A Estratégia Saúde da Família mostra que inovar também é reorganizar relações sociais
Aldemar Araujo Castro
Criação: 10/10/2026
Atualização: 10/10/2026
Palavras: 1590
Tempo de leitura: 8 minutos
Agente na rua
bate palmas no portão
a casa responde
Resumo. Este texto apresenta a inovação social como criação de novas respostas a necessidades coletivas por meio da reorganização de relações, papéis e serviços. Explica o processo descrito por Geoff Mulgan, mostra como o campo se consolidou na pesquisa acadêmica e distingue inovação social de empreendedorismo social. Examina a Estratégia Saúde da Família e o agente comunitário de saúde como exemplo brasileiro de inovação social em escala, apresenta a agenda internacional de inovação social em saúde e discute como medir o que efetivamente muda.
Introdução
No interior de Alagoas, como em boa parte do Brasil, existe um gesto que dispensa campainha: bater palmas diante do portão. É assim que muitos agentes comunitários de saúde anunciam a visita mensal às famílias da sua área. Eles moram no mesmo bairro, conhecem os moradores pelo nome, sabem quem está grávida, quem parou de tomar o remédio da pressão, qual criança está com a vacina atrasada. Não carregam equipamento sofisticado. Carregam vínculo, informação e um lugar definido numa equipe de saúde.
Quando se fala em inovação em saúde, a imagem que costuma vir à mente é a de um aparelho novo, um medicamento, um algoritmo. Raramente se pensa num arranjo que reorganiza quem faz o quê, onde e com quem. E, no entanto, poucas mudanças produziram tanto impacto na saúde brasileira nas últimas décadas quanto a decisão de levar o cuidado até a porta das casas por meio de equipes com agentes recrutados na própria comunidade.
Este texto examina esse tipo de mudança sob o nome de inovação social: o que é, como se distingue de conceitos vizinhos, como se desenvolve e como se mede.
O que é inovação social
Uma das formulações mais citadas é a de Geoff Mulgan, que definiu inovação social como atividades e serviços inovadores motivados pelo objetivo de atender a uma necessidade social e desenvolvidos e difundidos predominantemente por organizações cujos propósitos principais são sociais (Mulgan, 2006). A definição distingue a inovação social da inovação empresarial convencional, motivada sobretudo pela busca de lucro, sem negar que ambas possam se cruzar.
Mulgan mostrou que muitas instituições hoje banais nasceram como inovações sociais: universidades abertas que levaram o ensino superior a quem não podia frequentar um campus, cooperativas, sistemas de microcrédito, o comércio justo. Em todos os casos, a novidade não estava principalmente numa tecnologia, mas numa nova forma de organizar relações entre pessoas e recursos.
O autor também descreveu a inovação social como um processo com etapas reconhecíveis. Começa pela identificação de necessidades, muitas vezes por quem as vive. Passa pelo desenvolvimento de ideias e pela prototipagem, em pequena escala. Segue para a avaliação, a ampliação e a difusão das iniciativas que funcionam. E se completa com a aprendizagem e a evolução contínuas, à medida que a inovação se adapta a novos contextos. Mulgan observou que a etapa de ampliação é frequentemente a mais difícil: muitas boas iniciativas sociais permanecem locais, dependentes de um fundador carismático, sem estrutura para crescer.
Um campo que se consolidou
Durante muito tempo, a inovação social foi tratada como tema periférico nos estudos de inovação, dominados pela tecnologia e pela empresa. Van der Have e Rubalcaba (2016) analisaram a produção acadêmica sobre o tema e mostraram que ele se tornou uma área emergente, com crescimento acelerado de publicações, mas ainda fragmentada.
Os autores identificaram comunidades intelectuais distintas que usam a expressão com ênfases diferentes. Uma vem da psicologia comunitária e se interessa por mudanças em programas e serviços sociais. Outra vem dos estudos sobre criatividade. Uma terceira se concentra nos grandes desafios sociais e societais, como envelhecimento, mudanças climáticas e desigualdade. Uma quarta vem do desenvolvimento local e regional, interessada em como comunidades e territórios se reorganizam.
Essa diversidade é ao mesmo tempo riqueza e problema. Riqueza, porque permite olhar a inovação social de vários ângulos. Problema, porque a falta de definições comuns dificulta comparar estudos e acumular conhecimento. Para o leitor, a consequência prática é desconfiar de usos vagos da expressão, que às vezes serve apenas para dar ar de novidade a programas antigos.
Inovação social e empreendedorismo social
Um conceito vizinho costuma ser confundido com a inovação social: o empreendedorismo social. Ele se refere, em geral, à criação de organizações, com ou sem fins lucrativos, que usam métodos empreendedores para enfrentar problemas sociais. Negócios de impacto, cooperativas e organizações da sociedade civil com modelos de sustentação próprios entram nessa categoria.
Dacin, Dacin e Matear (2010) examinaram a proliferação de definições de empreendedorismo social e chegaram a uma conclusão provocadora: não é preciso uma nova teoria para estudá-lo. As teorias já disponíveis sobre instituições, cultura, redes e organizações dão conta de explicar o fenômeno, desde que os pesquisadores deixem de se concentrar no perfil heroico do empreendedor social e passem a examinar a missão, os processos, os recursos e, sobretudo, os resultados.
A distinção ajuda a pensar. Nem toda inovação social nasce de um empreendedor social; algumas nascem de movimentos comunitários, de profissionais da linha de frente ou de políticas públicas. E nem todo empreendimento social é inovador; muitos replicam com competência modelos já conhecidos. A pergunta relevante, em ambos os casos, é a mesma que Dacin e colaboradores propõem: o que efetivamente mudou para as pessoas a quem a iniciativa se destina?
A Estratégia Saúde da Família como inovação social
O Brasil oferece um dos exemplos mais estudados de inovação social em saúde no mundo. A Estratégia Saúde da Família, que nasceu na década de 1990 a partir de experiências locais com agentes comunitários de saúde, reorganizou a atenção primária em torno de equipes responsáveis por populações definidas num território. Cada equipe reúne, em geral, médico, enfermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde, estes recrutados na própria comunidade.
Macinko e Harris (2015) descreveram a estratégia para o público internacional e destacaram alguns dos seus traços distintivos. A cobertura alcançou mais de cem milhões de brasileiros. O agente comunitário visita as famílias regularmente, identifica necessidades, orienta e faz a ponte com a unidade de saúde. A equipe assume a responsabilidade por uma população, e não apenas por quem procura o serviço. Os autores reuniram evidências que associam a expansão da estratégia à redução da mortalidade infantil e das internações por condições sensíveis à atenção primária, entre outros resultados.
Por que chamar isso de inovação social, e não apenas de política pública? Porque a mudança central não foi tecnológica nem apenas administrativa. Foi uma reorganização de papéis e relações: um novo profissional, recrutado na comunidade, com uma função de vínculo que não existia no sistema; uma nova relação entre serviço e território, em que a equipe vai ao encontro das famílias; uma nova distribuição de responsabilidades, em que o cuidado deixa de ser apenas resposta à demanda. Tudo isso sem depender de equipamentos sofisticados.
O caso também ilustra as dificuldades descritas por Mulgan. A ampliação exigiu financiamento federal estável, formação de profissionais, adaptação a realidades muito diferentes entre metrópoles e municípios rurais. E a sustentação ao longo do tempo depende de escolhas políticas que podem fortalecer ou enfraquecer a estratégia. Inovações sociais em escala não estão imunes a retrocessos.
Inovação social em saúde global
A experiência brasileira não é isolada. Halpaap e colaboradores (2020), ligados a uma rede internacional apoiada pela Organização Mundial da Saúde para pesquisa em doenças tropicais, chamaram atenção para a inovação social como caminho para ampliar o acesso à saúde em países de renda baixa e média. Os autores defenderam que soluções desenvolvidas com e pelas comunidades, muitas vezes simples e de baixo custo, podem preencher lacunas que sistemas formais não alcançam.
A rede descrita pelos autores identifica, documenta e estuda iniciativas locais, como programas de agentes comunitários, sistemas de transporte de pacientes organizados por moradores ou formas de financiamento comunitário. Um dos pontos enfatizados é o engajamento comunitário desde o início, e não apenas como etapa de validação de algo decidido por especialistas. Outro é a necessidade de pesquisa rigorosa sobre essas iniciativas, para que possam ser avaliadas, aperfeiçoadas e, quando for o caso, ampliadas.
Para universidades da saúde, essa agenda abre um campo de pesquisa e extensão pouco explorado. Muitas inovações sociais nascem e morrem sem documentação, porque seus autores não têm tempo nem treinamento para registrá-las e avaliá-las. A parceria entre pesquisadores e comunidades pode mudar esse destino.
Como medir o que muda
Uma dificuldade persistente da inovação social é a medição. Uma empresa pode avaliar o sucesso de um produto pela receita; uma inovação social precisa demonstrar mudanças em condições de vida, que são lentas, multicausais e difíceis de atribuir a uma iniciativa específica.
Algumas distinções ajudam. A primeira é entre produtos, resultados e impacto. Produtos são o que a iniciativa entrega: visitas realizadas, pessoas atendidas, materiais distribuídos. Resultados são mudanças nas pessoas alcançadas: maior adesão ao tratamento, vacinação em dia, melhor controle da pressão arterial. Impacto é a mudança atribuível à iniciativa no nível da população, como redução de mortalidade ou de internações evitáveis, que exige comparações cuidadosas para ser demonstrada.
A segunda distinção é entre medir para prestar contas e medir para aprender. Indicadores pensados apenas para relatórios a financiadores tendem a privilegiar números fáceis de alcançar. Indicadores pensados para aprender ajudam a equipe a ajustar o que faz.
A terceira é a inclusão de quem é afetado na definição do que conta como sucesso. Uma comunidade pode valorizar dimensões que os especialistas não consideram, como a sensação de ser ouvida, a confiança no serviço ou a redução do tempo de deslocamento. Incluí-las não dispensa os indicadores de saúde, mas completa o retrato.
Considerações finais
A inovação social desloca o olhar da tecnologia para as relações. Ela pergunta quem faz o quê, onde, com quem e em benefício de quem, e encontra respostas novas reorganizando papéis, vínculos e responsabilidades. A literatura mostra um campo em consolidação, ainda fragmentado, que se beneficia de conceitos claros e de atenção aos resultados mais do que às narrativas heroicas.
O agente comunitário que bate palmas no portão é a lembrança diária de que algumas das inovações mais poderosas da saúde brasileira não vieram de laboratórios, mas de arranjos sociais pensados para chegar a quem mais precisa. Para pesquisadores, estudantes e empreendedores, a pergunta que fica é se estamos atentos às inovações que nascem nas comunidades, prontos para aprender com elas, documentá-las e ajudá-las a crescer.
Fontes
1. Mulgan G. The process of social innovation. Innovations (Camb). 2006;1(2):145-62.
DOI: https://doi.org/10.1162/itgg.2006.1.2.145
Disponível em: https://doi.org/10.1162/itgg.2006.1.2.145
Comentário: Artigo que define a inovação social como atividades e serviços motivados por necessidades sociais e difundidos principalmente por organizações de propósito social. Descreve o processo em etapas, da identificação de necessidades à ampliação e à aprendizagem, e destaca a dificuldade de crescer. Sustenta a seção conceitual do texto.
2. van der Have RP, Rubalcaba L. Social innovation research: an emerging area of innovation studies? Res Policy. 2016;45(9):1923-35.
DOI: https://doi.org/10.1016/j.respol.2016.06.010
Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.respol.2016.06.010
Comentário: Análise da produção acadêmica sobre inovação social que mostra o crescimento rápido do campo e sua fragmentação em comunidades intelectuais distintas. Fundamenta a seção sobre a consolidação do tema e o alerta contra usos vagos da expressão.
3. Dacin PA, Dacin MT, Matear M. Social entrepreneurship: why we don’t need a new theory and how we move forward from here. Acad Manag Perspect. 2010;24(3):37-57.
DOI: https://doi.org/10.5465/amp.24.3.37
Disponível em: https://doi.org/10.5465/amp.24.3.37
Comentário: Artigo que examina a proliferação de definições de empreendedorismo social e argumenta que as teorias existentes bastam para estudá-lo. Propõe deslocar o foco do perfil do empreendedor para a missão, os processos e os resultados, base para a distinção entre inovação social e empreendedorismo social.
4. Halpaap BM, Tucker JD, Mathanga D, Juban N, Awor P, Saravia NG, et al. Social innovation in global health: sparking location action. Lancet Glob Health. 2020;8(5):e633-4.
DOI: https://doi.org/10.1016/S2214-109X(20)30070-X
Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2214-109X(20)30070-X
Comentário: Comentário de pesquisadores ligados a uma rede internacional apoiada pela Organização Mundial da Saúde que defende a inovação social como caminho para ampliar o acesso à saúde em países de renda baixa e média. Enfatiza o engajamento comunitário e a necessidade de pesquisa sobre iniciativas locais.
5. Macinko J, Harris MJ. Brazil’s family health strategy: delivering community-based primary care in a universal health system. N Engl J Med. 2015;372(23):2177-81.
DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMp1501140
Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMp1501140
Comentário: Artigo que apresenta ao público internacional a Estratégia Saúde da Família, com suas equipes territoriais e o papel do agente comunitário de saúde. Reúne evidências que associam a estratégia à redução da mortalidade infantil e de internações evitáveis, base para o exemplo brasileiro central do texto.
Pontos para Recordar
- Inovação social é a criação de novas respostas a necessidades coletivas, muitas vezes pela reorganização de relações e papéis.
- O processo de inovação social vai da identificação de necessidades à prototipagem, à ampliação e à aprendizagem contínua.
- A ampliação costuma ser a etapa mais difícil, porque muitas iniciativas dependem de fundadores e contextos locais.
- O campo de pesquisa sobre inovação social cresceu rapidamente, mas permanece fragmentado em comunidades distintas.
- Empreendedorismo social e inovação social se cruzam, mas não se confundem, e ambos devem ser avaliados por resultados.
- A Estratégia Saúde da Família, com o agente comunitário de saúde, é um exemplo brasileiro de inovação social em escala.
- Medir inovação social exige distinguir produtos, resultados e impacto e incluir quem é afetado na definição de sucesso.
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Declaração de uso da inteligência humana
Declaro que a elaboração deste trabalho contou com o uso de inteligência humana desde a ideação, passando pela formulação das perguntas, pela escolha dos argumentos, pela interpretação das informações e pelas decisões sobre o que comunicar.
Essa inteligência gerenciou o uso dos recursos tecnológicos, incluindo computadores, internet, processadores eletrônicos de texto, corretores ortográficos, planilhas de dados e aplicativos de criação de desenhos e imagens. Também orquestrou o uso de recursos de inteligência artificial generativa, definindo suas finalidades, orientando as solicitações, avaliando as respostas e decidindo o que incorporar, modificar ou descartar.
Seu uso envolveu curiosidade, memória, experiência, dúvida e julgamento crítico. Reconheço que essa inteligência está sujeita a vieses, cansaço, lacunas de conhecimento e erros, inclusive quando se expressa com segurança. As ferramentas utilizadas apoiaram o processo de criação. A responsabilidade pelo conteúdo que escolhi publicar, por suas implicações e pelas correções necessárias permanece minha.
Declaro, por fim, que o exercício da inteligência humana inclui reconhecer o que não sei, verificar o que afirmo e rever o que penso diante de boas razões. Aliás, a responsabilidade humana pelo que se publica sempre foi essa, mesmo antes da IA generativa. Este texto contou com participação humana consciente, falível e responsável.
