Koans na sala de aula: narrativas curtas para revisar decisões de pesquisa


Pequenas narrativas que levam o aluno a reconhecer um erro e revisar uma decisão de pesquisa

Aldemar Araujo Castro
Criação: 27/10/2026
Atualização: 27/10/2026
Palavras: 1633
Tempo de leitura: 8 minutos

Cinco relógios
concordam no mesmo engano
o trem já partiu

Resumo. Este texto apresenta o uso de pequenas narrativas inspiradas em koans como disparadores de reflexão no ensino de revisão sistemática e metanálise. Explica por que convém não chamá-las de koans tradicionais, o que a literatura sobre prática reflexiva e sobre ensino de saúde baseada em evidências permite sustentar e o que ainda não permite. Descreve uma dinâmica de cinco minutos, com leitura, reflexão individual, discussão em dupla e aplicação a um artigo real, ilustrada pelo koan dos relógios igualmente adiantados. Propõe critérios simples de avaliação e um desenho modesto para verificar se o recurso de fato melhora a aprendizagem.

Infográfico com quatro etapas de uma atividade de cinco minutos: ler, pensar, conversar e aplicar a um artigo

Quatro movimentos que transformam a leitura de um koan em decisão de pesquisa revisada.

Introdução

A cena é conhecida de quem ensina leitura crítica. O professor projeta um gráfico de floresta com seis estudos, todos à esquerda da linha de nulidade, intervalos de confiança estreitos e heterogeneidade baixa. A turma conclui em segundos que o tratamento funciona. Ninguém pergunta por que os seis estudos concordam tanto.

A pergunta, contudo, é a mais importante da aula. Estudos podem concordar porque o efeito é real, mas também porque recrutaram o mesmo tipo de paciente, mediram o mesmo desfecho subjetivo sem cegamento ou chegaram à literatura por um mesmo filtro de publicação. A concordância, nesse caso, não é prova: é sintoma de uma causa comum que precisa ser investigada.

Foi para provocar perguntas desse tipo que reuni, no material da disciplina, uma coleção de 71 narrativas curtas inspiradas em koans. Este texto explica o que elas são, como usá-las em cinco minutos de aula, como avaliar o que o aluno faz com elas e, com a mesma honestidade que exigimos dos estudos, o que ainda não sabemos sobre sua eficácia.

O que um koan é, e o que nossos textos não são

Na tradição zen, sobretudo na escola Rinzai, o koan é um diálogo ou episódio breve, frequentemente paradoxal, que o mestre propõe ao discípulo como objeto de contemplação. O termo deriva do chinês gong’an, algo próximo de “caso público”, e as grandes coleções clássicas foram compiladas na China entre os séculos XI e XIII. O koan tradicional não tem resposta correta no sentido escolar: sua função é desestabilizar o pensamento habitual e conduzir a uma experiência que a lógica discursiva não alcança.

Há quem veja nessa tradição um recurso para a educação contemporânea. Wu (2023), ao aproximar a pedagogia Chan da filosofia de Bernard Stiegler, sustenta que o ensino pelo sistema de koans pode transmitir experiências de pensamento e fortalecer as faculdades críticas dos jovens, em contraste com a padronização cognitiva da vida digital. Entre nós, Nicolay (2012) recorre ao Zen para propor uma educação que troca o modelo das certezas absolutas pela dúvida perene como atitude formativa.

Seria impreciso, porém, chamar nossos textos de koans. Eles têm uma resposta, ou ao menos uma direção correta, porque tratam de método científico, e o método tem regras. São, mais exatamente, narrativas educativas inspiradas em koans: tomam emprestada a forma breve, a cena concreta e a perplexidade inicial, mas visam um alvo definido, que é um erro de raciocínio frequente na pesquisa em saúde. Nomear o recurso com precisão não é preciosismo: protege a tradição de uma apropriação superficial e protege o aluno de esperar uma iluminação onde há apenas, e já é muito, uma boa pergunta.

A pausa que ensina

Por que uma narrativa curta funcionaria melhor do que a regra enunciada diretamente? A hipótese pedagógica é que a perplexidade cria uma pausa, e a pausa abre espaço para examinar o próprio raciocínio. Quando o aluno lê que cinco relógios concordam e, ainda assim, estão errados, ele é levado a perguntar o que mais, em sua experiência, concorda pelos motivos errados.

A literatura sobre prática reflexiva nas profissões da saúde dá algum apoio a essa hipótese, mas com limites que convém expor. A revisão sistemática de Mann et al. (2009) identificou 29 estudos sobre reflexão no ensino em saúde e concluiu que ela favorece uma abordagem mais profunda da aprendizagem, ajudando o estudante a integrar o novo ao que já sabe. Os mesmos autores registraram, entretanto, que nenhum dos estudos era ensaio randomizado e que não havia evidência consistente de melhora da prática.

O que isso autoriza dizer? Que estimular a reflexão é uma escolha pedagógica plausível e bem fundamentada em teoria. Não autoriza dizer que uma narrativa, por si, produz competência. A pausa é necessária; não é suficiente.

Cinco minutos, quatro movimentos

A dinâmica que proponho cabe no início ou no fechamento de qualquer encontro e tem quatro movimentos. Primeiro, o professor apresenta um único texto, lido em voz alta ou projetado. Segundo, concede um minuto de reflexão individual, em silêncio, para que cada aluno formule sua própria leitura antes de ouvir a dos colegas. Terceiro, pede uma discussão em dupla, de dois minutos, centrada em uma pergunta: que pressuposto está escondido nesta cena? Quarto, encerra com uma aplicação imediata a um artigo real, de preferência o mesmo que a turma está estudando naquele dia.

O quarto movimento é o que dá sentido aos demais. A revisão de Coomarasamy e Khan (2004) mostrou que o ensino de medicina baseada em evidências feito de modo isolado melhorava o conhecimento, mas não as habilidades, as atitudes ou o comportamento, enquanto o ensino integrado à prática melhorava os quatro desfechos. A atualização de Bala et al. (2021), que reuniu 22 revisões sistemáticas, chegou a recomendação convergente: o ensino deve ser interativo, multifacetado, ligado ao contexto real e acompanhado de avaliação. Um koan que termina na própria reflexão é ensino isolado em miniatura; um koan que termina em um artigo é ensino integrado.

Daí decorre uma escolha prática. Na aula, o professor seleciona o texto relacionado ao conteúdo daquele encontro: se o tema é heterogeneidade, escolhe um koan sobre diferenças entre estudos; se é risco de viés, escolhe um sobre causas comuns. O sorteio aleatório, divertido e útil, fica melhor reservado à revisão de conteúdo e à exploração individual, quando o objetivo é justamente transferir o raciocínio para situações imprevistas.

O koan dos relógios adiantados

Eis o texto, na íntegra, tal como está na coleção:

10. Os relógios

“Os estudos concordam. O resultado deve estar certo.”

O professor mostrou cinco relógios igualmente adiantados.

“Concordância também pode ter uma causa em comum.”

A reflexão é que estudos podem concordar porque compartilham vieses semelhantes. A concordância, sozinha, não garante que o resultado esteja correto.

Depois do minuto de silêncio e da conversa em dupla, a turma recebe a metanálise em discussão e uma tarefa: examinar se a concordância entre os estudos pode coexistir com problemas metodológicos semelhantes. Os alunos verificam se todos os ensaios usaram o mesmo desfecho subjetivo sem cegamento do avaliador, se a ocultação da alocação foi descrita, se os estudos foram financiados pelo mesmo fabricante, se há apenas estudos pequenos com efeitos grandes, sinal clássico de viés de publicação. Ao final, cada dupla precisa justificar por escrito sua interpretação: a concordância fortalece a conclusão ou apenas repete o mesmo defeito cinco vezes?

O exercício conecta a imagem ao instrumental formal. A baixa heterogeneidade estatística mede a dispersão entre os resultados, não a qualidade de cada um; por isso a avaliação do risco de viés estudo a estudo e o julgamento da certeza da evidência continuam indispensáveis, como discutido no texto sobre revisão sistemática e metanálise publicado aqui na Usina. O relógio adiantado não está quebrado aos olhos de quem só o compara com os vizinhos: está quebrado aos olhos de quem o compara com o tempo real.

Avaliar sem matar a pergunta

Se o koan é usado para ensinar, precisa ser avaliado, e a avaliação não pode exigir uma resposta decorada, sob pena de transformar a pergunta em gabarito. Proponho três critérios observáveis. O aluno identifica o problema, isto é, nomeia o erro de raciocínio que a cena encena? Explica por que ele importa, mostrando a consequência para a conclusão do estudo ou para a decisão clínica? Propõe uma conduta adequada, como avaliar o risco de viés, procurar estudos não publicados ou rebaixar a certeza da evidência?

Há espaço legítimo para a criatividade. Um aluno pode ler os relógios como metáfora de diretrizes que se copiam umas às outras, e essa leitura enriquece a discussão. O limite é que a interpretação pode ser livre, mas as afirmações científicas precisam continuar corretas: dizer que heterogeneidade baixa prova ausência de viés não é leitura criativa, é erro, e deve ser tratado como tal.

O que ainda não sabemos

Aqui é preciso aplicar a nós mesmos a lição dos relógios. A fundamentação reunida neste texto é coerente: há propostas acadêmicas de uso pedagógico dos koans, há evidência de que a reflexão aprofunda a aprendizagem e há evidência de que o ensino integrado à prática funciona melhor do que o isolado. Todas essas peças concordam, e é exatamente por isso que convém desconfiar. Nenhuma delas demonstra que esta coleção de 71 narrativas melhora a aprendizagem de revisão sistemática e metanálise.

O próximo passo é modesto e está ao alcance de qualquer professor. Antes da atividade, os alunos analisam pequenos casos escritos, cada um com um erro metodológico embutido; depois de algumas semanas de uso dos koans, analisam casos diferentes, que exigem o mesmo raciocínio em outro contexto. Casos diferentes são essenciais, porque repetir os mesmos mede memória, não transferência. Um grupo de comparação, ainda que seja outra turma, fortaleceria a inferência. A própria revisão de Bala et al. (2021) aponta a heterogeneidade dos instrumentos e o seguimento curto como limitações recorrentes da área, o que sugere que medir bem, mesmo em escala pequena, já seria contribuição.

Considerações finais

Narrativas curtas inspiradas em koans são um recurso barato, rápido e agradável para abrir uma aula de metodologia. Seu valor, porém, não está na beleza do texto, e sim no que acontece depois dele: o minuto de silêncio, a conversa em dupla e, sobretudo, o retorno a um artigo real, onde o aluno precisa decidir se mantém ou revisa uma conclusão. Um ou dois por encontro bastam. A coleção completa, com os 71 textos, está disponível no recurso 8 da página de recursos da disciplina, como repertório para o professor escolher conforme o objetivo de cada aula.

Ensinar revisão sistemática é, no fundo, ensinar a desconfiar com método das concordâncias fáceis. Se o recurso funcionar, o aluno sairá da disciplina menos impressionado por gráficos bonitos e mais atento às causas comuns que os produzem. E se o professor tiver dúvidas sobre se funciona, a coerência pede o mesmo caminho que ensinamos: formular a pergunta, medir com cuidado e aceitar revisar a decisão diante do que encontrar.

Fontes

[1]. Wu A. Digitalized grammatization and critical thinking: synthesizing Chinese Chan pedagogy and Bernard Stiegler’s negentropic knowledge. Humanit Soc Sci Commun. 2023;10. doi:10.1057/s41599-023-02172-1
DOI: https://doi.org/10.1057/s41599-023-02172-1
Disponível em: https://doi.org/10.1057/s41599-023-02172-1
Comentário: Ensaio filosófico que aproxima a pedagogia Chan, baseada em koans, da crítica de Stiegler à padronização cognitiva digital. Sustenta que o koan pode preservar a experiência do pensamento e fortalecer a crítica. Fundamenta, no texto, a existência de propostas acadêmicas de uso pedagógico dos koans, sem oferecer evidência empírica de eficácia.

[2]. Nicolay DA. Educação e Zen Budismo: notas para aprender o Satori. Rev Ibero-Am Estud Educ. 2012;6(2):179-90. doi:10.21723/riaee.v6i2.4881
DOI: https://doi.org/10.21723/riaee.v6i2.4881
Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/iberoamericana/article/view/4881
Comentário: Ensaio brasileiro que recorre à filosofia Zen, incluindo o koan, para propor uma educação orientada pela dúvida em lugar das certezas absolutas. Aproxima o leitor de língua portuguesa da tradição e ancora a ideia de dúvida perene como atitude formativa. É texto reflexivo, não estudo empírico.

[3]. Mann K, Gordon J, MacLeod A. Reflection and reflective practice in health professions education: a systematic review. Adv Health Sci Educ Theory Pract. 2009;14(4):595-621. doi:10.1007/s10459-007-9090-2
DOI: https://doi.org/10.1007/s10459-007-9090-2
Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10459-007-9090-2
Comentário: Revisão sistemática de referência sobre reflexão no ensino em saúde, com 29 estudos incluídos. Mostra que a reflexão favorece aprendizagem mais profunda, mas registra ausência de ensaios randomizados e de evidência consistente de melhora da prática. Sustenta a hipótese pedagógica do texto e, ao mesmo tempo, seus limites.

[4]. Coomarasamy A, Khan KS. What is the evidence that postgraduate teaching in evidence based medicine changes anything? A systematic review. BMJ. 2004;329(7473):1017. doi:10.1136/bmj.329.7473.1017
DOI: https://doi.org/10.1136/bmj.329.7473.1017
Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC524555/
Comentário: Revisão sistemática que compara o ensino isolado e o ensino integrado à prática clínica de medicina baseada em evidências na pós-graduação. O isolado melhorou apenas o conhecimento; o integrado melhorou conhecimento, habilidades, atitudes e comportamento. Justifica, no texto, que o koan termine sempre na aplicação a um artigo real.

[5]. Bala MM, Poklepović Peričić T, Zajac J, Rohwer A, Klugarova J, Välimäki M, et al. What are the effects of teaching Evidence-Based Health Care (EBHC) at different levels of health professions education? An updated overview of systematic reviews. PLoS One. 2021;16(7):e0254191. doi:10.1371/journal.pone.0254191
DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0254191
Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8297776/
Comentário: Visão geral atualizada de 22 revisões sistemáticas sobre o ensino de saúde baseada em evidências. Recomenda ensino interativo, multifacetado, integrado à prática e acompanhado de avaliação, e aponta heterogeneidade de instrumentos e seguimento curto como limitações da área. Apoia tanto a dinâmica proposta quanto o desenho de verificação sugerido.

Pontos para Recordar

  1. As narrativas da coleção são inspiradas em koans, mas não são koans tradicionais, porque visam um erro de raciocínio definido e admitem uma direção correta.
  2. A perplexidade provocada por uma cena breve cria uma pausa que favorece o exame dos próprios pressupostos.
  3. A literatura sobre prática reflexiva indica aprendizagem mais profunda, mas não demonstra, por si, melhora da competência ou da prática.
  4. A dinâmica de cinco minutos tem quatro movimentos: leitura, um minuto individual, discussão em dupla e aplicação a um artigo real.
  5. O ensino integrado à prática produz ganhos mais amplos do que o ensino isolado, por isso o koan deve terminar em um artigo.
  6. Estudos concordantes podem compartilhar o mesmo viés, e heterogeneidade baixa não substitui a avaliação do risco de viés de cada estudo.
  7. A eficácia da coleção ainda precisa ser verificada, idealmente com casos antes da atividade e casos diferentes depois dela.

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