Carta aos meus alunos 13/08/2026


Caros alunos,

Escrevo sobre uma cena pequena. É meio-dia e vinte, o ambulatório está com sete pacientes ainda por atender, e um de vocês diz, com naturalidade, estou com fome. Não pede licença, não pergunta se falta muito, não combina a substituição, não espera a autorização. Apenas informa e sai. Fica na sala a enfermeira, que está de pé desde as sete, o técnico de enfermagem, que dobrou o plantão, o preceptor, que também não comeu, e a senhora da terceira cadeira, que saiu de casa às cinco da manhã, veio de dois ônibus e não trouxe dinheiro para lanche.

Quero ser exato desde o início, porque a exatidão aqui importa mais do que a indignação: o problema não é a sua fome.

A fome não é o objeto desta carta

Se eu escrevesse para dizer que médico não sente fome, estaria mentindo, e vocês perceberiam a mentira na primeira linha. A geração que me formou cultivava uma imagem do médico que não come, não dorme, não adoece e não chora, e essa imagem produziu profissionais doentes, dependentes químicos e suicidas em número que a categoria demorou décadas para admitir. Não tenho a menor intenção de restaurá-la. Vocês têm razão quando recusam a idealização do sacrifício. Têm razão quando dizem que corpo cansado erra mais, que fome prolongada compromete atenção e julgamento, e que a instituição que não organiza um horário de refeição está transferindo para o indivíduo um problema que é dela. Tudo isso é verdadeiro e eu subscrevo.

O objeto desta carta é outro. É o ato assistencial iniciado e abandonado. É a diferença, que parece sutil e não é, entre suspender o atendimento e sair do atendimento.

O que se transfere quando alguém sai

Um atendimento em curso é uma obrigação que não desaparece quando quem a assumiu se ausenta. Ela apenas muda de dono. Quando vocês saem no meio da tarde ambulatorial, os sete pacientes não somem. Eles são redistribuídos entre os que ficaram, que estavam com a mesma fome, no mesmo horário, sob a mesma jornada. A diferença entre vocês e eles, naquele instante, não é de necessidade fisiológica. É de posição. Vocês podem sair porque a estrutura permite que estudantes saiam. A técnica de enfermagem não pode, porque ela responde por escala, ponto e advertência. O paciente não pode, porque perder a vez significa nova referência, nova espera, novo ônibus, e às vezes um desfecho pior.

Isto é o que me incomoda, e peço que examinem se não incomoda também a vocês: a decisão parece individual e não é. Ela é uma decisão sobre quem paga a conta. E ela é tomada, quase sempre, sem que se olhe para quem vai pagá-la.

Reparem que não estou pedindo heroísmo. Estou pedindo aritmética moral elementar. Se sair custa quarenta minutos de trabalho adicional distribuídos entre três pessoas que também não comeram, o custo não foi eliminado. Foi terceirizado.

A hipótese da geração, e por que eu a considero insuficiente

Circula entre professores da minha idade uma explicação cômoda para essa cena. Diz-se que é uma nova geração, com outros valores, menos comprometida, formada no conforto, avessa ao esforço. É uma explicação que agrada porque nos absolve: se o problema é geracional, é deles, e nós apenas assistimos.

Não a aceito, e devo a vocês as razões.

A primeira é que não conheço evidência que a sustente. Falo de evidência no sentido próprio, estudos comparativos de coortes de estudantes ao longo do tempo, com medida definida de comprometimento profissional. Não os tenho. O que tenho é minha memória, e minha memória é uma testemunha suspeita, porque tende a comparar o melhor aluno de 1995 com o pior aluno de 2026. Afirmar declínio geracional sem dado é exatamente o tipo de raciocínio que passo o semestre inteiro ensinando vocês a recusar em matéria clínica. Seria incoerente que eu o praticasse em matéria moral.

A segunda razão é que a queixa é velha demais para ser sobre vocês. Ela reaparece a cada geração, com as mesmas palavras, desde a Antiguidade. Uma crítica que sobrevive vinte e cinco séculos sem alterar o texto não está descrevendo um fenômeno histórico. Está descrevendo a idade de quem a formula.

A terceira, e a mais importante, é que a hipótese geracional explica mal o que se vê. O que mudou não foi o caráter de vocês. Foi o contrato moral da profissão, e mudou por razões em grande parte legítimas. Substituiu-se o dever de sacrifício ilimitado pelo reconhecimento de que o profissional tem limites, direitos e vida fora do hospital. Esse deslocamento é uma conquista, não uma decadência.

O que acontece é que todo deslocamento desse tipo produz uma zona cinzenta, e é nela que a cena do ambulatório acontece. O vocabulário do autocuidado, que nasceu para proteger o profissional de uma exigência desumana, presta-se com facilidade demais a justificar a deserção pontual. Dizer que estou cuidando de mim é sempre verdadeiro e quase nunca suficiente, porque não responde à única pergunta que interessa: quem ficou no meu lugar e a que custo.

Então minha resposta à pergunta que vocês certamente já fizeram, se isto é questão de valores, de caráter ou de época, é a seguinte: é menos de caráter do que se supõe e mais de linguagem do que se percebe. Não vejo indiferença nos alunos que saem. Vejo alunos que dispõem de um vocabulário sofisticado para nomear o próprio cansaço e de nenhum vocabulário para nomear a obrigação que deixaram para trás. O problema não é que valorizem demais o próprio bem-estar. É que ninguém lhes ensinou a enunciar o outro lado da equação.

Também não isento a instituição. Serviço que não estabelece janela de refeição, escala de revezamento e horário de término previsível está fabricando o conflito que depois atribui ao caráter do estudante. Quando cobro de vocês, cobro sabendo que parte da culpa é nossa, e que exigir virtude individual para compensar desorganização institucional é uma forma preguiçosa de ensinar.

O critério que proponho

Não vou pedir que fiquem sempre. Vou pedir três coisas, e elas cabem em um minuto.

Primeiro, não abandonem ato iniciado. Paciente já chamado, exame já começado, procedimento em curso e conversa difícil aberta se encerram antes da saída. O que ainda não começou pode esperar. O que começou, não.

Segundo, quando saírem, saiam por combinação e não por informação. A diferença entre dizer que vão almoçar e perguntar quem pode assumir é a diferença entre transferir um custo às escondidas e negociá-lo às claras. Custa uma frase.

Terceiro, olhem para a fila antes de decidir. Não para se punirem, mas para saberem o que estão decidindo. Se há uma senhora que veio de dois ônibus e é a última, talvez valha ficar. Se há sete pacientes e três colegas disponíveis, vão comer, e voltem.

E, por favor, cobrem de nós o que nos cabe. Escala de refeição, previsão de término, substituição organizada. Vocês têm mais legitimidade para exigir isso do que a minha geração jamais teve, porque nós achávamos que pedir era fraqueza.

Encerro com o que penso ser o essencial. A pergunta não é se vocês têm direito de almoçar. Têm. A pergunta é se conseguem enxergar, no momento em que se levantam, as outras pessoas que estão exatamente com a mesma fome e não podem se levantar. Essa capacidade de enxergar tem um nome antigo na nossa profissão, e não é sacrifício. É consideração pelo outro, que é, afinal, a única coisa que estamos aqui para aprender.

Com estima e com a expectativa de discutir isto com vocês pessoalmente,

Aldemar Araujo Castro