposta objetiva pede o modo reativo. Uma compreensão ainda incompleta pede o modo dialógico. Uma conclusão que será defendida publicamente, e que por isso precisa resistir à melhor objeção possível, pede o modo dialético. Reconhecer essa distinção, e aplicá-la deliberadamente, é uma competência que se aprende e se aperfeiçoa com a prática, tanto na relação com pessoas quanto na relação com sistemas artificiais, e essa aprendizagem tende a se tornar mais, e não menos, relevante à medida que sistemas de inteligência artificial generativa se tornam interlocutores cotidianos do trabalho intelectual.

Fica, por fim, a síntese que resume o argumento central deste texto: reagir é responder, dialogar é construir, e pensar dialeticamente é confrontar e transformar. Nenhum desses movimentos substitui os demais, e a maturidade intelectual de um pesquisador, de um clínico ou de um profissional do direito se revela menos na capacidade de produzir respostas rápidas do que na capacidade de reconhecer, a cada momento, qual dos três modos a situação exige, e de ter a disciplina de percorrê-los, um a um, até que a conclusão alcançada resista ao escrutínio mais severo que se possa lhe dirigir.

Fontes

  1. ALEXANDER, R. Developing dialogic teaching: genesis, process, trial. Research Papers in Education, v. 33, n. 5, p. 561-598, 2018. DOI: https://doi.org/10.1080/02671522.2018.1481140. Comentário: fundamenta a caracterização do modo dialógico na educação, ao descrever o ensino dialógico como uma sequência de perguntas encadeadas em que professor e estudante constroem o conhecimento em conjunto.
  2. HO, Y. R.; CHEN, B. Y.; LI, C. M. Thinking more wisely: using the Socratic method to develop critical thinking skills amongst healthcare students. BMC Medical Education, v. 23, art. 173, 2023. DOI: https://doi.org/10.1186/s12909-023-04134-2. Comentário: relata a aplicação sistemática do método socrático em disciplina laboratorial de bioquímica, com ganhos mensuráveis em clareza e lógica.
  3. ELWYN, G.; FROSCH, D.; THOMSON, R.; JOSEPH-WILLIAMS, N.; LLOYD, A.; KINNERSLEY, P.; CORDING, E.; TOMSON, D.; DODD, C.; ROLLNICK, S.; EDWARDS, A.; BARRY, M. Shared decision making: a model for clinical practice. Journal of General Internal Medicine, v. 27, n. 10, p. 1361-1367, 2012. DOI: https://doi.org/10.1007/s11606-012-2077-6. Comentário: apresenta o modelo de decisão compartilhada que estrutura o modo dialógico em medicina.
  4. PRAKKEN, H.; SARTOR, G. A dialectical model of assessing conflicting arguments in legal reasoning. Artificial Intelligence and Law, v. 4, p. 331-368, 1996. DOI: https://doi.org/10.1007/BF00118496. Comentário: formaliza a argumentação jurídica como processo dialético entre proponente e oponente.
  5. FAKOUR, H.; IMANI, M. Socratic wisdom in the age of AI: a comparative study of ChatGPT and human tutors in enhancing critical thinking skills. Frontiers in Education, v. 10, art. 1528603, 2025. DOI: https://doi.org/10.3389/feduc.2025.1528603. Comentário: compara a percepção sobre tutoria socrática conduzida por IA e por tutores humanos, mostrando complementaridade entre ambas.

Pontos para Recordar

  • O modo reativo resolve uma demanda imediata ao entregar uma resposta pronta, sem construção conjunta de sentido entre as partes envolvidas.
  • O modo dialógico constrói compreensão compartilhada por meio de perguntas sucessivas que consideram o contexto trazido por quem interage.
  • O modo dialético confronta pressupostos, identifica contradições e testa perspectivas opostas até produzir uma síntese mais sólida do que as posições de partida.
  • Um mesmo sistema de inteligência artificial pode operar nos três modos, e a diferença depende principalmente da instrução dada pelo usuário e do critério crítico que ele mantém sobre as respostas recebidas.
  • Na pesquisa científica, o modo dialético institucionalizado corresponde à discussão em congressos, à revisão por pares e à avaliação crítica de artigos publicados.
  • Na medicina, a decisão compartilhada representa a aplicação do modo dialógico à prática clínica, ao integrar evidência técnica e valores do paciente na mesma decisão.
  • Os três modos não formam uma hierarquia de valor, mas um repertório de ferramentas cuja escolha depende da natureza do problema enfrentado em cada momento.

Declaração de uso de Inteligência Artificial Generativa. Este texto foi produzido com o auxílio de Claude, desenvolvida pela Anthropic, utilizado como ferramenta de apoio nas fases de brainstorming, de estruturação do conteúdo e de produção do texto. As imagens foram produzidas com auxílio do ChatGPT da OpenAI. A responsabilidade pela versão final e precisão das informações, pelo pensamento crítico, pela seleção das fontes e pelo conteúdo publicado é integralmente do autor.